CONTINUE EM OLIBERAL.COM
X

Águas da ilha do Combu sustentam trabalho e garantem locomoção de moradores

No Dia Mundial da Água, neste domingo (22), ribeirinhos destacam que a vida na região insular da capital paraense gira em torno do rio

Gabriel Pires
fonte

“Esse rio é minha rua, é minha vida”, resume o extrativista Silvio de Souza, 45, morador da ilha do Combu, margeada pelo rio Guamá, em Belém, ao descrever a relação dos ribeirinhos com a água. A afirmação traduz o vínculo íntimo e cotidiano entre a comunidade e o rio que, segundo Silvio, é caminho, sustento e território de vida para os que ali escolheram viver, como é o caso dele, que nasceu e mora até hoje na ilha. Neste domingo (22), quando é lembrado o Dia Mundial da Água, a realidade desses moradores reforça a importância de preservar os recursos hídricos, segundo alertam especialistas.

Distante apenas cerca de 15 minutos de todo o vai e vem urbano da capital, Sílvio relata que morar na ilha é sinônimo de refúgio. Ele afirma que não troca o lugar por nada. E, no dia a dia, o rio é tudo, nas palavras dele. Por isso, valoriza e preserva, já que a venda de peixe é a principal fonte de renda da sua família. Ao longo dos anos morando no Combu, ele viu as transformações e o grande aumento no movimento de visitantes na ilha e reforça a importância de cuidar do rio.

“A vida do ribeirinho é começar cedo pela manhã, preparar o café e a saída para tirar o açaí, quando tem e é a época. Quando não é, a alternativa é pescar, catar camarão e peixe. E, depois, arrumar o que tem pra arrumar. É assim a rotina do ribeirinho. Hoje, minha renda vem da pesca e do açaí. Dependemos do rio. Sem ele, tudo começa a se complicar, pois é dele que vem o sustento do ribeirinho, como o camarão e o peixe. Por isso, é necessário ter cuidado com o rio, embora muitos ainda não tenham”, afirma Sílvio.

Com relação de interdependência com o rio, Silvio afirma que um dos desafios de viver no local é a poluição das águas. “O que contamina as nossas águas hoje é Belém, com o despejo de esgoto. Se você observar a área da Universidade Federal, há o rio Tucunduba, um grande poluente. Ele deságua diretamente no rio Guamá, poluindo as margens do rio e todas as ilhas ribeirinhas”, desabafa. “Futuramente, os nossos filhos não vão poder nem tomar banho na água, de tanta poluição que existe nela. As pessoas dizem: “Ah, é o ribeirinho que polui a ilha”, mas não é o ribeirinho. A poluição vem de fora. Pelo contrário, o ribeirinho cuida da ilha, porque vive dela.”, acrescenta Sílvio.

image Sílvio fala do dia a dia na ilha e sobre o trabalho do extrativismo (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Além do extrativismo

Com cerca de 1.500 habitantes, a Ilha do Combu abriga diversas famílias e também tem se consolidado como espaço para empreendimentos locais, para além do extrativismo. É o caso do microempreendedor Walesson Ferreira, de 33 anos, que vive na ilha há cerca de 10 anos, desde que se casou com a esposa, que é natural do local. Em fase final de implantação, ele está concluindo a construção da casa de experiências, que pretende oferecer aos visitantes vivências ligadas à produção local. Walesson explica que o espaço, prestes a ser inaugurado, vai trabalhar com produtos feitos na própria ilha, como biscoitos e geleias.

“Resolvi criar esta casa de farinha e inovar com uma casa de experiência aqui no Combu, voltada a mostrar como funciona o processo de produção da farinha, a extração da goma de tapioca e do tucupi. E também produzir outros tipos de farinha, além da tradicional farinha d’água, que já é muito conhecida, buscando diversificar os sabores, por assim dizer, “gourmetizar” o produto. Além disso, oferecer itens que os moradores costumam procurar, como biscoitos para acompanhar um café ou um lanche da tarde. Também passamos a investir em produtos caseiros, como bolos, que hoje estão sendo bastante procurados na nossa região”, relata Walesson.

image Walesson trabalha com transporte e turismo e, logo mais, irá inaugura uma casa de experiências na ilha (Foto: Igor Mota | O Liberal)

Walesson conta, ainda, que mantém uma rotina diária de deslocamento até Belém, onde também atua na área de transporte, realizando passeios turísticos por meio de uma empresa de receptivo no Combu. O trabalho envolve justamente o deslocamento de pessoas entre a ilha e a capital, o que evidencia a relação direta com o rio, que também é fonte de renda e base de sua atividade profissional, responsável por manter a casa e o sustento da esposa e da filha.

