Questão ambiental na Amazônia ainda é assunto invisível para população brasileira e amazônida

Ativista ambiental aponta distanciamento entre o debate sobre os problemas enfrentados na Amazônia da realidade da população local que reside em centros urbanos

Byanka Arruda
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Desmatamento, aquecimento global, mudanças climáticas, queimadas criminosas, grilagem de terras, conflitos agrários históricos, apropriação de territórios protegidos por lei, devastação da Amazônia. A pauta ambiental, especialmente na região amazônica, é um dos assuntos mais debatidos nos últimos anos, nacional e internacionalmente, mas, ainda assim, as respostas aos problemas que hoje se mostram urgentes não têm acompanhado o ritmo das discussões. A ideia de propor soluções e participar mais ativamente das iniciativas em defesa da Amazônia ainda é uma realidade muito distante do cotidiano da maior parte da população, mesmo para quem mora na região.

A coordenadora da campanha da campanha “Amazônia de Pé” (um projeto de lei que tem o objetivo proteger a Amazônia), a ativista ambiental e bióloga Karina Penha, conversou com a equipe de O Liberal para tentar explicar esse distanciamento entre a questão ambiental na Amazônia da população local, entre outras problemáticas.

 

Após tantos recordes de desmatamento, você acredita que as pessoas ficaram "insensíveis" aos números?

- Acredito que, infelizmente, tanto os números de desmatamento quanto as queimadas e outros cenários críticos de devastação florestal parecem ser algo distante demais da realidade da maioria das pessoas. É como se não houvesse uma influência direta entre o dia a dia  do brasileiro e o que acontece na região amazônica, gerando esse sentimento de 'alguém precisa resolver isso, mas não sou eu'. Fomos ensinados a enxergar esse pedaço do Brasil como um vazio geográfico e demográfico, mas, na verdade, a Amazônia é o termômetro do Brasil e do mundo e é por isso que criamos esse alerta.

 

Por que ainda parece tão difícil engajar pessoas a questionar o desmatamento e exigir soluções?

- Aqui no Brasil nós temos muitas questões urgentes para nos preocupar: o preço da carne, o aumento da passagem, a morte de jovens negros nas periferias... nessa proporção, o desmatamento pode ser uma questão que quem mora em centros urbanos, periferias e outras regiões urbanizadas pode passar uma vida inteira sem se questionar. Falar de números de desmatamento parece algo abstrato, aquilo que não conseguimos ver. Por isso a pauta ambiental deve ser interseccional, ou seja, não aparecer como algo mais urgente do que as outras questões que temos enquanto sociedade, mas, sim, como algo que está intrínseco em tudo isso, que se sobrepõe a tudo isso e, também, muitas vezes, é a causa de todas essas outras questões.

 

Como estão as terras que são consideradas "sem dono" na Amazônia por falta de destinação?

- Elas têm sido o principal alvo dos grileiros. Os números de áreas desmatadas têm crescido muito nessas regiões e sem proteção legal elas estão extremamente vulneráveis a esse tipo de degradação da vegetação nativa. Uma outra questão tem sido a descrição ilegal dessas áreas como propriedade particular, o que é uma prática ilegal, mas que tem se tornado cada vez mais comum na região Amazônica, permitindo que áreas que pertencem ao povo Brasileiro sejam tomadas e devastadas por interesses próprios.

 

O que o projeto de lei "Amazônia em Pé" pode conquistar caso alcance a repercussão necessária e número de assinaturas?

- Nós queremos proteger essas áreas, garantir que elas tenham uma destinação correta e que ainda sejam áreas vivas num futuro próximo. Assim como indicam recentes estudos do Instituto Socioambiental (ISA) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), as terras indígenas, territórios quilombolas e Unidades de Conservação são as áreas onde os níveis de desmatamento tem sido mais menores no Brasil, ou seja, são os melhores guardiões das nossas florestas. Queremos, com um milhão e meio de assinaturas, propor o Projeto de Lei Amazônia de Pé ao Congresso e promover a proteção de todas as florestas públicas na Amazônia Legal.

 

Além de participar de movimentos, coletivos e, no caso, apoiando projetos de lei de proteção da floresta em pé, como a população pode começar a ajudar a preservar as florestas da Amazônia?

- A gente precisa começar na escola, exigindo que os livros de educação básica abordem a diversidade da Amazônia, a riqueza e a dependência que temos das nossas florestas em pé. Além da educação climática, que é urgente, precisamos também garantir que os nossos gestores municipais estejam focados em contribuir para o reflorestamento de áreas degradadas e que possuam, em seus planos, diretores os processos viáveis para tornar as cidades mais sustentáveis.

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