Mãe não perde esperança de encontrar filho desaparecido em Ananindeua: ‘Nunca desistimos'
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup), 1.027 pessoas desapareceram no estado em 2024
Cristina Lemos, 66 anos, é servidora pública em Igarapé-Miri e mora em Ananindeua, na Grande Belém. Há oito anos, sua vida virou de cabeça para baixo com o desaparecimento do filho do meio, Thiago Lemos da Silva, então com 32 anos. Desde o dia 3 de novembro de 2017, data em que ele saiu de casa e não retornou, Cristina percorre delegacias, hospitais, redes sociais e até cidades distantes na esperança de encontrá-lo.
"Meu filho saiu de casa e nunca mais voltou. Ele desapareceu". O desaparecimento ocorreu no bairro do Atalaia, em Ananindeua, mesmo local onde ela mora até hoje. A servidora pública conta que estava no supermercado no momento em que Thiago deixou a casa. As buscas iniciaram imediatamente após ela perceber que o filho, com esquizofrenia e tratamento contra dependência química, tinha saído. "Rodamos a cidade com cerca de 20 carros no mesmo dia. Foram 15 dias seguidos procurando, sem nenhuma pista real", lembra.
Ao longo do tempo de busca, a única pista concreta que conseguiu foi uma filmagem de Thiago saindo de casa.
A dor de uma mãe
“Ele teve uma infância tranquila até os oito anos. Mas tudo mudou quando o pai morreu em um acidente a caminho de Igarapé-Miri”, conta Cristina. A perda abalou profundamente Thiago, que passou a apresentar comportamentos agressivos e uso precoce de álcool e drogas na adolescência. Aos 21 anos, recebeu o diagnóstico de esquizofrenia, e começou o que Cristina chama de “uma luta diária pela vida do filho”.
Mesmo enfrentando surtos psicóticos, episódios de violência e rejeição aos medicamentos, Thiago conseguiu se formar em Contabilidade, fazer pós-graduação e concluir um curso de inglês. A mãe chegou a montar um escritório para ele. “Mas ele não conseguia se manter longe da maconha”, relata.
As crises se intensificaram. Foram pelo menos três internações. “O médico indicou o uso de medicamentos injetáveis. A medicação era cara, R$ 1,8 mil por ampola, mas ele ficou estável por dois anos. Parecia que estávamos vencendo”.
Até que, um dia, Thiago pediu R$ 100 para comer yakissoba, enquanto Cristina estava viajando. “Quando voltei, minha filha disse que ele não tinha comprado [a yakissoba]. Entrei no quarto dele, procurei o dinheiro e não encontrei. Alguns meses depois, no dia 3 de novembro de 2017, eu fui ao supermercado e quando cheguei, meu pai de criação disse que ele saiu. Nunca mais encontramos ele”.
Estatísticas preocupantes
Casos como o de Thiago fazem parte de uma realidade preocupante no Pará. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup), 1.027 pessoas desapareceram no estado em 2024. Em 2023, foram 1.037 casos — uma redução de apenas 1,5%. O Pará ocupa hoje a 15ª posição no ranking nacional de desaparecimentos.
Apesar dos números, o estado ainda não aderiu ao novo Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, lançado recentemente pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A plataforma, disponível em cnpd.mj.gov.br/painel-publico, promete unificar dados e integrar esforços de busca em todo o país. Por enquanto, apenas 12 unidades da federação, que utilizam sistemas de procedimentos eletrônicos da Polícia Federal, estão conectadas.
A Redação Integrada de O Liberal solicitou à Polícia Civil do Pará informações atualizadas sobre os desaparecimentos e questionou a adesão do estado ao novo sistema, mas até o fechamento desta matéria não houve resposta.
A urgência de agir
O Ministério da Justiça reforça que não é necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento. Quanto mais rápido for feito o boletim de ocorrência, maiores são as chances de localização. Essa agilidade pode fazer toda a diferença nas primeiras horas, consideradas cruciais para o sucesso das buscas.
Ao longo dos anos, Cristina seguiu várias pistas falsas, fez exames de DNA, apareceu em reportagens e até viajou para Salvador, cidade pela qual Thiago tinha uma “fixação” desde jovem. “Ele dizia que um dia sairia de casa e morreria por aí. Eu dizia: ‘Te amo tanto, não fala isso’. Eu fiz tudo por ele, mas precisava ser firme. Sempre cuidei”.
Uma das poucas informações que se aproximaram de algo concreto foi o relato de um conhecido, que disse ter obtido informações com “hippie”, de que Thiago estava bem e que queria liberdade. Mas nenhuma confirmação se seguiu.
Uma ausência que não cala
Cristina ainda guarda a filmagem do filho saindo de casa. Ela diz que, mesmo após tanto tempo, não perde a esperança. “Passei dois anos viajando, buscando. Veio a pandemia, precisei parar. Nunca houve nenhuma informação concreta sobre ele, nem quando fomos à TV, nem em delegacias. Ele está inscrito em tudo quanto é site de desaparecidos. Nada”.
Hoje, Thiago teria 40 anos. Cristina segue à espera. A dor, segundo ela, não é só pela ausência física, mas pela falta de respostas. “A gente nunca desistiu e jamais desistiria dele. O que dói é esse vazio, o silêncio, a falta de notícias. Não é só sumir. É como se ele tivesse deixado de existir. E uma mãe nunca aceita isso”, finaliza.
Qualquer informação sobre o paradeiro de Thiago pode ser repassado para a família, pelo número: (91) 98334-9966 (Mãe), para a Policía Civil ou pelo número 190.
Serviço:
Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas:
Acesse: cnpd.mj.gov.br/painel-publico
Em caso de desaparecimento:
Registre um boletim de ocorrência imediatamente em uma delegacia ou por meio eletrônico na Polícia Civil. Não é necessário aguardar 24 horas.
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