IA pode transformar o trânsito de Belém com semáforos inteligentes e decisões em tempo real
Especialista na área afirma que o maior desafio é fazer com que as instituições conversem e trabalhem de forma integrada
Quem enfrenta diariamente os congestionamentos de Belém sabe que o trânsito da capital paraense está longe de ser um problema simples. Horários de pico, chuvas intensas, grandes eventos e o crescimento da frota de veículos tornam a mobilidade um desafio constante. Mas uma tecnologia que já começa a ser utilizada em diferentes partes do mundo pode ajudar a mudar esse cenário: a Inteligência Artificial (IA).
Em vez de operar com tempos fixos de semáforos ou depender apenas da atuação dos agentes de trânsito, a IA utiliza grandes volumes de dados para analisar o comportamento da cidade praticamente em tempo real e tomar decisões capazes de melhorar a circulação de veículos.
Para o doutor em Engenharia Informática, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenador do eixo Internet das Coisas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia IAmazônia (INCT IAmazônia), Eduardo Cerqueira, a principal mudança está justamente na forma como o trânsito passa a ser administrado. “Quando uma cidade começa a utilizar dados e gerar inteligência através deles, ela deixa de operar com programações fixas ou manuais de semáforos e passa a operar com base em dados quase em tempo real. A Inteligência Artificial consegue analisar o fluxo de veículos, a velocidade média, os horários de pico, as condições climáticas e até eventos que acontecem na cidade”, explica.
Segundo o pesquisador, uma cidade como Belém reúne características que tornam esse tipo de tecnologia ainda mais útil. Além dos congestionamentos diários, fatores como as chuvas frequentes e grandes eventos, a exemplo do Círio de Nazaré ou de partidas de futebol, podem ser incorporados aos sistemas inteligentes para antecipar problemas. “A gente consegue predizer gargalos e gerar uma inteligência para fazer adaptações nos semáforos e minimizar esses impactos. Isso pode acontecer em um cruzamento, em um bairro ou até em uma região inteira da cidade”, afirma.
Ele ressalta que a proposta é substituir o modelo reativo, baseado em programações fixas, por um sistema capaz de prever situações e agir antes que os congestionamentos se formem. “Com base em dados em tempo real e dados históricos, a Inteligência Artificial consegue controlar os semáforos para melhorar o fluxo de veículos, diminuir congestionamentos, reduzir acidentes, estresse e até a poluição”, destaca.
Dados são a base dos semáforos inteligentes
Para que esse sistema funcione, a matéria-prima é a informação. Câmeras, sensores, radares, GPS de veículos, aplicativos de mobilidade, centrais de atendimento e bancos de dados históricos alimentam continuamente os algoritmos de Inteligência Artificial. “A base da Inteligência Artificial são os dados. Eles podem ser coletados por câmeras, sensores, radares, GPS, aplicativos de mobilidade e diversas outras fontes. A IA processa essas informações e gera uma inteligência que pode ser aplicada naquele momento ou fazer previsões sobre o que vai acontecer daqui a meia hora”, explica Eduardo.
Segundo ele, essa capacidade de antecipação permite que o sistema faça ajustes antes mesmo do início do horário de pico ou da chegada de uma chuva intensa. “Quando sabemos que daqui a pouco vai começar o horário de maior movimento ou que vai chover, já podemos fazer uma programação para minimizar os impactos. A ideia é criar ondas verdes, rotas e estratégias que melhorem o fluxo e a qualidade do trânsito”, afirma.
Mobilidade mais inteligente
A aplicação da Inteligência Artificial não se limita ao controle dos semáforos. Assim como aplicativos de navegação já utilizam dados para indicar os melhores caminhos, a tecnologia pode integrar diferentes formas de deslocamento pela cidade. “Assim como acontece hoje com o Waze e o Google Maps, a Inteligência Artificial utiliza dados para melhorar a mobilidade urbana. Ela pode integrar transporte privado, transporte público e outros modais. Pode, inclusive, sugerir que a pessoa vá de carro até determinado ponto e complete a viagem de ônibus, se essa for a alternativa mais rápida, econômica ou menos poluente”, explica. Na avaliação do pesquisador, esse tipo de integração pode incentivar o uso do transporte coletivo e de outros modais, reduzindo a quantidade de veículos nas ruas.
