Hospital Veterinário de Belém enfrenta denúncias de superlotação, demora e falhas estruturais
Relatos apontam espera de até horas, encaminhamentos para outras unidades e aumento de óbitos de animais
Inaugurado no dia 21 de janeiro deste ano, o Hospital Veterinário Municipal (HVET), administrado pela Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Sepda) e localizado na avenida José Bonifácio, em Belém, tem sido alvo de denúncias relacionadas a problemas estruturais, número reduzido de profissionais e dificuldades no atendimento à população.
Segundo Carmen Américo, do Instituto Carmen Américo do Projeto Xerimbabos, os principais problemas envolvem tanto a estrutura física quanto a equipe disponível. “O principal problema é o número reduzido de profissionais para acompanhar a demanda. E também problemas estruturais. Há poucos dias, o piso inteiro do hospital estava alagado com água de fossa. Isso porque eles esqueceram de fazer a manutenção da fossa do local e a água invadiu toda a área de atendimento”, contou.
Ela afirmou que a escassez de profissionais impacta diretamente no atendimento. “Ter pouca gente para atender significa que o animal que vem buscar atendimento, ao invés de sair daqui curado, ele pode sair daqui morto. Porque a longa espera por atendimento deteriora a saúde do animal. E, muitas vezes, essa espera é concluída sem nenhum tipo de atendimento”, disse.
Carmen Américo também afirmou que a limitação de vagas para internação agrava o problema. “Por exemplo, o animal que precisa de internação vem até o hospital, mas encontra um número muito reduzido de vagas, que ainda passam por critérios difíceis de acessar. Sem conseguir internar, ele volta para casa sem atendimento. Com isso, o quadro de saúde piora e, em muitos casos, o resultado é o que mais temos registrado em denúncias que recebemos: um número muito grande de óbitos”, explicou.
Ela também apontou que a quantidade de profissionais é insuficiente em todos os setores. “O efetivo de profissionais em todos os setores é menor do que o necessário - na recepção, o atendimento de veterinários, na internação. Então tudo isso com o objetivo de provavelmente reduzir custos, uma vez que, por mais que a prefeitura apresente esse hospital como um hospital público, isso aqui é um hospital privado, operado por uma empresa, pago pela prefeitura. Então, como qualquer iniciativa privada, a lógica fundamental e final é o lucro. E, para isso, o que a gente está entendendo é que estão reduzindo custos com o pessoal”, disse.
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Condições de espera são precárias, diz Carmen Américo
Ainda conforme Carmen, as condições de espera são precárias. “Ficar das seis da manhã, às seis da tarde, dentro de um hospital, num imenso calor, sentado no chão, sem nenhum tipo de acolhimento, traz uma indignidade tanto para o animal quanto para as pessoas que vêm atender. A gente tem recebido muitas denúncias de entristecimento de pessoas que buscam acolhimento”, disse.
“Lá em cima, na espera, não tem ar-condicionado e nem lugar suficiente para todo mundo sentar”, contou. “Muitas vezes as pessoas esperam por longas horas sentadas no chão, com o animal no chão, porque também não há macas para acolher esse animal que espera”, destacou.
Carmen acrescentou que, apesar de reconhecer o esforço dos profissionais, o saldo geral ainda é negativo. “Ah, é verdade, animais sendo salvos? Ah, claro, os profissionais que estão aí, eles estão aí para isso, mas o equilíbrio entre o que está sendo bom e o que está sendo ruim ainda é muito negativo”, disse.
Sobre o abandono de animais no hospital, ela relativizou a situação no entorno da unidade. “Nesse hospital de São Brás, eu, pessoalmente, não conheço uma denúncia de abandono, talvez porque aqui seja mais monitorado, tem segurança do banco (a agência bancária ao lado), mas o abandono de animais é uma coisa comum em todos as capitais do país, na porta de hospitais”, observou.
