"Jamais nos deixem perder a esperança", disse padre Bruno Secchi em última entrevista

Religioso recebeu a equipe de O Liberal nesta sexta-feira (29), horas antes de falecer

Eduardo Rocha

A relação de padre Bruno Sechi (falecido nesta sexta-feira, 29) com a imprensa sempre foi direta e afável. Tanto que na quarta-feira (27) ele respondeu, via WhatsApp, a uma entrevista a O Liberal com cinco áudios gravados. Nesta sexta-feira pela manhã, retornou a uma ligação da reportagem para marcar uma sessão de fotos na sede do Movimento República de Emaús. Fotos feitas no começo da tarde pelo repórter fotográfico Cláudio Pinheiro. Entrevista pronta para a edição deste domingo (31), veio a desagradável surpresa: padre Bruno faleceu no final da tarde

Sempre gentil e focado em uma vida mais digna para os cidadãos da periferia de Belém, padre Bruno enfatiza na entrevista sua confiança na sociedade paraense para não deixar as crianças e adolescentes de famílias pobres sem um futuro. “Jamais nos deixem perder a esperança”, destacou o idealizador e fundador do Movimento República de Emaús. O Movimento completará 50 anos em 12 de outubro (Dia da Criança).

A memória de padre Bruno permanece entre aqueles que acompanham e foram amparados pelo Emaús e, em particular, pelos jornalistas, como eu, que o conhecia há décadas.

Os  50 anos do Emaús chegam em um 2020 marcado pela covid-19 e pela maior crise financeira da instituição. Mas, os membros da coordenação que receberam a informação de que padre Bruno morreu no escritório dele na sede do Emaús, no bairro do Benguí, já anteciparam que pretendem continuar com o Movimento.

O Movimento República de Emaús atende 800 crianças e adolescentes. Está estruturado nas expressões República de Emaús, Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) e na Campanha de Emaús. A República atua com atividades de arte e cultura, esporte e formação profissional, no contexto da inclusão social e garantia de direitos. O Cedeca cuida da parte jurídica e da garantia dos Direitos Humanos no que tange a esse público específico, ou seja, basicamente violências contra crianças e adolescentes.

Confira a última entrevista de padre Bruno.

O Movimento República de Emaús completará 50 anos de funcionamento em 12 de outubro deste ano. Como o senhor entende o fato de essa instituição que atua na assistência social/formação de crianças, adolescentes e famílias chegar a meio século de existência e se encontrar em situação financeira muito difícil?

BS – Na verdade, o Movimento de Emaús, ao longo desses 50 anos, nunca teve uma situação financeira estável, segura, porque sempre contou com o apoio da comunidade, e o apoio da comunidade tem os seus limites. Agora, na pandemia, nós compartilhamos as situações difíceis de manter as atividades ou de manter os compromissos mais que as atividades, os compromissos mensais, pagamentos de água, luz, telefone, de pessoas que têm que continuar trabalhando e que não podem ficar sem receber. Todos esses encargos e todas essas despesas são garantidas através, principalmente, da Campanha de Emaús.  A campanha abrange receber doações de objetos e vender a preços populares, está tudo fechado. Então, fecharam também as entradas para garantir os nossos compromissos. Compartilhamos, na verdade, a situação difícil que toda a sociedade, principalmente os mais pobres, está vivendo. Nós não somos uma entidade, nunca fomos uma entidade rica; sempre fomos uma entidade que se desenvolveu tendo como lema prioritário e fundamental a solidariedade da própria comunidade. Então, nós sairemos, sim, dessa situação. Só que neste momento, cada vez mais, precisamos do apoio e da participação de todos aqueles que de  uma maneira ou de outra fizeram parte desses 50 anos. Quantas e quantas pessoas passaram por aqui, né? E nessas pessoas, nesta solidariedade com quem enfrenta sérias dificuldades, nós temos certeza de que, com muita dificuldade, é verdade, nós conseguiremos superar este momento.


O que tem significado o Movimento República de Emaús para cidadãos da periferia de Belém, de baixa ou baixíssima renda, sobretudo, para crianças e adolescentes? Por que e como surgiu o Movimento? O que motivou essa ação?

