Comunidade do Mata Fome se sente invisível eleição após eleição

"No alagado, nada se cria", diz um morador da área do canal, que espera há mais de 30 anos as soluções prometidas

Victor Furtado

Moradores da área do canal do Mata Fome se sentem invisíveis. É que dizem alguns deles, que sempre veem períodos eleitorais com desconfiança, já que a área sempre é alvo de campanhas e projetos. De pouco a nada sai do papel. É uma das áreas da capital paraense que ainda tem casas no estilo de palafitas, feitas em madeira, sobre a água, sem nenhum tipo de coleta de esgotos, que voltam quando as chuvas causam transbordamento do canal. Tudo o que a atual prefeitura de Belém diz, em nota, é que há projetos que aguardam recursos do Governo Federal.

"A dragagem do canal é o que há de mais urgente. No alagado, nada se cria, pois sobem todas as imundícies. Eu moro aqui há mais de 30 anos, desde que tudo era mato. Eu era padeiro e fazia serviços gerais. Pescava peixe bom e camarão. Sofri um acidente com um prego, peguei tétano, perdi a perna e agora estou na cadeira de rodas. Ficou tudo mais difícil e entra ano, sai ano, não vemos solução para cá. Agora a água não presta, pagamos um absurdo de água e luz e não temos nada de bom", critica o senhor Benedito Lopes, de 63 anos.

A ocupação do Mata Fome, pela miséria, até hoje se mantém palafitas numa área industrializada, desenvolvida e de interesse econômico de Belém (Igor Mota / O Liberal)

A ocupação da bacia hidrográfica do Mata Fome começou na década de 1980, como aponta estudo de Karen Carmona, para o Laboratório de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (LARHIMA), da Universidade Federal do Pará. Já ganhou esse nome porque os ocupantes viam ali uma forma de sobreviver. "As pessoas que vivem na Bacia do Mata Fome moravam no centro da cidade, mas, devido à especulação imobiliária, tiveram que mudar para a periferia da cidade. Tapanã e Pratinha são ‘a borda de Belém’ e esta região é chamada ‘cinturão de miséria", cita, no estudo.

As matas tinham frutos. O igarapé tinha peixe e camarão. Desde que a rodovia Arthur Bernardes começou a ser aberta, os moradores esperavam que desenvolvimento chegasse àquela área. Mas o desenvolvimento foi apenas para veículos e a ligação entre Icoaraci e o centro de Belém. Áreas às margens da rodovia não receberam a mesma atenção. Nem na reforma da rodovia, no governo de Ana Júlia Carepa. Essa ocupação desordenada e sem planejamento e assistência fez a pobreza escalar para violência, como aponta o estudo de Karen. E os esgotos sobrecarregaram as águas.

O pescador Ricardo Marques diz que a dragagem do canal poderia melhorar a economia e reduzir os alagamentos da área do Mata Fome (Igor Mota / O Liberal)

Em alguns levantamentos da prefeitura, que figuram em artigos científicos, toda a área da bacia hidrográfica do Mata Fome compreende uma área de 300 hectares, ocupada por 54 mil habitantes, entre a rodovia Arthur Bernardes e a avenida Augusto Montenegro. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, apontou mais de 66 mil pessoas. Ainda há muitos pescadores que vivem do canal. Porém, precisam se deslocar para a baía do Guajará e o rio Guamá para conseguir peixes, principalmente pescada branca. No próprio Mata Fome, quase não sobrou vida aquática pela poluição.

"Somos invisíveis mesmo. A verdade é essa. Só lembram de nós em tempo de eleição. Nós mesmos é que limpamos o que podemos para deixar o rio navegável, porque senão a gente tem hora para entrar e sair, dependendo da maré. E também dependendo da maré, vem um cheiro podre dos esgotos e as sujeiras. Ninguém sabe ou vê nossos problemas, porque nem perguntam o que a gente precisa. A gente precisa da dragagem, para acabar o alagamento e a gente ter como passar a qualquer hora, melhorando o trabalho", disse o pescador Ricardo Marques, que cita a necessidade de apoio para criação de uma associação de pescadores, para reunir os mais de 30 trabalhadores do segmento.

Belém
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