Benefícios vão além da redução dos congestionamentos
Os ganhos, segundo Eduardo Cerqueira, não se restringem à fluidez do trânsito. A IA também pode aumentar a segurança nas vias, reduzir impactos ambientais e melhorar o atendimento em situações de emergência. “Se a gente identifica um veículo em alta velocidade ou realizando manobras perigosas, é possível sinalizar esse veículo ou acionar as autoridades para reduzir o risco de acidentes”, afirma.
Outra vantagem está na escolha de rotas mais eficientes. “Dependendo do veículo, seja elétrico ou a combustão, podemos recomendar trajetos que tenham menos paradas e reduzam o consumo de combustível e a emissão de poluentes. Isso gera impactos ambientais, sociais, econômicos e também na saúde das pessoas”, diz.
O pesquisador acrescenta que a tecnologia também pode atuar em conjunto com outros órgãos públicos. “A IA pode interagir com bombeiros, ambulâncias e polícia para criar rotas estratégicas que permitam chegar mais rápido ao destino, causando o menor impacto possível para os demais veículos”, explica.
Belém tem potencial para implantar a tecnologia
Na avaliação de Eduardo Cerqueira, Belém reúne todas as características necessárias para adotar sistemas inteligentes de mobilidade. “O congestionamento é um problema das grandes cidades, e Belém se enquadra nesse cenário. Quanto mais tempo as pessoas passam dentro do carro, maior é o desgaste para a saúde mental, maior é o desperdício de tempo, o prejuízo financeiro e também o impacto ambiental”, afirma.
Ele destaca que a própria Universidade Federal do Pará já desenvolve pesquisas voltadas para cidades inteligentes e dispõe de soluções que podem contribuir para esse processo. “Hoje nós já temos um conjunto de soluções que poderiam ser aplicadas na cidade de Belém, em parceria com o poder público ou com a iniciativa privada. Se conseguirmos trabalhar junto com a Prefeitura, podemos tornar o sistema de transporte mais inteligente, mais eficiente e trazer benefícios para toda a população”, ressalta.
Investimento e integração são os principais desafios
Embora a tecnologia esteja disponível, sua implantação exige planejamento, infraestrutura e integração entre diferentes instituições. Para Eduardo, o maior desafio não é tecnológico. “O principal desafio é fazer com que prefeitura, universidade, empresas e sociedade conversem e trabalhem de forma integrada”, afirma.
Do ponto de vista técnico, ele cita a necessidade de ampliar a infraestrutura com câmeras, sensores, GPS, sistemas de comunicação e semáforos inteligentes. “Também precisamos investir em segurança cibernética para impedir que pessoas não autorizadas alterem o sistema e provoquem problemas no trânsito. Felizmente, nós já temos conhecimento para desenvolver mecanismos de proteção”, explica.
Sobre os custos, o pesquisador reconhece que o investimento inicial pode ser elevado, mas avalia que os benefícios compensam ao longo do tempo. “Existe um investimento inicial maior e um custeio permanente, como acontece em qualquer projeto. Mas, em médio e longo prazo, os benefícios econômicos, sociais, ambientais e para a saúde da população são muito significativos”, diz.
Inteligência Artificial não substitui os agentes
Apesar do avanço da tecnologia, Eduardo Cerqueira faz questão de destacar que a IA não substitui o trabalho humano. “O objetivo da Inteligência Artificial não é substituir o agente de trânsito, mas trabalhar em conjunto com ele. Ela oferece ferramentas capazes de cruzar grandes volumes de dados, simular cenários e auxiliar na tomada de decisões, enquanto as questões que envolvem contexto social, econômico e ambiental continuam dependendo das pessoas”, afirma.
Implantação pode começar por projetos-piloto
Para o pesquisador, a adoção da tecnologia em Belém pode ocorrer de forma gradual, priorizando cruzamentos com maior índice de acidentes, corredores estratégicos, áreas próximas a hospitais, escolas, mercados, terminais rodoviários e locais que recebem grandes eventos.
Ele cita como referência internacional a cidade de Aveiro, em Portugal, onde universidade e prefeitura trabalham em conjunto para utilizar dados na gestão da mobilidade urbana. No Brasil, menciona a iniciativa Green Light, implantada em São Caetano do Sul (SP), em parceria com o Google, para otimizar o funcionamento dos semáforos.
