Carnaval sustentável é exemplo com blocos ecológicos e escolas que reaproveitam materiais no Pará

Blocos e escolas de samba adotam reuso, descarte correto e ações educativas para tornar o Carnaval mais sustentável

Gabriel Pires e Fernando Assunção | Especial para O Liberal

Às vésperas do Carnaval, intensifica-se o alerta para que a folia seja mais sustentável, como destacam especialistas. Em Belém e no interior, blocos tradicionais e escolas de samba têm adotado práticas que mostram ser possível reduzir o impacto ambiental da festa com medidas simples, apostando no reuso de materiais, na destinação correta dos resíduos e em ações de conscientização que envolvem toda a comunidade.

Segundo a engenheira florestal, Luciana di Paula, o ideal é que o carnaval seja “circular”, pois esse modelo favorece o reuso e evita o descarte inadequado de resíduos no meio ambiente. “Atividades do dia a dia podem ser mantidas para garantir um carnaval mais sustentável. Dentre elas, destaco a diminuição no uso de plásticos e descartáveis, a destinação adequada dos resíduos, como as latinhas que geram renda aos catadores, e levar o copo para o bloco, entre outras medidas”, detalha.

Além disso, sobre como blocos e eventos podem organizar festas mais sustentáveis sem elevar muito os custos, ela afirma que, assim como os foliões, as organizações devem priorizar o reuso de materiais e, sobretudo, a destinação adequada dos resíduos. Já no caso dos foliões, a dica sobre uso de glitter é direta: “O glitter e descartáveis precisam ser evitados, porém se utilizados, destinar corretamente no caso do descartável. E, no caso do glitter, hoje já tem o bio glitter, que é composto por materiais naturais como alga e acaba se tornando mais seguro à pele e ao meio ambiente”, detalha.

“Uma palavra que vai para além do carnaval é conscientização por ações de educação ambiental, que deve ser rotina e que no carnaval não pode ser diferente. Junto a isso, um carnaval mais sustentável, fomentado pelo poder público deve passar por ações eficientes de gestão dos resíduos, com muitas lixeiras de coleta seletiva por onde passa o bloco, e o estímulo à economia circular. O poder público deve trabalhar em ações efetivas na redução da geração de lixo, na valorização dos catadores e na conscientização contínua dos foliões”, acrescenta a especialista em meio ambiente.

Bole-Bole

A sustentabilidade tem se consolidado como um dos pilares do trabalho da escola de samba Bole-Bole, sediada no bairro do Guamá, na tradicional Passagem Pedreirinha, em Belém. Durante os preparativos para o Carnaval de Belém 2026, a agremiação, que atualmente é tricampeã do Carnaval da capital, vem adotando práticas conscientes na confecção de fantasias e adereços, aliando responsabilidade ambiental, economia de recursos e fortalecimento dos laços comunitários.

Atenta às discussões ambientais e ao papel social do carnaval, a escola aposta no reaproveitamento de materiais e na redução de desperdícios para dar vida ao enredo “Mãe Josina do Guamá, solo sagrado da cultura popular”, que será apresentado na Aldeia Cabana no dia 27 de fevereiro. O desfile presta homenagem a Mãe Josina, fundadora do Terreiro de Mina Dois Irmãos, o mais antigo de Belém em funcionamento, que completa 136 anos de história em 2026, também localizado na Passagem Pedreirinha.

Bole bole

Entre as principais ações sustentáveis está o reaproveitamento de tecidos que sobraram da confecção das fantasias principais. O material ganha nova utilidade na forma de flores, acabamentos e detalhes criativos que enriquecem o visual das alas. Outro exemplo vem do uso dos fundos de latinhas de cerveja, recolhidas durante eventos promovidos pela própria escola, que são transformados em elementos decorativos e adereços, substituindo materiais como placas de acetato.

Segundo a diretora de eventos do Bole-Bole, Mônica Costa, a preocupação com a sustentabilidade se intensificou a partir de 2023, quando a ESA (Escolas de Samba Associadas), liga das escolas de samba de Belém, propôs o tema como reflexão dentro das agremiações. “Começamos reaproveitando resíduos de tecido para confeccionar travesseiros que foram doados à comunidade. No Carnaval de 2025, passamos a reutilizar sobras de tecidos da primeira ala para confeccionar os girassóis da ala das baianas, que antes seriam feitos com EVA e termoplástico”, explica.

image Mônica Costa, diretora de eventos da Bole Bole (Foto: Wagner Santana | O Liberal)

A experiência deu tão certo que, em 2026, a escola ampliou o projeto. Atualmente, tecidos reaproveitados estão presentes em diversas alas, na ala das baianas, na segunda ala, em alas comerciais e até na blusa do intérprete oficial. As flores, confeccionadas em cetim, são produzidas pelas próprias baianas após um curso rápido de modelagem ministrado por um artesão da comunidade.