BS - Situado, inclusive, geograficamente na periferia da cidade, saímos, é verdade do Jurunas, da Cremação, da Condor, e agora estamos no Benguí, o Movimento é uma âncora, uma âncora que pode dar sustentação, resgatar tantos meninas e meninas que se encontram em situação de fragilidade extrema, e resgatar significa fazer com que eles, através de todo um processo pedagógico, sintam-se cidadãos e lutem pela cidadania, que lutem por seus direitos. Essa é um pouco a relação do Movimento de Emaús com a comunidade, inclusive com o Centro de Defesa (Cedeca) com ações jurídico-sociais. Enfim, é uma âncora, que compartilha com toda essa garotada,  com suas famílias, as angústias, mas, também, a galhardia de lutar por dias melhores, por condições melhores de vida, por reconhecimento de sua cidadania.


O que significa ser solidário para com o próximo, preocupar-se com uma vida digna para crianças e adolescentes de famílias de baixa renda?

BS – Ser solidário para com o próximo significa ter uma visão diferente de mundo, onde não haja explorados nem exploradores, onde todos se sintam reconhecidos na sua dignidade, onde quem tem mais possa repartir com quem não tem. Enfim, é um projeto de vida, é um projeto de sociedade, uma sociedade pautada pela solidariedade, pela partilha, pelo reconhecimento da dignidade das pessoas, pela atenção especial para aquele segmento dos que são mais fragilizados, e o Movimento de Emaús trabalha justamente  com os mais fragilizados ou muito fragilizados, que são as nossas crianças e adolescentes, ser solidário com eles significa apostar na construção de uma sociedade diferente, de uma sociedade que não seja pautada pelo dinheiro, pelo lucro, uma sociedade que seja realmente respeitosa  e que assuma a dimensão igualitária das pessoas que dela fazem parte. E as crianças, os adolescentes, os jovens e as famílias não podem ficar à margem desta luta pela solidariedade como um estilo, uma forma de sociedade.

Quais os cidadãos que mais são prejudicados com as dificuldades enfrentadas pelo Movimento?

BS – Em tempos de crise, os mais prejudicados e que sofrem mais são aqueles que são de alguma forma marginalizados e vivem com  muita dificuldade. Ora, numa situação como a nossa, quem vive lutando pela vida dia após dia percebe que as fontes pequenas que fossem mas que ajudavam a levar a vida adiante acabam secando. Então, se não há neste momento, um grande movimento para que mesmo de uma forma assistencial, mas que eu não considero assistencialista, uma situação de emergência, nós vamos ter as pessoas marginalizadas mais marginalizadas ainda. E isso seria outra pandemia. Seria triste viver numa sociedade onde não haja lugar para a solidariedade. Estamos percebendo, e nós aqui, no Emaús, também, estamos percebendo, sentindo o quanto ainda a solidariedade nos faz manter viva a esperança.

Como reverter esse quadro adverso atual ao Movimento? O senhor acredita que a sociedade paraense vai contribuir para que o Movimento República de Emaús se fortaleça e vença a crise?

BS – Eu acredito que a sociedade paraense não vai deixar o Movimento morrer, com certeza absoluta. É claro que um momento de crise também é um momento de despertar e sentir de perto o quanto a contribuição minha, por pequena que seja, pode contribuir para manter acesa a chama, a chama da vida, a chama da vida digna, a chama da vida de um Movimento que com 50 anos atravessando tantas e tantas dificuldades não é agora que vai se sentir abandonado por todos e por quantos que sempre acreditaram nele. E isso nós estamos começando a perceber. E, com certeza, conseguiremos contar ainda mais. É claro que aí tem que ter criatividade, encontrar caminhos para estimular as pessoas, para agradecer as pessoas. Então, dias melhores virão, e tiraremos muitas lições dessa experiência tão difícil que estamos vivendo. Mas, dias melhores virão. Não podemos perder a esperança. Seria o fim. Jamais nos deixem perder a esperança.

 

Para ajudar a República de Emaús

Informações: 98745-4336.

Doações: Movimento República de Emaús - CNPJ 63.887-558/0001-50
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Banpará - agência: 0024 / conta corrente: 301121-6
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