Eduardo acredita que a capital paraense tem potencial para se tornar referência nacional na área. “Belém tem um potencial enorme e pode ser um case de sucesso para o Brasil e para o mundo. Podemos começar com um projeto-piloto, entender os resultados, ouvir os agentes de trânsito, a população e o governo e depois expandir a solução para outras áreas da cidade. Isso melhora a logística, reduz o estresse, diminui a emissão de gases poluentes e traz benefícios para toda a sociedade”, conclui.
Procurada pela reportagem do Grupo Liberal, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade (Segbel), informou que “Belém possui atualmente 444 cruzamentos semaforizados”. “Desses, 300 equipamentos semafóricos contam com uma ferramenta de Inteligência Artificial capaz de monitorar o fluxo de veículos em tempo real e adequar automaticamente os tempos dos semáforos, contribuindo para maior fluidez e segurança no trânsito”, garante a prefeitura.
Ainda de acordo com a pasta, “o Centro de Controle Operacional acompanha as condições do tráfego em tempo real e adota medidas operacionais sempre que necessário”. “Além disso, a Prefeitura de Belém mantém parceria com o Waze, por meio do programa Waze for Cities, e com o Google, integrando informações que auxiliam na gestão da mobilidade e na orientação dos usuários das vias”, acrescenta o posicionamento da prefeitura.
“A Segbel segue investindo na modernização da infraestrutura semafórica e na ampliação de soluções inteligentes para a mobilidade urbana. A utilização da Inteligência Artificial contribui para reduzir congestionamentos, otimizar os deslocamentos, aumentar a segurança viária e melhorar a eficiência da operação do trânsito e do transporte público”, conclui.
Cidades já usam Inteligência Artificial para tornar o trânsito mais eficiente
A utilização da Inteligência Artificial (IA) para melhorar a mobilidade urbana já deixou de ser uma aposta e passou a fazer parte da rotina de cidades ao redor do mundo. Sistemas capazes de analisar imagens, identificar congestionamentos em tempo real e ajustar automaticamente a programação dos semáforos vêm sendo adotados para reduzir o tempo de deslocamento, dar prioridade a veículos de emergência e tornar o trânsito mais seguro.
A principal referência mundial é Hangzhou, na China. Desde 2016, a cidade utiliza o sistema City Brain, atualmente em sua terceira geração. A tecnologia monitora continuamente o trânsito por meio de milhares de câmeras espalhadas pela cidade. Quando há um congestionamento, a Inteligência Artificial identifica a origem do problema. Em casos de acidentes com vítimas, operadores humanos são imediatamente alertados, enquanto o sistema acompanha o deslocamento das ambulâncias e altera automaticamente o tempo dos semáforos para garantir prioridade no atendimento.
Nos Estados Unidos, Nova York iniciou, em 2023, um programa de modernização do trânsito nos principais corredores viários da cidade. O projeto utiliza câmeras inteligentes para monitorar o fluxo de veículos. Diferentemente do modelo chinês, porém, qualquer alteração na programação dos semáforos depende da análise e autorização de um técnico do Centro de Gerenciamento de Tráfego da prefeitura.
No Brasil, algumas cidades também avançam na adoção da tecnologia. Em Curitiba (PR), os primeiros testes com Inteligência Artificial começaram em 2019. A partir de 2025, a prefeitura ampliou o projeto, que atualmente opera em 45 cruzamentos localizados em bairros populosos, utilizando a tecnologia para otimizar o fluxo de veículos.
Já em Santo André (SP), as primeiras experiências tiveram início em 2023. O sistema monitora vias de grande circulação e é capaz de alterar automaticamente o tempo dos semáforos conforme o volume do tráfego. A tecnologia também já foi utilizada em uma operação policial, permitindo o fechamento sincronizado dos sinais para auxiliar na prisão de um suspeito. Apesar da automação, técnicos da prefeitura podem intervir na programação sempre que considerarem necessário.
Em Belo Horizonte (MG), a prefeitura anunciou neste mês que iniciará, em agosto, a instalação de semáforos inteligentes. A meta é que, até o fim do ano, pelo menos metade dos sinais da capital esteja integrada ao novo sistema. Entre os objetivos estão a criação de "ondas verdes" e a priorização da circulação de ônibus e ambulâncias.
Outra capital que começou a testar a tecnologia é Fortaleza (CE). Desde junho, a cidade desenvolve um projeto-piloto de monitoramento do tráfego com Inteligência Artificial, que inclui ajustes automáticos na sinalização conforme o volume de veículos registrado nas vias.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA