Belém, 410 anos: Ver-O-Peso representa economia, cultura e mudança de vida para trabalhadores
À beira da Baía do Guajará, retratado em carimbós e cartões postais, o popular “Veropa” é o maior mercado a céu aberto da América Latina
Belém, a capital paraense, celebra 410 anos de história nesta segunda-feira (12). Dentre os pontos turísticos da cidade, um dos mais simbólicos é o Mercado do Ver-O-Peso. Situado à beira da Baía do Guajará, retratado em carimbós e cartões postais, o popular “Veropa”, como é chamado pelos moradores, é o maior mercado a céu aberto da América Latina. Ao longo da história, o Ver-O-Peso se transformou em um ponto de encontro de histórias, sabores, cultura e tradição dos paraenses.
Com diferentes setores e variedade única de produtos, o Mercado do Ver-O-Peso reflete a diversidade do Pará e ganha o rosto das pessoas que, diariamente, trabalham para manter esse ícone de pé. Um desses rosto é o de Davi Furtado Buriti, 85 anos, que há 60 anos trabalha com a venda de farinhas tradicionais da região, como a farinha d'água, farinha seca e a farinha de tapioca, itens que não podem faltar na mesa do paraense.
Seu Davi, aliás, brinca que pode faltar até a carne, mas nunca a farinha: "Tu vais rir, mas até o tacacá eu tomo com farinha". Ele destaca que, mesmo passado períodos onde Belém recebeu um grande número de turistas, como na COP30 e no Círio, o maior cliente continuou sendo o paraense: “No meu entender, para o paraense legítimo, a farinha é tudo na mesa", afirma, refletindo sobre a importância do alimento na vida do povo do Pará.
Para ele, vender farinha não é apenas um trabalho, mas um meio de se conectar com as raízes, já que é "caboclo nato", nascido em Bujaru, no interior do estado. Durante a trajetória no Ver-O-Peso, Davi sustentou uma família e viu gerações de paraenses passarem por ali. Hoje, os filhos seguem no ramo. Por isso, insiste na importância de zelar pelas boas condições do mercado: “Tenho um filho de 50 anos que trabalha aqui, sabe-se lá se o filho dele também não vem um dia para cá. É muito importante cuidar desse espaço”.
Setor das erveiras destaca relação do belenense com a natureza
Outro setor icônico do Ver-O-Peso é o das erveiras e benzedeiras, que valoriza a medicina tradicional e saberes ancestrais. Muito desse conhecimento é materializado nos banhos e perfumes com nomes hilários. “Tem o 'abre caminho', 'vence tudo', 'chama o marido rico'. A gente tem muita fé, muita cultura e muita ligação com a natureza aqui", diz Iracilda Siqueira, de 68 anos, que trabalha no mercado há 45 anos.
Para Iracilda, a feira não é apenas um local de trabalho, mas uma segunda casa. "Graças a Deus, com a minha barraca, já comprei minha casa, meu carro, minha casa de praia", afirma. "Eu estava desempregada, com uma filha pequena, e foi uma amiga quem me trouxe para o Ver-O-Peso. No começo, não vendia nada, mas não desisti, fui atrás dos meus direitos e consegui minha barraca".
Para os 410 anos de Belém, a erveira recomenda o banho “abre caminho”. “Para abrir o caminho sempre da felicidade, para ter muita paz, que continue uma cidade maravilhosa. Eu peço que seja tudo de bom neste ano, muita paz para todos nós e muita saúde para continuar atraindo turistas e investimento”, deseja.
Filhote é o peixe que representa Belém
No Mercado de Peixe, uma das maiores atrações do Ver-O-Peso, cerca de 120 toneladas de pescados típicos da região amazônica e 40 espécies são movimentadas diariamente. Em uma cidade onde o peixe é um dos protagonistas na culinária - claro, ao lado do açaí -, fica até difícil escolher qual melhor representa a cidade. Mas Fernando Souza arrisca: filhote.
“O filhote é o peixe que me representa. Ele é o mais conhecido e procurado aqui no mercado”, diz Fernando, que trabalha há 48 anos no setor. Durante o período de COP30, a área foi uma das mais visitadas do mercado, segundo ele. "Quando os turistas comiam nos restaurantes, eles ficavam curiosos para saber a procedência dos peixes e chegavam aqui. Eles ficavam maravilhados com a variedade de pescados, das águas doces e salgadas, dos rios e mares", orgulha-se.
Para ele, trabalhar nesse espaço é motivo de orgulho pela importância do local para a economia e a cultura da cidade. "Para mim, é um orgulho trabalhar aqui no ícone da nossa cidade", afirma Fernando, que tem visto o mercado evoluir ao longo das décadas. "O Ver-o-Peso, de forma geral, é o ponto principal da economia de Belém", ressalta.
Bolonha, marcado pela arquitetura e pela presença nos churrascos de domingo
Do outro lado da rua, o Mercado Bolonha, que faz parte do Complexo do Ver-O-Peso, concentra também o setor de venda de carnes. Além disso, o ambiente possui restaurantes, feira de vinis e CDs, brechós, vendas de artefatos afrorreligiosos e é cenário para ensaios fotográficos. Sebastião Pimentel, 76, no mercado há 65 anos, enfatiza as belezas do espaço, com estruturas e escadarias de ferro, que dão vista panorâmica para a cidade.
"O mercado é referência mundial. Principalmente essa escada aqui atrás, que recebe turistas de todos os lugares", destaca. Ele iniciou a jornada no Bolonha com apenas 11 anos e nunca mais deixou o mercado. "Aqui é uma referência, tanto pela nossa comida, nossa arquitetura, como pela interação das pessoas. O mercado une tudo isso, e é o que torna o Ver-o-Peso tão especial", explica.
Quando perguntado sobre qual carne não pode faltar na mesa do paraense, ele afirma: "A carne para o churrasco. Picanha, costela… E claro, o essencial é o acompanhamento com farinha. Com o tempero bom e a fome, o churrasco fica bom. E o melhor é passar com farinha, aí não tem erro", finaliza.
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