Impacto financeiro

O reaproveitamento das latinhas também trouxe impacto financeiro significativo. De acordo com Mônica, a escola já arrecadou cerca de 143 quilos de latinhas. Aproximadamente 10 mil fundos já foram utilizados na produção dos adereços. “Deixamos de gastar cerca de R$ 6.250 em placas de acetato e ainda conseguimos vender o restante do material, arrecadando em torno de R$ 1.400. É uma economia importante para a escola”, afirma.

Os fundos de latinha estarão presentes em três alas do desfile: a primeira ala, dedicada a Dom José Floriano; a segunda, São Benedito das Flores; e a quarta, que representa o caboclo Juremeiro.Todas destacam festejos importantes realizados pelo Terreiro de Mina Dois Irmãos no bairro do Guamá. A iniciativa reforça o compromisso da escola em não depender exclusivamente de recursos públicos para viabilizar o carnaval. “Quando a subvenção chega, muita coisa já está pronta, porque fomos reutilizando e reciclando ao longo do ano”, destaca a diretora.

Interação entre a comunidade

Além do impacto ambiental e econômico, o projeto fortaleceu o aspecto social da escola. Os mutirões para confecção de adereços se transformaram em momentos de convivência, aprendizado e integração entre os segmentos. “As pessoas vêm, participam, brincam. Isso fortaleceu muito a escola. É por isso que dizem que o Bole-Bole é a ‘Escola Mais Feliz do Pará’”, avalia Mônica.

O Bole-Bole contará, em 2026, com seis alas comerciais, além da ala das baianas, ala mirim, bateria, passistas, pandeiristas e uma novidade: a presença de musas e destaques de chão. Cada ala comercial terá cerca de 80 brincantes, sendo parte das vagas destinadas gratuitamente à comunidade. “Ninguém paga nada. O que precisa é estar junto, aprender e participar”, reforça.

A diretora da ala das baianas, Heloísa Silva de Alcântara, destaca que a reutilização de materiais já faz parte da rotina do grupo. Com 40 integrantes, a ala está confeccionando cerca de mil flores a partir de sobras de tecidos. “Nos reunimos todas as tardes para cortar os tecidos, preparar as pétalas e montar as flores. Muitas chegam dizendo que não sabem fazer, mas aprendem aqui. No começo parece difícil, mas logo todo mundo deslancha”, conta.

image Heloisa Alcântara, responsável pela Ala das Baianas (Foto: Wagner Santana | O Liberal)

Bloco Pretinhos do Mangue

Com mais de 30 anos de história, o bloco Pretinhos do Mangue, em Curuçá, no nordeste paraense, também é uma das tradições de carnaval ecológico. Os foliões cobrem-se com a lama do manguezal em um protesto artístico para conscientizar sobre a preservação ambiental e a proteção dessa área. O bloco nasceu em 1989, em uma terça-feira de Carnaval, quando os amigos Everaldo Campos e Sebastião Araújo foram ao mangue colher caranguejos para o tira-gosto.

Ao perceberem a escassez do crustáceo, decidiram protestar de maneira curiosa: desfilaram no dia da folia cobertos de tijuco, a lama típica do manguezal. Desde então, o bloco se tornou uma tradição cultural e leva às ruas temas ligados ao meio ambiente, especialmente a problemática da produção e destinação do lixo.

Neste ano, o Pretinhos do Mangue chega à 37ª edição, com o tema “Do mangue e da maré, nasce a força da mulher”, programado para os dias 15 e 17 de fevereiro, com concentração às 12h e saída às 16h no Porto Pretinhos do Mangue, localizado no início rua Gonçalo Ferreira, bairro Centro. A animação terá apresentações de carimbó e de grupos locais. No espaço da concentração, o artista plástico Kleber Douglas esculpiu o boneco mascote do bloco.

O presidente do bloco, Edmilson dos Santos, o "Cafá", afirma que a união e a forma de brincar o carnaval ecologicamente correto são o que encantam as pessoas. “A gente trabalha com a questão ambiental da preservação dos nossos manguezais, da nossa nascente, das nossas matas ciliares. Esse é o nosso tema todos os anos: levar para a avenida a conscientização ambiental de preservação do nosso mangue, como também das nossas matas”, detalha Cafá.

“Colocamos dois camburões, cheios de tijuco, que é o nosso abadá acima do mangue — nós tiramos esse tijuco de uma parte do mangue bem limpa. E também há um abadá VIP, que é um barro mais concentrado, sem areia. E esse barro que está no camburão pinta bastante brincante. Também temos uma parceria com o ICMBio, para que nós possamos ter o controle das pessoas entrando no mangue, para que não levem garrafas PET, latinha. Vamos estar orientando as pessoas para que nós possamos fazer um carnaval ecologicamente correto”, detalha Cafá sobre o bloco.

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