Em Belém, motorista de aplicativos tem carro para afastar a tristeza

Lidar com pessoas e satisfazê-las é a terapia que Mário Adriano encontrou no trabalho

Victor Furtado / Redação Integrada

Usuários de aplicativos de mobilidade já devem ter visto ou andado no carro de Mário Adriano, de 31 anos. Não tem como confundir: é um Prisma branco (QEF-2013), enfeitado com luzes e adereços diversos. Entrar no carro é quase como embarcar numa pequena festa, com música, bate-papo e decorações temáticas a determinadas datas.
 
Mário define como um veículo para ajudar a afastar a tristeza e estresse dos passageiros, ao menos por alguns momentos. Quando um passageiro sai satisfeito, ele encontra no trabalho uma terapia. Relata bastidores dos desafios difíceis de se trabalhar nos aplicativos de transporte.
 
"Um passageiro, ao final de uma corrida que deu R$ 5, me disse que nós, motoristas de aplicativos, éramos escravos por causa de R$ 5. Aquilo me magoou e me fez pensar. Foi me adoecendo devagar. Eu estava entrando numa depressão. Era o meu trabalho. Um amigo, que é muito bem ranqueado, disse que um segredo para chegar mais alto é: suportar humilhações", conta Mário, que antes era vendedor e teve muita dificuldade em encontrar outro emprego. Algo comum a muitos brasileiros, que encontraram nos aplicativos uma fonte de renda.
 
Mudar o ambiente do carro foi uma medida que Mário Adriano tomou para melhorar a pontuação dele nas plataformas nas quais roda. E melhorar o próprio ambiente para ele, já que passa a maior parte do tempo dentro do veículo. Tudo para se diferenciar e se destacar no atendimento.
 
Não deu muita sorte ao encontrar com passageiros mal-intencionados, como relata. Há uma prática comum e muito prejudicial aos motoristas: o usuário dá uma nota baixa ao trabalhador e forja uma reclamação. Não há muitos critérios de investigação da queixa e, com relativa facilidade, as plataformas devolvem o valor da corrida ao usuário. Às vezes, a indenização chega a ser maior que o valor da viagem. "As plataformas querem manter os clientes. Não se preocupam muito com os motoristas", reclama.
 
Mário Adriano viu isso ocorrer com ele. Após algumas reclamações que ele afirma serem forçadas, chegou a ser punido pelas empresas dos aplicativos. Colegas que já sabem desses problemas cotidianos dos motoristas profissionais, orientaram que ele passasse a ser mais seletivo com os passageiros. De fato deu certo e a pontuação e reputação dele melhorou. Mas sentiu que estava excluindo determinadas pessoas e isso voltou a incomodar.
 
"Tem gente que pensa que a avaliação dos motoristas, ao final da viagem, é joguinho ou brincadeira. Aquilo é sério. Pode determinar a permanência do motorista na plataforma, do emprego. E no Brasil, ser motorista de aplicativo é profissão principal, enquanto noutros países é complemento de renda. Aí algumas pessoas dão nota baixa por brincadeira ou fazem isso para ganhar o valor da corrida de volta", critica o motorista.
 

DECORAÇÃO TEMÁTICA: COPA, NATAL, BALADA...

 
Então, para tentar agradar a todo mundo e até desarmar quem estivesse mal-intencionado, resolveu enfeitar o carro para a Copa do Mundo, no ano passado. Os passageiros, conta Mário, reagiram bem. Deixavam boas avaliações. Resolveu tornar num padrão. Quando chegou o Natal, fez uma nova decoração. Um investimento relativamente alto, mas fez. Até por ele mesmo. Ele ama o período natalino.
 
Rapidamente, conta o motorista, teve resposta positiva com a decoração natalina. As crianças foram as primeiras a gostar. Certa vez apanhou uma família que tinha visto o carro passar na Estação das Docas. O filho do casal queria andar no carro, mas ele estava apanhando outro passageiro naquele momento. À noite, atendeu um chamado e era essa mesma família. Contaram sobre a coincidência e o menino foi feliz e brincando a viagem toda. "Ver o sorriso e a satisfação no rosto de uma criança não tem preço. É muito bom!", diz.
 
A princípio, achou que só as crianças iam gostar de verdade. Mas se surpreendeu com o efeito em adultos. E que realmente o carro teria algum efeito terapêutico, ainda que apenas no tempo de uma corrida. "Uma moça uma vez entrou. Começamos a conversar e falamos sobre depressão. Ela estava desempregada e muito mal com isso. Ao final da viagem, ela disse ter adorado a decoração, a conversa e disse ter saído muito melhor. Disse para eu continuar ajudando e fazendo o que estava fazendo", conta.
 
HISTÓRIA DO CASAL
 
Outra viagem que o marcou ocorreu algum tempo depois que o carro começou a ficar famoso. Foi buscar um casal na avenida Engenheiro Fernando Guilhon. "Nem queria ir porque estava distante. Mas foi Deus que me guiou até lá. Eu precisava mesmo ir", lembra.
 
O casal entrou no carro sem se falar. Ele notou que os dois estavam esquisitos. A mulher é que puxou conversa, dizendo que já conhecia o carro luminoso que parecia uma balada no trânsito. Mário topou a brincadeira e a moça fez fotos e vídeos e mandou para os amigos. Ao final, ele propôs outra brincadeira para os vídeos da passageira: ele ia colocar uma música romântica para o casal dançar.
 
Tímido, o rapaz topou e o semblante triste e carrancudo se desfez. Na despedida, o rapaz abraçou Mário. "Ele me agradeceu e disse que eles estavam para se separar. Mas graças àquele momento, ele tinha voltado a falar e se aproximar dela. Eu fiquei muito feliz com aquilo", conta, já segurando o choro.
 
Mário só não conteve as lágrimas ao contar uma história íntima dele, um lado mais negativo da profissão que ele aprendeu a tornar mais leve, terapêutica e satisfatória. "Ser motorista de aplicativos é abrir mão de estar com sua família, amigos, para estar trabalhando e conseguindo o sustento, atendendo outras pessoas, da melhor maneira possível, mas que ainda assim podem ser grossas, mal educadas e descontarem os problemas delas em você. Abri mão de meu relacionamento. Infelizmente, minha ex-namorada não entendeu muito bem minha ausência e cansaço", revela.
 
Após contar a história, Mário chama a atenção dos usuários dos aplicativos: "Avalie bem seu motorista se você for atendido. Não tente se beneficiar às custas do trabalho dos outros. E se o motorista fizer um atendimento bem legal mesmo, além de avaliar, dê elogios, faça comentários. Isso é muito importante para quem trabalha nos aplicativos. Valorize esses trabalhadores. Lembre que eles é que garantem uma forma de locomoção mais barata que um táxi e mais confortável que um ônibus", concluiu.
Belém