Aos 111 anos, paraense revela como afeto e rotina simples sustentam a longevidade

A história da centenária Maria Lopes de Souza, de Curralinho, evidencia o papel dos laços afetivos e da vida simples na construção de mais de um século de existência

Gabriel Pires e Bruna Lima

A longevidade sempre guarda as memórias do que se viveu e dos afetos que acompanham a rotina. É assim com a paraense Maria Lopes de Souza, de Curralinho, na ilha do Marajó, que completou 111 anos no último dia 2 de fevereiro. Na história dela, a convivência familiar aparece como um dos pilares para uma vida longa. Sem filhos biológicos, mas amparada por uma rede familiar construída ao longo do tempo, Dona Maria mantém hábitos simples e laços afetivos que ajudam a explicar sua vitalidade. Já passando do centenário, ela tem 2 filhos, 8 netos, 27 bisnetos e 8 tataranetos. Ela ainda luta para ser ativa.

Atualmente, ela tem dificuldades de locomoção, mas conta com a ajuda da família no dia a dia. Antes, com a autonomia que tinha, lembra com lucidez de como mantinha a própria casa na juventude. “Eu era boa, eu fazia tudo. Eu ia embora para a roça, trabalhava o dia inteiro, só ia chegar de tarde. Ainda, outros serviços: chegava e ia fazer comida, amassava açaí, fazia de tudo, porque não tinha quem fizesse. Agora, eu não faço nada, porque eu não posso andar. E vou à custa dos outros, com a ajuda da minha família”, relata ela.

Dona Maria também recorda que sempre gostou de reunir a família no interior. Para ela, esses momentos de comemoração eram cheios de felicidade. A festa era ainda maior quando chegava a celebração dos padroeiros católicos na comunidade onde morava. “Eu gostava muito de casa cheia. Tinha dia de mandar matar de três a quatro capados [animais para almoçar]”, relembra.

Aos que convivem com Dona Maria, a satisfação é grande em tê-la por todos esses anos, dedicando cuidado e afeto. Segundo a autônoma Elisângela Gomes, 52, filha de criação de Dona Maria, a idosa só veio morar com ela em Belém há cerca de três anos, por causa de um problema no fêmur. Como Dona Maria não teve filhos biológicos e criou apenas Elisângela e outro afilhado, que hoje também é idoso e não tinha condições de cuidar dela, ele a enviou para Belém.

Cuidado e adaptação

Para Dona Maria, precisar mudar e morar com a filha em Belém envolveu adaptação. “A minha vontade é ir embora para lá, para o meu interior. Sinto muita saudade”, diz Dona Maria. Elisângela relata que assumiu integralmente os cuidados com a idosa. “Tudo para ela foi muito rápido. E eu cuido dela com todo carinho, eu faço o que eu posso”, reforça a filha.

“Eu sou grata, muito, por ela ter me criado. Me ajudou a criar meus filhos. Tudo que sou é por conta dela. E o que eu vejo na mamãe e que eu quero levar para a minha vida, quando eu partir, são os valores que ela me ensinou. Sempre foi muito justa, correta. É uma pessoa que sempre gostou de agradar e de unir. Sempre gostou de casa cheia, de festa. Ela era uma pessoa que fazia festa”, conta Elisângela.

A alegria em viver também inspira o neto de Dona Maria, o professor universitário Igor Gomes, de 32 anos. Nessa idade, a avó é um exemplo de vida, considera ele. “Eu vejo assim a força dela, a força de vontade que ela tem. Mesmo nessa condição, ela ainda sente vontade de viver como vivia antes. Isso, para mim, é importante porque me inspira. Ela me criou e também ajudou a criar os filhos da minha mãe”, observa Igor.

E, com 111 anos, Dona Maria não deixou de lado o que todo paraense gosta, diz a filha: “A alimentação dela é à base de açaí. Um peixe frito também. É isso que ela mais gosta. Gosta também de charque frito, bife, mas tudo acompanhado de açaí. Açaí é caro, mas toma dia”, comenta a filha dela. “A longevidade, acho que é da família dela, porque ela é a última dos irmãos, e os outros já morreram com idade bem avançada. Ela só tem hipertensão e reumatismo. Não tem diabetes, não tem outros problemas. Hoje, o acompanhamento dela é feito aqui em casa”, acrescenta a filha.

Estilo de vida saudável

Segundo a geriatra Nezilour Rodrigues, viver mais é uma conquista crescente da sociedade moderna. No entanto, a qualidade com que se envelhece é tão importante quanto a quantidade de anos. “Pessoas longevas geralmente apresentam bom controle da pressão arterial, glicemia e colesterol, baixa inflamação crônica e preservação da massa muscular e da função cognitiva. Entre os fatores comportamentais comprovadamente associados à longevidade destacam-se não fumar, manter atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado e vínculos sociais ativos”, detalha.

A longevidade, conforme a ciência aponta, resulta da combinação entre biologia, estilo de vida e relações humanas, como reforça a médica. “Esses hábitos reduzem significativamente o risco de doenças cardiovasculares, câncer, demência e perda de autonomia. Nesta fase da vida, o objetivo central é preservar autonomia e qualidade de vida. Para isso, são fundamentais o controle adequado das doenças crônicas, a manutenção da força muscular e da mobilidade, a prevenção de quedas e fragilidade, a vacinação atualizada, a revisão periódica de medicamentos e o cuidado com a saúde mental e cognitiva”, acrescenta a médica.

