Denúncias apontam suposta articulação para influenciar eleição na Comieadepa
O alvo das acusações é a Chapa 01, liderada pelo pastor Océlio Nauar, que disputa a presidência com o pastor Jaime Pires, da Chapa 02
A eleição para a direção da Convenção Interestadual de Ministros e Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus no Estado do Pará (Comieadepa), marcada para a próxima terça-feira (2/12), tem sido marcada por denúncias e uma grave crise institucional. Documentos, vídeos e áudios enviados por uma fonte anônima à reportagem, sob sigilo, apontam para um possível esquema de interferência no pleito. O alvo das acusações é a Chapa 01, liderada pelo pastor Océlio Nauar, que disputa a presidência com o pastor Jaime Pires, da Chapa 02. Segundo a denúncia, a disputa extrapolou os limites administrativos e espirituais e passou a envolver pagamento de inscrições, quitação de dívidas, articulações políticas e decisões controversas da Comissão Eleitoral. Todo esse material foi formalmente encaminhado ao órgão responsável pelo processo, segundo a fonte.
Em setembro deste ano, o Grupo Liberal publicou uma reportagem mostrando que o pastor Océlio Nauar de Araújo já estaria tentando articular uma reforma estatutária dentro da Comieadepa. Na ocasião, o material revelou movimentações internas para alterar regras estruturais da convenção, incluindo mudanças no Tribunal Eclesiástico de Disciplina e nas normas eleitorais.
Reuniões reservadas e articulações políticas
Entre os conteúdos analisados pela reportagem na denúncia mais recente, um áudio revela a tentativa de organizar encontros discretos entre lideranças pastorais, longe de registros ou testemunhas. O homem responsável pela gravação demonstra preocupação com suposta vigilância em Belém e sugere que as reuniões ocorram no escritório de Ananias, irmão de Océlio Nauar, por ser considerado um local seguro. O objetivo seria discutir estratégias eleitorais vinculadas à chamada “campanha do Ananias”, incluindo articulações que, segundo a denúncia, poderiam envolver recursos financeiros justificados como conversas sobre política.
A fonte que encaminhou o material afirma que a combinação de encontros ocultos, ausência deliberada de registros e menções a uma “porta de recurso” indicam a possível existência de mobilização político-financeira externa com a intenção de influenciar ministros e dirigentes da Convenção.
Inscrições pagas, perdão de dívidas e promessas ministeriais
Outros áudios recebidos pela reportagem reforçam suspeitas de compra indireta de apoio. Em um deles, uma pessoa comenta que pastores endividados com a Convenção, como o pastor Arnaldo, teriam sido procurados com ofertas de pagamento de débitos. Segundo o relato, um parlamentar, o deputado federal Olival Marques, seria apontado como responsável por custear essas despesas, ato interpretado na denúncia como possível financiamento político associado ao grupo de Océlio.
Os materiais também mencionam pastores que teriam recebido propostas para não pagar a inscrição presencial da AGO, além de promessas de futuros campos no interior como forma de incentivo. Os relatos citam ainda que Olival e Ananias seriam os principais articuladores políticos do grupo e que haveria conversas sobre projetos eleitorais envolvendo ambos, com projeção para candidaturas futuras.
Conforme a denúncia, há um esforço intenso para angariar apoio entre pastores, supostamente incluindo o pagamento de dívidas e benefícios ministeriais. Os áudios sugerem que recursos financeiros provenientes do deputado Olival Marques estariam sendo empregados em prol da campanha de Océlio Nauar.
As gravações também mencionam discussões sobre a possível divisão de campos da Convenção, como o do bairro do Coqueiro, que, de acordo com o interlocutor, seria reestruturado após o jubilamento de seu atual dirigente.
Um segundo áudio, já conhecido pelos denunciantes, aborda diretamente o pagamento de inscrições para a AGO. A fonte afirma que esse processo estaria sendo coordenado por Ananias Nauar, que recolheria dados pessoais e credenciais ministeriais de interessados para habilitá-los em nome da Chapa 01. Para os denunciantes, essa dinâmica reforça o padrão de compra indireta de votos por meio de vantagens financeiras.
Irregularidades na lista de votantes
A reportagem também teve acesso a um documento de impugnação apresentado à Comissão Eleitoral, que lista uma série de inconsistências na relação preliminar de eleitores. Entre as irregularidades apontadas estão duplicidades de registros, uso de matrículas idênticas por pessoas diferentes, inclusão de aspirantes não consagrados e reinserção de ministros afastados ou inativos. Para os autores do documento, essas distorções poderiam beneficiar grupos específicos dentro da Convenção.
Contestação ao registro da Chapa 01
Outras denúncias formalizadas questionam a regularidade do registro da Chapa 01. Segundo os impugnantes, a chapa teria sido inicialmente inscrita com um candidato inelegível, o que tornaria sua formação irregular desde a origem. Eles afirmam ainda que a Comissão Eleitoral permitiu substituições antes de analisar impugnações já apresentadas, aceitou pedidos enviados diretamente por Océlio Nauar sem a devida comprovação de renúncia dos substituídos e não deu publicidade adequada às decisões tomadas. Com base nesses fatores, os autores pedem o cancelamento do registro da chapa, alegando irregularidade insanável.
Acusações contra a Comissão Eleitoral
As peças protocoladas pela Chapa 02 também questionam a conduta da Comissão Eleitoral. Entre as queixas estão a falta de divulgação oficial das decisões, atraso ou ausência de respostas a requerimentos e a celeridade na análise de pedidos feitos pela Chapa 01. Há ainda denúncias de que a imagem institucional da Convenção estaria sendo utilizada em contextos que favoreceriam o pastor Océlio, levando a solicitações formais para que sua imagem fosse retirada de materiais relacionados ao processo eleitoral.
Crise espiritual e institucional
Para as fontes ouvidas, a situação na Comieadepa ultrapassa uma disputa administrativa e expõe uma crise que envolve valores espirituais, governança e alinhamentos políticos. Pastores mencionam pressão interna, ofertas de vantagens financeiras, promessas de campos e articulações externas atribuídas ao grupo de Ananias como sinais de desvio da missão principal da Convenção. Eles afirmam ainda que a estrutura institucional, incluindo a Comissão Eleitoral e a definição do colégio de votantes, estaria sendo utilizada para sustentar um projeto de poder ligado a um mesmo grupo familiar e político.
A reportagem entrou em contato com a convenção em busca de um posicionamento sobre todas as informações mencionadas, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para que as partes citadas possam se manifestar.
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