“Hoje, o rio é, de certa forma, o nosso meio de sobrevivência. É por meio dele que conseguimos garantir o nosso pão de cada dia, seja com o transporte de passageiros, passeios turísticos, cargas, cobertura de eventos ou atendendo pessoas que resolvem sair do dia a dia de Belém. O rio, para nós, é tudo. É fonte de água e de alimento, onde ainda conseguimos pescar, às vezes pegar um peixe, um camarão. Com isso, vamos nos adaptando no dia a dia e desenvolvendo nosso meio de sobrevivência”, pontua.

Desafio

Além dos benefícios, assim como Sílvio, Walesson também percebe os desafios de viver na ilha, com a presença constante de poluição no rio. “Essa questão da poluição é algo muito forte. As pessoas precisam ser educadas em relação a isso, a não jogar lixo no rio, a não descartar resíduos nos esgotos que deságuam no rio e acabam contaminando. Observamos também muitos casos relacionados à poluição sonora, em que as pessoas não respeitam: passam com som muito alto. E outras não obedecem ao limite de velocidade, o que acaba causando erosão”, diz.

Combu

Recursos essenciais

Para a população ribeirinha, a casa vai além de uma simples moradia. Representa um forte apego cultural e é o ponto de acesso a recursos essenciais como alimento e transporte, conforme explica a geóloga Aline Meiguins. “Todas as ilhas próximas ao centro de Belém têm uma necessidade de se deslocar para a cidade para diversas coisas, desde a educação, saúde, comércio. Com isso, a presença de uma casa próxima ao rio facilita o transporte, apesar das questões vinculadas à vulnerabilidade e à exposição dessas casas à influência das águas”, frisa.

A geóloga observa que os rios são fontes essenciais de mobilidade e segurança alimentar, fornecendo água, peixes e mariscos. No entanto, ela ressalta que o problema está na exposição dessas águas a condições precárias de saneamento básico, sobretudo devido ao lançamento de esgoto e ao acúmulo de resíduos sólidos. “Muitas vezes, essas populações têm a água, mas não têm nem segurança hídrica nem segurança alimentar, uma vez que, para fazer uso não somente da água, como para consumir o alimento dela, é preciso prestar atenção no tipo de poluição que essa água está sofrendo”, explica ela.

Dados do Instituto Trata Brasil apontam que, das capitais brasileiras, Belém foi a que mais aumentou seus níveis de abastecimento total de água, apresentando um crescimento de 23,12 pontos percentuais entre 2019 e 2023. No entanto, na capital paraense, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), 11,8% da população não tem acesso à água tratada. Isso corresponde a 165.283 pessoas sem esse recurso, de acordo com o levantamento, que evidencia os desafios detalhados pela geóloga.

Walesson corrobora o dualismo entre a comunidade ser cercada por água e não poder usufruir desse recurso por conta da poluição. “A água do rio é utilizada por nós, é puxada para as caixas d’água por meio de bombas e passa por tratamento para usos como lavar louça e roupas escuras, além de servir para o banho. Para consumo, beber e preparar alimentos, precisamos comprar água mineral em Belém ou de vendedores locais. Vivemos essa dificuldade, mesmo estando tão próximos da capital. Aqui na ilha, um galão de 20 litros custa de 10 a 12 reais. Para uma família de quatro ou cinco pessoas, é necessário usar mais de um galão por dia. Então, diariamente, a pessoa precisa ter 10 ou 12 reais e, infelizmente, há pessoas que não têm”, conta.

Aos 63 anos, o barqueiro Elson do Nascimento nasceu na ilha do Combu e construiu toda a sua vida cercado pelas águas do rio Guamá, onde criou os três filhos dele. Essa relação se confunde com o trabalho que mantém hoje: diariamente, ele realiza o transporte de crianças para as escolas em Belém. Ele afirma que o rio é fundamental para sua subsistência, já que é dele que vem o trabalho como barqueiro e a principal fonte de renda da família.

image Pesca é parte do dia a dia de quem vive na ilha, como o caso de Elson (Foto: Igor Mota | O Liberal)

“Sou nascido aqui, meus pais eram daqui; nasci aqui, fui criado aqui e também criei meus filhos aqui. Acho que aqui também será o fim da minha vida. Não pretendo mudar para outro lugar, porque considero este um lugar muito bom para se viver, dependendo do que você faz e do que gosta de fazer. Como eu gosto de trabalhar, gosto de sair para pescar, posso tirar açaí. Mas, com relação à importância desse rio aqui, vejo que a gente precisa preservar mais”, relata.

