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Lições da pandemia: histórias de pacientes transformados na luta contra a doença

Pessoas se recuperam da covid no Hospital de Campanha do Hangar relatam o que mudará após a doença

Com informações da Agência Pará

Nos corredores do Hospital de Campanha do Hangar, em Belém, o maior do Pará no tratamento exclusivo da covid-19, centenas de histórias se cruzam todos os dias e se misturam ao barulho dos equipamentos e ao vai e vem de mais de 900 profissionais que se revezam diariamente nos cuidados de 143 pacientes internados nas enfermarias e Unidades de Terapia Intensiva. Um lugar onde a missão principal e palavra de ordem é salvar vidas.

Antônio Carlos Barreto, 53 anos, é agente de vigilância em Barcarena, no nordeste paraense, e está internado no Hangar há seis dias. As tatuagens espalhadas pelo corpo simbolizam momentos que marcaram a sua vida. Casado com a tatuadora Katiusia Gutierrez Guimarães, ele conta que foi ela quem fez nascer nele a paixão pelos desenhos na pele. “Eu sou apaixonado pela minha esposa. Com ela, eu aprendi a amar a arte da tatuagem”.

Das 29 tatuagens que tem no corpo, três são mais significativas para Antônio Carlos: a âncora em homenagem ao pai e os brasões dos times do coração (Agência Pará)

Entre as 29 que traz no corpo, Antônio Carlos lista três que são mais significativas: uma âncora, em homenagem ao pai, e os brasões dos times do coração: Flamengo e Paysandu. “Eu me emociono demais com essas histórias porque são boas. A âncora, por exemplo, eu fiz em homenagem ao meu pai, que era pescador. Com ele, eu aprendi muitas coisas que levo até hoje e pelas quais sou grato”, conta. 

Agora ele planela fazer a 30ª tatuagem, assim que retornar para casa. Dessa vez a pele vai ganhar número e letras que identificam o leito em que está internado no Hangar, como uma lembrança de superação para a vida toda. “Eu estou sendo muito bem tratado aqui. Esse período não foi nada fácil, mas consigo tirar muito aprendizado. Fiz esse desenho, que me lembra todos os dias que vou vencer, e pretendo tatuar. Tenho muita fé que sairei daqui bem e retornarei para a minha casa. Quero ter somente boas lembranças daqui e estou acreditando que será assim”.

A 30ª tatuagem de Antonio Carlos terá os números e a letra que identificam o leito em que está internado no Hangar, para marcar a superação da doença (Agência Pará)

Outro paciente que está ansioso para voltar para casa é o contador Cleber Pena Cardoso, de 38 anos. "Vivia para o trabalho", é assim que ele lembra da vida que tinha antes da covid-19 chegar. “O medo é real. A partir da doença, tudo fica incerto mesmo. A minha rotina sempre foi de muito trabalho. Trabalhava, estudava e ficava poucos dias em casa, não tinha tempo. Hoje eu consigo perceber que não deve ser só isso”, aconselha. 

Mudar este cenário é o principal objetivo depois que sair do hospital. “Pretendo ter mais tempo com a minha família porque a vida é realmente muito rápida. Temos que saber conciliar o tempo e não deixar as coisas passarem ou se perderem”, diz.

“Pretendo ter mais tempo com a minha família porque a vida é realmente muito rápida", planeja Cleber Pena Cardoso (Agência Pará)

Um terço na mão confirma que a fé é a principal arma de Jeferson Antônio da Silva, 65 anos, contra o coronavírus. Técnico de estudos e pesquisas, ele mora em um sítio no município de Ourém, a cerca de 190 quilômetros da capital, e veio se tratar no Hospital de Campanha do Hangar. É das orações que ele tira forças para superar a doença. “Lá fora eu sou muito engajado com as causas da igreja. Faço reflexão do evangelho e estudo isso com pessoas que precisam de auxílio ou passam por alguma dificuldade na vida”, conta. 

A fé é o suporte que Jeferson encontrou para superar esse momento. Ele conta que fazer o terço da misericórdia em silêncio o tem ajudado nessa luta. “Eu percebi que a minha glicemia estava muito alta, não conseguia fazer baixar. Me acalmei e fiz um momento intenso de terço, pedindo a Deus que agisse em mim para que eu continuasse servindo às pessoas e questionei, pedi uma resposta. Hoje estou bem melhor. A fé é o que transforma as coisas e as pessoas”, diz ele. 

Casado há 39 anos com Marivalda Saavedra Paiva e pai de Jeferson, Richard e Natasha, ele está ansioso para retornar a quem chama de único amor. “Há 39 anos eu digo que a amo porque é verdade. Antes da minha esposa acordar, a mesa de café está posta para ela. Meus filhos estão todos criados e prontos para viver a vida deles. Isso me conforta e eu tenho muito orgulho”, conta.

O Hospital de Campanha do Hangar já atendeu mais de seis mil pacientes. A unidade concilia os protocolos assistenciais com ações de humanização, o que tem feito toda a diferença na condução das centenas de casos tratados pela equipe multiprofissional. "São diferentes histórias de vida, que se cruzam em um momento como esse. Lutamos todos os dias para que elas continuem acontecendo fora do hospital", afirma Bárbara Freire, diretora técnica do hospital de campanha.

Pará
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