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De Castanhal a Hollywood: a história da Pipoca Pantera Cor-de-Rosa, um dos alimentos mais acessíveis

E saiba a resposta para o mistério, sobre qual é a preferida: doce ou salgada?

Victor Furtado (texto) Priscila Monteiro (edição)

É difícil encontrar um paraense que nunca tenha comido uma pipoca Pantera Cor-de-Rosa. Seja doce ou seja salgada. Também é difícil encontrar, no estado — e em algumas redes de supermercados do Norte e do Nordeste brasileiros —, um lugar que não comercialize esse produto. Igualmente desafiador é encontrar um alimento que é vendido por um preço tão baixo. Os mais corajosos e insensíveis vendem a R$ 1 o pacotinho.

Por essas e outras características, as Pipocas Pantera Cor-de-Rosa são um tipo de alimento muito democrático e acessível. Da criança ao idoso, do pobre ao rico, das pessoas mais simples às de paladar refinado. Em algum momento, as pipocas estiveram presentes e geraram alguma memória. E cada um tem seu jeito. Uns só comem a doce. Outros só a salgada. Outros precisam misturar os sabores. Não há regras de etiqueta para esse consumo. É, praticamente, um alimento cultural.

 

Produto presente na vida de paraenses

 

A cada 15 dias, o vendedor ambulante Nilson Silva Júnior, de 35 anos, compra 450 pacotes de Pipocas Pantera Cor-de-Rosa. Pelo menos 30 precisam ficar para o filho dele levar para escola, todos os dias. Outros 20 são para ele mesmo dar conta da rotina de vendas em ônibus e revenda para “bombonzeiros”. Vende cada pacote a R$ 0,50 ou, na “promoção especial olha aí”, três por R$ 1. Afirma que vende tudo. Ele ainda vende outros produtos de outras marcas, como doces.

“Desde criança eu como as pipocas. Era um tempo difícil e minha família sempre foi pobre. O que dava para minha mãe me dar de lanche eram as pipocas. Criei um costume, sabe? Se tornou tão importante quanto tomar açaí e o cafézinho. E continua sendo fácil de vender essas pipocas. Mesmo com outras marcas que até vendem bem, o pessoal ainda confia e prefere — eu também — as da Pantera. Quem não gosta? É baratinho, cabe no bolso em preço e tamanho, é gostosa... resolve qualquer parada”, conta o vendedor, que diz ser fã do sabor salgado.

O educador e designer Diorde Correa, de 32 anos, também traz a paixão pelas pipocas desde a infância. Lembra de quando jogava futebol nas quadras e cada gol era R$ 0,10. Quem se dava bem nas partidas, ostentava um pacote de pipocas. Entre 1998 e 2002, enquanto estudou na UFPA, o combo chopp de frutas com Pípocas Pantera Cor-de-Rosa salvou vários almoços.

“É um alimento muito acessível, barato e tem qualidade. Eu desenvolvo um projeto social e sempre comprava para distribuir para os alunos. Eu gosto muito da salgada, mas depois do almoço tem que rolar uma doce”, diz Diorde.

A filha dele, Sophia, aprendeu a gostar das pipocas também e as doces são as preferidas. E tudo isso começou com a mãe do educador, Irene Correa. Confirmando a teoria de seu Eustáquio, eles não gostaram da mudança de embalagem. Mas tiveram de se acostumar.

“Também acho que seja um alimento que já salvou várias refeições de muita gente. Às vezes, no ônibus, entram vendedores com as pipocas e água, fazendo promoção. E anunciam: 'bora almoçar, bora almoçar?'. É muito bom. Distribuímos na época de Cosme e Damião. E se teve algo bom da mudança de embalagem, é que agora aproveitamos para fazer enfeites de Natal recicláveis”, conta dona Irene, que também é do fã-clube das salgadas.
 

De geração em geração, saborear as pipocas Pantera, virou tradição entre os paraenses (Fábio Costa / O Liberal)

Já são 31 anos de história da marca. Em 1988, uma família mineira resolveu apostar no Pará. Tinha tudo para dar certo, pois era um negócio que não existia por aqui: a produção de pipocas industrializadas. Era uma aposta arriscada, já que a família era do ramo de carnes. Era uma forma de garantir à geração seguinte um trabalho.