Usuários reclamam de dificuldades no atendimento
Usuários do serviço também relatam dificuldades no atendimento. A autônoma Thaís Ribeiro, 32 anos, procurou o hospital com o cachorro Boruto, de três anos. “É que deu um caroço nele e ele não está comendo, e ele está sentindo s dores. E aí, para mim, eu achava que era caso de urgência”, disse. “Eu vim aqui, só que eles me mandaram ir pra Marquês (uma clínica na Marquês de Herval, no bairro da Pedreira)”, contou.
Ela informou que chegou ao local por volta de 7h30 desta terça-feira (28) e, após horas de espera, foi orientada a buscar atendimento em outro endereço. “Agora são 10 horas e aí eu vou ter que ir lá pra Marquês ver e ainda vou ser atendida”, disse. Segundo Thaís, o deslocamento gera mais custos e não resolve o problema de imediato. “Acabou que a gente vai para lá e vai ter que voltar pra cá depois, porque a gente vai ter que fazer exame, vai ter que... Vai precisar de uma cirurgia. Mais despesa e ficar andando pra lá e pra cá. Não resolvi nada”, lamentou. “É ruim, porque é um hospital que deveria ser para acolher a gente...”
Outro caso é o de Dioneide Antunes Chada Barbosa, 54 anos, que tenta atendimento para o cachorro Boo. “Tem um mês que eu estou vindo com ele aqui. Ele está com um coágulo. São tumores. Já fez todos os exames. Só que a gente não consegue chegar para fazer a cirurgia, porque ele é caso cirúrgico”, contou.
Ela afirmou que, apesar de já ter realizado os exames pré-operatórios, não conseguiu avançar no tratamento. “Já estou com todos os exames pré-operatórios, mas a gente não consegue chegar na avaliação para a cirurgia. Por conta de não ter profissional suficiente para atender. Então ele deveria ser operado hoje (terça-feira), com a urgência dele, mas foi marcado para o dia 5 de maio essa consulta pré-cirúrgica”, afirmou.
Dioneide também citou gastos extras com exames realizados fora do hospital. “Eu já fiz o eletrocardiograma dele particular, porque a máquina estava com defeito aqui. Então eu tive que fazer por fora alguns exames. Mas eu não sei se ele vai suportar até lá (5 de maio)”, disse.
A tutora expressa preocupação com o estado de saúde do animal, que tem quase 14 anos. “Eu estou me sentindo lesada, porque é algo que é prometido e não é cumprido. É um animal, ele não sabe falar. Vive com a gente desde bebezinho. Ele tem quase 14 anos e, para mim, é um filho. Então a dor que eu estou sentindo é igual como se fosse um filho meu quando está doente”, disse, emocionada. Apesar das críticas, Dioneide elogiou a equipe de triagem. “Médicos são maravilhosos da triagem. A equipe é boa. Mas eles não têm os meios. Não tem gente... está faltando pessoal para trabalhar”, disse.
Prefeitura nega redução no quadro de profissionais
A Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria de Proteção e Defesa Animal ( Sepda), informa que não procede a informação de redução no número de profissionais do HVET. Atualmente, são 70 funcionários CLT e 30 médicos veterinários, atendendo em dois turnos, de segunda a segunda. Em relação ao alagamento, provocado pela fossa, ele foi provocado pelas fortes chuvas do período. O problema já está sendo resolvido com o acionamento de uma empresa de limpa fossa para os devidos serviços.
Em relação às filas, ocasionais, de atendimento, a Prefeitura esclarece que devido ao alto número de atendimentos de urgência e emergência nos finais de semana, e o alto índice de abandono de animais que já receberam alta, impossibilitam o número de leitos disponíveis. A Prefeitura reforça que a Rede Belém Animal possui locais específicos para atendimentos básicos, que são a Clínica Municipal e as unidades móveis, mas devido a centralização do Hospital, as pessoas acabam sobrecarregando os atendimentos diários no HVET.
A Prefeitura informa ainda que no período de 01 a 28 de abril, houve 122 internações, com 57 altas e 46 óbitos. O tempo de duração médio
no setor de UTI foi de 6 dias e 7 horas. A maioria das internações são em urgência e emergência, em casos de atropelamentos, problemas nefropaticos, oncológicos, traumas e problemas de partos distocitos.
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