Cuidados no dia a dia

Ainda de acordo com a geriatra, hábitos cotidianos, como um sono adequado e uma alimentação equilibrada, são cruciais para um envelhecimento saudável. Ela explica que rotinas diárias têm um grande impacto ao longo dos anos, destacando que dormir bem fortalece a memória, a imunidade e o metabolismo. Além disso, uma dieta balanceada protege o coração, o cérebro e a musculatura, sendo essencial o consumo suficiente de proteínas para preservar a força e a autonomia na velhice.

“Padrões alimentares como a dieta mediterrânea, rica em vegetais, frutas, leguminosas, azeite de oliva e peixes, estão associados a menor risco de doenças cardiovasculares, declínio cognitivo e mortalidade. A atividade física regular reduz o risco de perda funcional e demência, enquanto a convivência social protege contra isolamento e depressão. Nas idades mais avançadas, os vínculos afetivos tornam-se ainda mais decisivos”, observa a médica.

Vínculos afetivos

Além dos cuidados físicos, o cuidado na terceira idade, segundo a geriatra Niele Moraes, também passa pelos vínculos afetivos, especialmente para pessoas com mais de 90 ou 100 anos, para quem esse aspecto é muito significativo. Ela ressalta ainda que estudos sobre as Blue Zones, regiões do mundo com alta concentração de centenários, mostram que fortes vínculos familiares e comunitários são um traço comum entre esses longevos.

“Entre nonagenários e centenários, observamos maior resistência ao declínio cognitivo quando permanecem socialmente ativos, menor risco de depressão quando têm suporte familiar e melhor adaptação emocional frente às perdas naturais da idade Envelhecer bem não é um processo isolado. É biológico, mas também profundamente social. E vale lembrar: cuidar de quem cuida também é essencial. Cuidadores sobrecarregados adoecem, e isso impacta toda a dinâmica familiar”, reforça a médica.

Bem-estar mental

Ainda sobre o bem-estar mental, a psicóloga Rafaela Guedes, enfatiza que as boas relações, sejam elas familiares, de amizade ou de trabalho, são essenciais para o prazer, a satisfação e o desejo de viver. E, principalmente, no caso dos idosos. Isso, por sua vez, afeta diretamente tanto a saúde emocional quanto a biológica, que estão interligadas. Portanto, quanto maior a qualidade de vida e dos relacionamentos de uma pessoa, maior será a sua longevidade, frisa a especialista.

“Nos idosos, o mais importante é a sociabilidade e aqueles hábitos que eles costumam carregar ao longo do tempo, que sempre deram prazer. A novela favorita, o dominó com os amigos na esquina, o bate-papo com os irmãos, caso tenha. Tudo que é satisfatório, que os acompanha, é saudável e vem durante a história de vida desse idoso, é importante preservar. É isso que vai fazer com que ele queira estar mais tempo por aqui e se cuide pra estar mais tempo por aqui”, relata a psicóloga.

Na terceira idade, é importante que os familiares ajudem a mantê-los em um estado de bem-estar, com passeios e outras atividades. E ainda, mantendo tratamentos e medicações em dia. “Tudo isso com prazer, de lazer e de convivência, dentro daquilo que eles podem fazer. Que a gente olhe e fale muito mais da importância da convivência com eles, da existência ao lado deles, da sabedoria de vida que eles trazem, acrescentam para aquelas famílias, para aquele ambiente em que eles estão. E isso é a riqueza da convivência familiar”, pontua Rafaela Guedes.

Veja dicas essenciais para a longevidade

1. Controle da pressão, glicemia e colesterol - manter exames em dia e acompanhamento médico regular reduz riscos cardíacos e metabólicos.

2. Não fumar - o tabagismo é um dos principais fatores que encurtam a expectativa de vida e aumentam doenças crônicas.

3. Praticar atividade física regularmente - exercícios preservam a força muscular, a mobilidade e diminuem o risco de quedas e demência.

4. Alimentação equilibrada e rica em nutrientes - priorizar vegetais, frutas, leguminosas, azeite e peixes, um padrão semelhante à dieta mediterrânea.

5. Sono adequado - dormir bem fortalece memória, metabolismo e imunidade, impactando diretamente na saúde ao longo dos anos.

6. Convívio social ativo - relacionamentos familiares, comunitários e amizades reduzem isolamento, depressão e declínio cognitivo.

7. Vínculos afetivos fortes - apoio emocional e familiar é decisivo especialmente após os 90 anos, ajudando na adaptação às perdas e às mudanças da idade.

8. Saúde mental em equilíbrio - preservar hábitos que dão prazer, como rotinas afetivas e atividades favoritas, aumenta bem-estar e desejo de viver.

9. Vacinação e revisão de medicamentos - manter vacinas atualizadas e revisar medicações evita complicações, interações e fragilidade.

10. Cuidar de quem cuida - cuidadores saudáveis garantem melhor suporte emocional e físico à pessoa idosa, fortalecendo toda a rede familiar.

Fontes: geriatra Nezilour Rodrigues, geriatra Niele Moraes e psicóloga Rafaela Guedes

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