Os mineiros encontraram um bom terreno em Castanhal para começar. O endereço não mudou: avenida Presidente Getúlio Vargas, um trecho batizado da rodovia BR-316, no centro da Cidade Modelo.

Há 31 anos na rodovia BR-316, no centro da Cidade Modelo - Castanhal (Fábio Costa / O Liberal)


A moda dos produtos com nomes de personagens
 

Desde o início, a marca já se chamava Pantera Cor-de-Rosa. Era uma tendência de mercado, na década de 1980, pegar carona no sucesso de personagens da indústria do entretenimento para fortalecer produtos, sobretudo os que estavam estreando. Na verdade, é uma tendência até hoje. Isso é bem evidente com produtos voltados ao público infantil e não apenas no ramo alimentício. Naquela época, em Minas Gerais, as Pipocas He-Man faziam sucesso. A força dos poderes do milho.

Entre desentendimentos familiares, três anos depois a fábrica foi posta à venda. Quem assumiu foi o senhor Eustáquio Oliveira. Outro mineiro, que era conhecido da família proprietária original. Foi o segundo líder das Pipocas Pantera-Cor-de-Rosa e o início de uma política de governança corporativa, a partir de 1991.

Até então, só eram vendidas as pipocas doces. Foi na gestão dele, ao passo que o produto começou a ganhar mercados nordestinos, que veio a ideia de fazer a vertente salgada. Deu certo. Ao menos para o mercado paraense e para a região Nordeste do Brasil. Há pipocas industrializadas em todo o país, mas salgadas são coisa do norte e do nordeste.

Esse novo sabor chegou em 1993. É isso mesmo: por cinco anos, só havia pipocas doces. Essa estratégia de buscar novos mercados e lançar novos produtos foi puro instinto de sobrevivência de Eustáquio. A crise econômica devastou a saúde financeira de muitas empresas brasileiras, no início da década de 1990. As coisas só tiveram um novo rumo com a chegada do Plano Real. O ano de 1994 foi de mudança.

Com a chegada das pipocas salgadas, uma nova oportunidade de negócios se abriu com para explorar os potenciais do Plano Real. Era hora de investir no ramo de salgadinhos. Havia muitas marcas de fora do Pará e com preços, historicamente, menos acessíveis que um pacote de pipocas. Foi um ponto sem volta para a fábrica. A partir dali, novos projetos precisariam vir com alguma frequência. Atualmente, o catálogo de produtos inclui salgadinhos de trigo e "geladinho" (ou "chopp", se preferir). E mais outros novos produtos estão a caminho.

Novos produtos significavam que era importante registrar a marca. Só havia um obstáculo óbvio: a indústria de alimentos Pantera Cor-de-Rosa não era dona desse nome. Em 1998, outra decisão importante precisou ser tomada. Apesar do custo que representaria, mudar o nome da marca não era uma opção, como costuma ser para bares e restaurantes se reinventarem.

De Castanhal para Hollywood — distrito de Los Angeles, nos Estados Unidos da América —, a fábrica regularizou a situação. Começou a pagar royalties para os estúdios Metro-Goldwyn-Mayer (MGM, aqueles do leão).

A cada real ganho com a marca, um percentual é destinado aos MGM. Isso não salvou os estúdios de uma crise financeira que os levou à ruína. Mas essa é outra história. Basta procurar, no pacote das pipocas, pelo selo dos estúdios. É a prova de que tudo está certinho e legalizado. Tem um outro leão que se remunera de cada real ganho pela Pantera Cor-de-Rosa castanhalense. Essa já é uma terceira história.

 

Mudança de embalagem e o custo real do produto

 

Por mês, são produzidas de 400 a 500 toneladas de produtos da Pantera Cor-de-Rosa. Mais da metade da produção é só de pipocas. São 160 trabalhadores diretos na fábrica de Castanhal, que está sendo expandida e ganhando novos anexos. Em breve, mais trabalhadores farão parte dessa equipe. Mais empregos sendo gerados pela indústria paraense, que tem DNA mestiço com o povo de Minas Gerais.

Só que não há como imaginar quantos empregos indiretos são gerados por conta das pipocas. Cada pacote de 15 gramas de pipocas — uma média de 160 mil pacotinhos por mês — sai da fábrica custando, em média, R$ 0,19. É, só isso mesmo. A equipe de reportagem também ficou surpresa.