Importância ambiental

A importância dos rios na Amazônia vai muito além do que a gente vê. A geóloga Aline Meiguins ainda explica que tudo está conectado: os rios fazem parte de um grande sistema, em que a água da chuva escorre pelo solo, alimenta os rios e também pode penetrar na terra, chegando aos reservatórios subterrâneos. “Esse conjunto integrado permite que haja uma disponibilidade de água mesmo quando ocorre a redução das chuvas. É muito importante conhecer essa dinâmica por meio do monitoramento hidrometeorológico para que, durante os períodos que se caracterizam como redução das chuvas, como períodos de estiagem, seja possível ter, principalmente nos lençóis subterrâneos, uma possibilidade de água para abastecimento humano”, reforça.

Aline afirma que, em relação aos principais impactos que afetam as comunidades ribeirinhas, o saneamento é o que mais aparece em qualquer levantamento. “O esgotamento sanitário das cidades, sendo lançado in natura ou em condições que não atendem padrões de qualidade associada aos tratamentos que são oferecidos, comprometem essa segurança hídrica e alimentar para essa população ribeirinha, expondo elas a doenças de veiculação hídrica. Outros elementos ocorrem, muitas vezes, na presença de empresas ou outras atividades comerciais que lançam, principalmente efluentes nessas águas, produtos de limpeza, produtos associados ao próprio tratamento daquilo que eles produzem, sem o controle e sem fiscalização por parte do poder público, comprometem a saúde dessa população”, detalha.

Projeto de filtragem de água

Apesar de ser cercado por água, o município de Breves, na ilha do Marajó, enfrenta escassez de água própria para consumo. Para enfrentar o problema, o município tem recebido filtros de tratamento em escolas, permitindo que alunos e moradores do entorno tenham acesso gratuito à água. A iniciativa do Instituto Mondó, desenvolvida pelo programa Rede+, já instalou nove filtros, sendo cinco na zona urbana e quatro na rural, com previsão de ampliação, beneficiando cerca de 600 famílias em comunidades como São Pedro, Corcovado, São Tomé e Aprocotane.

A água passa por filtragem adequada e pode ser consumida com segurança. O zelador da escola Maria Rafols e morador da periferia urbana de Breves, David Matos, relata que, antes da instalação dos filtros, a água na comunidade era de péssima qualidade, barrenta, com um forte sabor de barro e imprópria para o consumo. “Depois que os filtros chegaram, a qualidade melhorou muito. Hoje, a gente bebe uma água limpa, de boa qualidade, e isso fez toda a diferença para nós. Mudou tudo no nosso dia a dia. Hoje, nós temos acesso a uma água realmente potável, sem aquele gosto de barro que tinha antes. Isso trouxe mais segurança para a nossa família”, conta.

Filtragem breves

A iniciativa, conforme a diretora executiva do Instituto Mondó, Carolina Maciel, tem o objetivo de promover o desenvolvimento territorial e a qualidade de vida. Com base nos resultados e aprendizados desse primeiro momento da ação, a expectativa é estender o projeto a outros territórios, tanto no município de Breves quanto em outras regiões do Marajó e do Pará. Maciel detalha ainda a razão pela qual a instalação dos filtros teve início no ambiente escolar.

“Acreditamos que a escola é um espaço central de transformação dentro das comunidades. Ao olhar para o contexto do Marajó, especialmente em Breves, identificamos que, apesar da grande disponibilidade de água na região, uma parcela pequena da população tem acesso à água potável. Dentro das escolas, a qualidade da água também era baixa, o que impactava diretamente a saúde dos estudantes. Por isso, entendemos que levar água de qualidade para o ambiente escolar era um passo fundamental. A proposta foi fazer com que essa melhoria ultrapassasse os muros da escola e chegasse às famílias”, frisa.

Sobre o acesso à água potável pelos moradores, tanto na ilha do Combu quanto em Breves, a Redação Integrada do Grupo Liberal solicitou posicionamento à Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa) e à Águas do Pará. Além disso, também procurou a Prefeitura de Belém para detalhar as ações de preservação na ilha e a fiscalização ambiental. A reportagem aguarda retorno.

Por meio de nota, a Águas do Pará informa que a Ilha do Combú não está dentro da área de atuação prevista no contrato de concessão. A concessionária é responsável pelos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário na zona urbana de Belém, além dos distritos de Mosqueiro, Cotijuba, Icoaraci e Outeiro. 
A empresa também atuará na operação e universalização do saneamento em outros 125 municípios do estado. A meta é alcançar, até 2033, atendimento com abastecimento de água para 99% da população da Região Metropolitana de Belém, Marajó, Nordeste, Sudeste, Sudoeste e Baixo Amazonas. 
Já a universalização do esgotamento sanitário, com 90% de atendimento, deverá ser atingida até 2033 na Região Metropolitana de Belém e Marajó; e até 2039 nas regiões Nordeste, Sudeste, Sudoeste e Baixo Amazonas.
 

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Belém
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

ÚLTIMAS EM BELÉM

MAIS LIDAS EM BELÉM