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Pará tem 1,7 mil pessoas presas que farão Enem 2022

Internos e internas se inscreveram com o intuito de recomeçarem suas vidas, por meio da educação

Emanuele Correa

No Pará, 1.707 pessoas privadas de liberdade farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem PPL). Esse número engloba adultos e jovens sob medida socioeducativa. São Pessoas que acreditam que, por meio da educação, serão reinseridas na sociedade com uma perspectiva de futuro melhor. A equipe da Redação Integrada de O Liberal visitou o Centro de Reeducação Feminino (CRF), no Coqueiro, e os Presídios Estadual Metropolitano II e III (PEM II e PEM III), em Marituba, para conhecer as histórias desses internos.

Sara Jani é interna no CRF e trabalha na cooperativa, com artesanato. Quando não está trabalhando, como quando recentemente fez o figurino da ópera II Tabarro, diz que está lendo ou ouvindo alguma outra mulher. Ela decidiu prestar o Enem PPL para psicologia. "Quero fazer psicologia, porque aqui somos só mulheres e conversamos muito. Eu as ouço e sempre estou disponível para ajudar. Estou me preparando para o Enem, temos uma biblioteca, temos os livros, eu gosto muito", conta.

Ressocializar é voltar a fazer parte de uma sociedade. É o que a interna Francilda Pires, que trabalha na distribuição de alimentos do CRF, mais deseja. Ela conta que deixou três filhas, o pai e a mãe do "lado de fora". Pagará pelos erros, mas com esperança de que passando no vestibular, consiga reescrever sua história. "Ano passado tentei cinco opções: sociologia, bioquímica, enfermagem, terapia ocupacional, radiologia, mas a nota não deu para passar. Este ano eu gostaria de passar em radiologia. Tudo na área da saúde me chama atenção. Eu gosto de ajudar, seria uma forma de ajudar a sociedade. Por meio da educação a gente consegue mudar a nossa vida", observa.

Francilda e Sara acreditam na educação para a transformação das próprias histórias (Thiago Gomes / O Liberal)

Quando ela entrou para cumprir a pena não tinha concluído o ensino médio. Foi no CRF que terminou os estudos. "Eles também nos dão suporte com Libras. Nós temos muito acesso aos livros na cela.  Ainda precisamos de atenção na preparação, para termos uma boa média, fazer uma faculdade, para ser inserido na sociedade novamente", concluiu Francilda.

Natali Benassuly, pedagoga no CRF, destaca que a parceria que a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) tem com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) é fundamental para a política de ressocialização. "Temos a EJA, levantamos discussões por meio das obras literárias e fazemos o preparatório do Enem. Com as reformas no bloco da educação, o preparatório volta só em outubro. A ressocialização é feita por meio de trabalho e educação. Trabalham na cooperativa, fazem cursos profissionalizantes, etc. Dentro do CRF fervilha, de segunda a segunda, cursos que contribuem para a remissão da pena", explica.

 

152 internos do Pará foram aprovados no Enem PPL em 2020

Belchior Machado, diretor de Reinserção Social da Seap, observa explica que 152 custodiados alcançaram a média de aprovação do Enem em 2020. Além das aulas regulares de Educação de Jovens e Adultos, há diversos cursos livres e cursinhos pré-Enem que são realizados nas unidades prisionais, dando suporte, motivação e estímulo  para que os custodiados realizem o Exame e tenham bom aproveitamento.

"A educação é ferramenta primordial de reintegração das pessoas privadas de liberdade ao convívio social. Ela abre as portas da mente, e exames nacionais como o Enem constituem os caminhos para um futuro em liberdade, dando oportunidades de acesso ao nível superior àqueles que buscam sair da criminalidade. Sendo aprovado, o custodiado tem a possibilidade de ingressar à universidade, na modalidade de ensino à distância, realizando seu curso com apoio da Seap e de sua família", ressalta Belchior.

Nas unidades prisionais masculinas, há celas, sala de aula, espaço para estudo EAD e biblioteca. Odielson Rocha, interno do PEM III, que irá prestar o Enem PPL, diz que começou a se preparar há dois meses e gostaria de cursar a faculdade de engenharia civil, para poder dedicar-se à família. "Quero sair daqui uma outra pessoa, já com ensino e uma profissão. Ser um bom pai e um bom marido... Eu não tive lá fora a oportunidade de estudar, devido ser classe baixa, mas aqui eu tenho a oportunidade, quero passar isso aos meus três filhos, para que eles não caiam neste lugar", destaca.

Leonardo quer voltar às unidades prisionais no futuro, mas como educador e transformar a vida de outros detentos pela educação (Thiago Gomes / O Liberal)

Quem já está mais próximo deste sonho, celebra o ingresso em uma universidade, por meio do Enem PPL. Leonardo Rebelo, é interno no PEM II desde 2012, na unidade concluiu os estudos do ensino fundamental e médio e conta que hoje cursa o 2º semestre de pedagogia e tem planos de realizar uma pós em psicopedagogia.

"Conheci a educadora dona Carmem, conheci a educação do ponto de vista que eu não conhecia. Tive a oportunidade de ser monitor. Optei pela pedagogia, por amar esse lado da educação, poder alfabetizar, ensinar as pessoas a ler e escrever. Hoje tenho uma ferramenta importante, uma pequena parcela de pessoas PPL alcançaram o ensino superior. Eu estimulei a minha esposa lá fora a estudar e ela está se formando em pedagogia", revela o estudante.

"Desejo que outras pessoas, que são PPL hoje, não desistam dos seus estudos, é um instrumento de ressocialização fundamental. Não é fácil, mas é maravilhoso quando a gente consegue. Pretendo quando eu estiver em liberdade, concluído a faculdade, quero voltar aqui para ser exemplo, dar aula para aqueles que ainda tiverem aqui, Educação continuada sempre", finaliza Leonardo.

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Pará
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