Incluindo custos para quem revende, o preço médio é de R$ 0,50. As estratégias de negócio da fábrica sempre foram de manter o produto com qualidade e no menor preço possível. O objetivo é faturar na quantidade vendida. Dá certo até hoje.

Esse preço baixo garante oportunidade de trabalho com pouco investimento. Quantos vendedores, dentro de ônibus, já ofereceram uma pipoca Pantera Cor-de-Rosa ao leitor? Quantos vendedores de bombons — pode chamar de "bombonzeiro" mesmo — já foram vistos com um pequeno estoque dessas pipocas? Em quantos mercadinhos, nas áreas periféricas, já foram vistos esses produtos? É um produto que se adquire fácil e vende fácil. Preço, praticidade, hábito alimentar. Há uma razão para cada consumidor.

Uma curiosidade revelada por Adson Santos Barbosa (atual sócio majoritário) é que dos R$ 0,19 do custo de fábrica de um pacotinho das pipocas, quase R$ 0,18 são o custo pelas embalagens. Cerca de 95% do custo de um pacote está na embalagem. As matérias primas são tão baratas e tão abundantes na indústria nacional que representam a menor parte dos custos. O complicado é proteger a qualidade e a durabilidade das pipocas pelo maior tempo possível. Principalmente no mercado amazônico, onde a umidade do ar é alta e ceifa a durabilidade do produto rapidamente.

Foi por isso que os saquinhos plásticos deram lugar aos pacotinhos metalizados. Isso mais que dobrou a validade dos produtos. Para quem quiser conhecer pelo termo industrial usado — até para ostentar o novo conhecimento —, as novas embalagens aumentam o "shelf life" (tempo de prateleira, em inglês).

O seu Eustáquio resistiu à essa mudança durante toda a gestão dele. Acreditava, por experiência de mercado, que um pacote não transparente tiraria do consumidor a confiança no produto. O saquinho transparente permitiria ver a quantidade de produto e condições.

Colocar o cliente ou consumidor no centro da estratégia de marketing é um conceito defendido por Robert Lauterborn, em 1990, quando ele propôs trocar os tradicionais 4 P do Marketing de McCarthy — produto, preço, praça e promoção — por 4 C: Consumidor / Cliente, Custo, Conveniência e Comunicação. Seu Eustáquio sempre pensou que as pipocas não seriam nada sem o consumidor. Por isso foi tão cauteloso com a mudança.

Por experiência, Eustáquio não estava totalmente errado em pensar nos riscos da mudança de embalagem. Afirma que viu outros empresários desse segmento reverterem os pacotes metalizados por queda de vendas. Afinal, consumidores de salgadinhos devem lembrar de uma marca de batatas fritas que é sempre alvo de piadas por conter mais "ar" do que produto. Só deu certo com as pipocas e outros produtos Pantera Cor-de-Rosa pela confiança que a marca conquistou.
 

No processo de embalagem, pacotes metalizados substituiram os transparentes para manter a pipoca crocante por mais tempo (Fábio Costa / O Liberal)

 

A passagem das gestões e o futuro

 

Eustáquio, após 23 anos à frente da Pantera Cor-de-Rosa, estava ficando preocupado. Só tinha dois filhos e ambos médicos. Os herdeiros não manifestaram interesse em tocar o negócio da família. Mas nem o dono queria ver aquela história toda se perder. Queria um sucessor que confiasse na marca e ajudasse a evoluir o trabalho. Foi assim que Adson Santos Barbosa passou de cliente a proprietário.

Mineiro que apostou na produção de pipocas industrializadas no Pará (Fábio Costa / O Liberal)


Adson era distribuidor dos produtos da Pantera Cor-de-Rosa. Tinha um bom relacionamento com a fábrica e dominava a distribuição no mercado desse segmento. Passou a ser o próprio fornecedor. Foi ele quem implantou as mudanças mais significativas recentes. Ele tem um perfil mais agressivo de gestão. O projeto atual é o da expansão da fábrica — as obras já estão em curso — e aumento da capacidade produtiva.

Outras duas novidades no catálogo de produtos da fábrica devem chegar. Um deles mantém a tradição das pipocas, que serão as pipocas caramelizadas, reforçando a preferência do sabor doce. A outra será um novo tipo de salgadinho, mais voltado ao público adulto, no estilo de nachos.

