Família da criança Warao que morreu em casa insalubre não aceita se mudar para abrigo de Belém

Mesmo em condições precárias e sem alimentação adequada, os indígenas que alugaram uma casa no bairro da Campina não aceitaram ir morar no abrigo institucional do Tapanã

João Thiago Dias

As condições em que indígenas Warao vivem em Belém voltaram a ganhar repercussão desde a última quarta-feira (18), quando ocorreu a morte de Raceli Martinez Perez, menina Warao de dois anos que estava com sintomas de gripe, desnutrição e tosse. Muitos vivem em casas alugadas por eles mesmos, mas em situação insalubre e sem alimentação adequada, como era o caso dessa criança, que morava no bairro da Campina. Já outros, residem no abrigo administrado pela Prefeitura de Belém, no bairro do Tapanã.

Segundo a Fundação Papa João XII (Funpapa), ligada à prefeitura, "uma equipe tentou, mais uma vez, levar a família da criança que veio a óbito para o abrigo, mas eles não aceitaram". Ainda segundo a assessoria, "eles estavam acolhidos no abrigo. Ficaram de maio a junho. Pediram desligamento porque iriam para o Maranhão. E retornaram há pouco tempo".

Raceli será enterrada na manhã desta sexta-feira (20), por volta das 8h, no cemitério do Tapanã, na capital. A causa da morte ainda não foi divulgada pela perícia. Quem informou foi o cacique Noberto Nunes, de 28 anos, um dos líderes do grupo que reside na casa alugada na Campina. Ele explicou que os 14 familiares dela não aceitaram ir para o abrigo devido a brigas com outros indígenas. "Eles moravam lá, mas tinha muita briga com outros Warao que bebem muita cachaça", contou ele, que consegue se comunicar em português.

O cacique explicou que está procurando um novo lar para as 18 famílias que vivem nesta casa. Ao todo, são 67 indígenas para seis quartos médios e apenas um banheiro. Além da dificuldade para conseguir alimentos, há goteiras e muito desconforto. "Trabalhamos vendendo água e refrigerante nas ruas, nos sinais, para pagar 900 reais por mês de aluguel. São 30 reais por dia. Mas estou saindo todo dia para procurar uma casa melhor. As crianças não conseguem nem dormir nessa", disse Noberto.

Mais de 580 indígenas Warao em Belém

Ao todo, a Funpapa contabiliza 585 indígenas Warao vivendo em Belém, somando 156 famílias distribuídas no abrigo municipal e nas casas alugadas pelos próprios indígenas, nos bairros da Campina e do Tapanã, e no distrito de Outeiro.

No abrigo institucional do Tapanã, há três galpões com bebedouros, banheiros, refeitório, lavanderia, lixeiras, área de saúde, educação, espaço infantil, área de convivência e administrativo. No espaço, que tem capacidade para acolher até 500 pessoas, estão 39 famílias, somando 175 pessoas.  

"As famílias recebem alimentação e ações de conscientização e orientação permanente por meio das equipes técnicas sobre as necessidades de cuidado e proteção relacionados à saúde, higiene pessoal, limpeza dos espaços coletivos, com atenção às crianças, adolescentes, gestantes e idosos", informou, em nota, a Funpapa.

E o galpão funciona de maneira institucionalizada. "O local também acolhe a equipe técnica e os servidores que trabalham no acompanhamento diário das famílias com assistentes sociais, psicólogos, antropólogos, monitores e equipe de copa e cozinha", acrescentou a nota.

São disponibilizados profissionais da educação para desenvolver atividades pedagógicas com as crianças, e avaliação de saúde com os profissionais do Consultório na Rua. "A partir dessa estrutura de pessoal, é possível garantir um acompanhamento melhor tanto das condições de saúde, educação, acesso à garantia de direitos, questão de documentação, e um atendimento social qualificado com outros elementos que não tinham anteriormente", avaliou a fundação.

Quando as famílias optam por não ficarem dentro do acolhimento institucional da prefeitura, é realizado acompanhamento periódico dessas delas, com atendimento do consultório na rua, atendimento social e distribuição de alimentos, conforme detalhou a Funpapa.

Estado

Já por parte do governo estadual, a Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster) informou "que a responsabilidade pelo abrigamento e proteção dos indígenas venezuelanos Warao, que estavam em dois abrigos estaduais, foi municipalizada em julho deste ano".

Belém
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