Projeto carroceiro: adoção garante nova vida para cavalos

Projeto da Universidade Federal Rural do Pará (Ufra), reabilita cavalos, burros e jumentos e disponibiliza para adoção

Eduardo Rocha

Já pensou em um cavalo de carroça chamado de “Garrafinha”, por seu dono ter sido dependente de bebida alcoólica, e mudar de vida, passar a ser bem tratado em um sítio? Parece história para fazer criança dormir. Mas é verdade. “Garrafinha” foi adotado por Rejane Monteiro e hoje não sente mais o peso das carroças, vivendo em área verde da família dela no município de São Caetano de Odivelas, nordeste paraense.

“No início eu quis mudar esse nome, pela lembrança triste da vida dele, mas minha filha disse que era importante pela história de vida dele. Ele é um cavalo muito especial, eu converso com ele, digo pra ele que o tempo de carroceiro dele acabou, que agora ele é um lord. Ele tem uma casinha e já sabe a hora que vou pôr a comida. Toma banho com shampoo, come frutas, e gosta de ficar na sombra e dormir. Meu marido reclama que o “Garrafinha” tem mais privilégio que ele na casa. Algumas pessoas perguntam por que eu cuido de um cavalo, aí eu pergunto: e por que elas têm cachorro?”, diz Rejane Monteiro. Ela sempre sonhou em ter um cavalo.

O “Garrafinha” é um dos animais reabilitados e disponibilizados para adoção ao longo dos 17 anos de atividade do Projeto Carroceiro, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). No projeto são realizados gratuitamente atendimentos clínicos e a reabilitação de cavalos, burros e jumentos utilizados no trabalho de tração. Como o projeto não realiza o resgate ou apreensão desses animais, eles são encaminhados à Ufra tanto pelos próprios carroceiros, quanto por órgãos de fiscalização, como a Divisão Especializada em Meio Ambiente e Proteção Animal (DEMAPA), Centro de Controle de Zoonoses (CCZ-PA), Batalhão da Polícia Ambiental e Corpo de Bombeiros.

Exaustos

De acordo com o professor Djacy Ribeiro, coordenador do Projeto Carroceiro, só na região metropolitana de Belém estima-se que existam em torno de 1.500 animais utilizados em carroças, para o trabalho de tração. E quando apreendidos ou abandonados, costumam chegar em péssimas condições ao projeto. “Eles chegam subnutridos, magros, exaustos, com deficiências minerais, feridos, com escoriação da carroça. Alguns possuem fraturas, doenças ortopédicas e problemas de pele por falta de higiene regular, todos sofreram maus tratos”, diz.

Após um longo período de cuidados clínicos, reabilitação e de convivência com a equipe do projeto, o animal já pode ser disponibilizado para adoção responsável. Uma das regras é que ele nunca mais seja utilizado para qualquer trabalho de tração. Os animais chegam ao projeto oriundos de apreensão por situação de maus tratos ou acidentes nas vias públicas, não vamos permitir que voltem a essa situação.

Para adotar um animal do projeto,  o interessado deve conhecer os animais e dispor de um local apropriado para os equinos. É necessário comparecer à Demapa e preencher dados comprobatórios de tutor, que são os documentos pessoais e de posse da terra. Aí, a Demapa faz uma vistoria no local, autoriza a tutoria, o tutor escolhe o animal, assina a papelada e por último o leva para nova moradia.

Em julho, três animais foram adotados. Atualmente, há apenas um animal no projeto esperando por uma nova oportunidade, a Corona. “A Corona é uma mula, que é o cruzamento do jumento com a égua. Ela é estéril, muito mansinha e carinhosa, e foi apreendida vagando no canteiro da avenida Marquês de Herval, abandonada e comendo lixo”, diz o coordenador.

Segundo o coordenador, a convivência com um equino só traz benefícios. “É um animal super alegre, dedicado, amigo e pode ser criado como um pet, no convívio diário, com um manejo e trato diferente de gatos e cães.

O Projeto Carroceiro atende por mês cerca de 20 animais no campus da Ufra em Belém e mantém em média oito animais internados. Desde que começou com as campanhas de adoção, o Projeto Carroceiro já conseguiu que 150 animais fossem reabilitados e ganhassem uma nova família. Informações: djufra@gmail.com.

Belém
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