Algo que nunca mudou, garante Adson, foi a fórmula. A única coisa que passou por alguma transformação foi a forma de torrar o milho. O maior obstáculo da produção desse tipo de alimento é a umidade. Qualquer grau de umidade despercebida pode desandar a produção toda. Foi por isso que resolveu implantar as embalagens metalizadas. A proteção contra a umidade é bem superior.

De fora, os únicos insumos são o fubá (para os salgadinhos de milho) e a canjica (para as pipocas). Esses materiais vêm de Goiás (que detém a melhor qualidade) e Mato Grosso (maior produção e preços competitivos). Mas a gordura de palma é adquirida com fábricas locais.

Diferente da família Novais e da família de Eustáquio, Adson tem uma herdeira para a fábrica. Thais Lopes Barbosa é sócia minoritária e está construindo uma história junto com os produtos Pantera Cor-de-Rosa.

Thais começou a trabalhar no chão da fábrica, em 2015. Depois progrediu para o auxílio na testagem de qualidade e padronização de processos. Agora está estudando Administração para poder trabalhar diretamente na gestão. A mente jovem já tem planos para o futuro: estabelecer uma cultura organizacional e política de governança corporativa plena; expandir relacionamentos com outras empresas; conquistar mercado em todo o país; e agregar ainda mais a imagem paraense aos produtos. Principalmente a pipoca.

"É muita responsabilidade. As pipocas fazem parte da cultura do Pará. As pessoas se identificam com o produto. Em qualquer canto pode ser vendida. Nos ônibus, os bombonzeiros e, algumas pessoas ao passarem por Castanhal, em viagem, param para comprar direto na fábrica. É sim um alimento democrático e que chega a todo tipo de pessoa", diz Thais.

Assim pensa um dos funcionários mais antigos da fábrica. Waldir Coelho é vendedor. Levou a experiência com os alimentos da fábrica da Hileia para as pipocas Pantera Cor-de-Rosa, em outubro de 1991. Para ele, a marca é tão forte no estado e em alguns dos mercados regionais que ele nem precisa vender diretamente. Só entra em contato com os clientes e pergunta quanta mercadoria vão querer.

"A Hileia chegou a fazer uma pesquisa de mercado e acabou nos parabenizando. A marca Pantera de Cor-de-Rosa sempre saía na frente. Para nós, trabalhar nesta fábrica está no sangue, pois todos temos a responsabilidade de fazer um produto genuinamente paraense. Só temos duas marcas concorrentes, mas continuamos a maior do Pará e de outros estados", declarou Waldir.


A oportunidade perdida com milho no Pará
 

Curiosamente, o Pará nunca teve tradição em cultivar milho. Muito menos milho para pipoca. E é uma oportunidade perdida ou subvalorizada, como aponta o engenheiro agrônomo Paulo Lobato, técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater). Por isso, faltam até dados sobre a produtividade de milho.

Geralmente, explica Lobato, a produção paraense de milho é de cultura intercalar ou consorciada. Mas, dificilmente, chega em nível comercial. Quase sempre é só para atender às demandas locais ou utilização para os próprios produtores. Na agricultura familiar, ocorre o consórcio com a mandioca, essa sim produção tradicional paraense.

Nas culturas comerciais, o milho é só de entressafra da soja. Os restos da safra da soja servem para o cultivo do milho, milheto ou sorgo. Novamente, só é usado para atender a demandas mais locais. Nem chega a ser contabilizado e distribuído pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Já a gordura de palma, além da Agropalma, o técnico da Emater aponta haver fábricas em Santo Antônio do Tauá e em Tomé-Açu. Mas até dessa produção faltam dados.

No Brasil, em 2017 e 2018, como aponta a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Associação Brasileira das Indústrias do Milho, a demanda nacional foi por 97,554 milhões de toneladas do cereal. A safra paraense desse período foi de 786,5 mil toneladas. Mato Grosso (26.400,6 milhões de toneladas), Paraná (11.857,7 milhões de toneladas) e Goiás (8.111,7 milhões de toneladas) foram os principais produtores.

Agora que você, leitor, já conhece a história das Pipocas Pantera Cor de Rosa, qual a sua história com o produto? Abra uma pipoca e divida conosco. A história e as pipocas.

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Pará
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