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CUIDADOS

Gravidez na adolescência exige mudanças na rotina

Psicóloga afirma que meninas que engravidam nessa fase da vida precisam receber mais atenção para super desafios

Dilson Pimentel

6 de março de 2022 às 08:00

No Brasil, um em cada cinco bebês nasce de uma mãe com idade entre 10 e 19 anos. Estima-se que mais de 400 mil adolescentes se tornam mães por ano no País, segundo o Ministério da Saúde. Isso significa que cerca de 18% dos brasileiros nascidos são filhos de mães adolescentes.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, lançou agora o “Guia de Autocuidado: Recomendações para a Prevenção do Risco Sexual Precoce e da Gravidez na Adolescência”. É uma ferramenta para auxiliar crianças e adolescentes de todo o país no entendimento sobre riscos de uma gestação nesta fase da vida.

Ainda na adolescência, Ana Paula Corrêa ficou abalada com a notícia da gravidez, mas hoje é grata pela filha Paloma
Ainda na adolescência, Ana Paula Corrêa ficou abalada com a notícia da gravidez, mas hoje é grata pela filha Paloma (Cristino Martins / O Liberal)

O material, que está disponível no hotsite do Plano Nacional de Prevenção Primária do Risco Sexual Precoce e Gravidez de Adolescentes, tem linguagem fácil para abordar a importância do autocuidado.

O texto informa que é preciso que esse autocuidado seja reforçado com informações sobre o risco sexual precoce e suas consequências, de modo que vivam as relações afetivas e a sexualidade com responsabilidade no tempo certo, desenvolvendo aprendizagens e experiências que lhes permitem tomar decisões saudáveis e por si mesmos.

Entre as dicas apontadas, recomenda-se o autocuidado em diferentes áreas da vida: psicológico, emocional, físico, espiritual, social. Em relação ao contexto psicológico, o material convida a praticar atividades que ajudam a gerenciar o estresse da rotina, como escrever um diário, ler, ficar atento aos pensamentos, atitudes e sentimentos, estabelecer limites e dizer “não” quando for preciso e reconhecer as qualidades.

Jovem teve dificuldade para fazer o pré-natal por ser muita nova

“Eu achava que o mundo estava desabando naquele momento”. A frase, dita por Ana Paula Corrêa, resume o que ela sentiu ao engravidar aos 14 anos. “Foi um baque muito forte pra mim e pra minha família”, contou ela, que hoje tem 22 anos.

Morando em Ananindeua, e trabalhando em casa de família, onde cuida de uma criança, Ana Paula conta que, por ser adolescente, foi difícil para fazer o pré-natal. “O SUS não queria me aceitar, porque eu tinha 14 anos e ninguém queria fazer o meu pré-natal. A moça que me atendeu me esculhambava que só porque eu tinha engravidado cedo”, disse.

A “ficha caiu” quando começou a ver a barriga grande. “E comecei a dizer assim: ‘eu sou nova, mas tenho que ter a minha responsabilidade de mãe’. No começo, não queria acreditar que estava grávida. Mas o tempo foi passando e decidi que daria todo o amor do mundo para a minha filha. Ela vai precisar, ela merece”, acrescentou a jovem.

Durante o parto, tudo correu bem. Mas, depois do procedimento, ela teve complicações. “Eu fiquei em coma. O meu medo era, naquele momento, deixar a minha filha. Mas, graças a Deus, deu tudo certo”, contou. Por ser mãe nova, ouviu muitas críticas. Mas que, hoje em dia, é grata por ser mãe.

“Sou muito grata a Deus por ter colocado a minha filha em minha vida. Eu passaria tudo de novo pela minha filha. Valeu a pena. Ver a minha filha grande, sendo a minha parceira, pra todo canto que eu vou ela vai comigo”, contou. A filha, Paloma Letícia, tem seis anos.

Ana Paula aconselha as meninas a não engravidarem cedo. “É muito difícil não ter experiência ainda na vida É complicado ser mãe nova. Previnam-se, se cuidem, tenham na idade certa filho”, contou. Já as meninas que engravidaram na adolescência não devem se arrepender, segundo ela. “Tudo no começo é difícil. Mas, depois, vale a pena. Não é fácil engravidar cedo, mas daqui a pouco a pessoa vai olhar para sua filha e vai dizer: o quanto valeu a pena”, disse.

Ao engravidar, adolescente precisa de uma atenção maior, recomenda psicóloga

A psicóloga Danielle Almeida diz que a adolescência é um momento de transição da fase infantil da criança para o adulto para a fase adulta. Esse momento de transição vem com a descoberta de mundo, com a descoberta do próprio corpo, com os relacionamentos afetivos, com os interesses em relação ao sexo, seja o sexo oposto ou do mesmo sexo. A adolescência também traz grandes desafios.

E muitos adolescentes, na descoberta do corpo e da sexualidade, e no início de relações afetivas, têm relacionamentos sexuais, e, com a falta de conhecimento, engravidam. E, quando isso ocorre, essa adolescente precisa de uma maior atenção. “Muitos sonhos já são impedidos de serem realizados”, disse a psicóloga Danielle Almeida. Há, também, a dificuldade para manter a rotina na escola e os encontros com os amigos. “Muitas vezes, o adolescente que é o pai, que teve a relação sexual, não fica com a adolescente. Então são momentos bem difíceis, momentos traumáticos, onde essa adolescentes precisam de uma atenção e um cuidado maior”, disse.

E os pais, os responsáveis, e muitas vezes alguns professores, têm essa visão de acolhimento do adolescente. “E isso aí, sim, é muito importante”, contou. O autocuidado é a responsabilidade com o próprio corpo na fase da adolescência. Para que esse momento não seja de grande dificuldade para esse adolescente, cabe ao Ministério da Saúde e aos familiares esse cuidado maior. “Muitas vezes algumas escolas, professores, através de aulas, de campanhas, de semanas que passam a instruir esses jovens com relação ao autocuidado com o corpo, demonstrando vários meios e formas de prevenção do ato sexual”, disse.

No "Abelardo Santos", em média 36 mulheres com menos de 18 anos dão à luz na unidade por mês

A todos os adolescentes cabe esse autocuidado com relação ao seu corpo, com respeito aos seus desejos e também com respeito e os desejos do próximo. “É um momento de instrução, desse autocuidado, onde ensinamos aos jovens, aos adolescentes, no momento da relação sexual que possam se prevenir e tenham esse cuidado para que não venham a ter uma gravidez indesejada”, afirmou.

Em Belém, o Hospital Regional Dr. Abelardo Santos (HRAS), no distrito de Icoaraci, segue o panorama nacional: em média, 36 mulheres com menos de 18 anos dão à luz na unidade por mês - isso representa 12% dos partos feitos na unidade em 30 dias. Em 2021, esse número totalizou 433 entre cesárias e a concepção natural.  Atualmente, o HRAS é a segunda maior maternidade do Estado.

“E, no dia a dia, percebemos um número significativo de mulheres com menos de 18 anos sendo mãe. Dessa forma, a equipe de profissionais da unidade vem se empenhando em fazer o alerta para esses adolescentes e suas famílias, já que o assunto se tornou um debate de políticas públicas e de saúde pública em todo o mundo”, disse Marcos Silveira, diretor executivo do hospital.