Banpará investiu R$ 90 milhões em fundo ligado ao Master
Sindicato dos Bancários monitora possíveis riscos de aporte no FIDC Rover, administrado pela Reag, que foi liquidada pelo Banco Central este mês
O Banco do Estado do Pará (Banpará) aportou um montante que atingiu R$ 95,6 milhões no Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) Rover, administrado pela Reag Trust DTVM, instituição que sofreu liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC) em janeiro de 2026. O investimento, realizado entre os anos de 2024 e 2025, entrou no radar de órgãos federais após investigações da Polícia Federal (PF) apontarem graves irregularidades no sistema financeiro envolvendo a gestora e o Banco Master.
Ao Grupo Liberal, o Sindicato dos Bancários do Pará confirmou que acompanha o caso para avaliar possíveis impactos aos servidores e à segurança da instituição pública.
De acordo com o portal Valor Econômico, as aplicações do Banpará ocorreram em dois momentos distintos: um primeiro aporte de R$ 50 milhões em outubro de 2024 e uma segunda remessa de R$ 40 milhões em agosto de 2025. Com a rentabilidade acumulada, o valor chegou a R$ 95,6 milhões ao fim do último ano.
A liquidação extrajudicial da Reag Trust Distribuidora de Títulos Valores Mobiliários S.A., que havia mudado de nome para CBSF DTVM, foi determinada pelo BC em 15 de janeiro deste ano, devido ao comprometimento patrimonial e a violações de normas regulamentares, expondo uma rede de movimentações bilionárias que agora são alvo do Ministério Público Federal (MPF).
Ainda segundo o portal, não há, até o momento, indícios formais de irregularidades na aplicação realizada pelo Banpará. Com a valorização das cotas, o montante investido teria alcançado cerca de R$ 95,6 milhões ao fim de 2025. Mesmo assim, o volume de recursos direcionado a um fundo ligado a uma gestora sob investigação levantou questionamentos sobre critérios de governança e gestão de risco adotados pela instituição.
Internamente, conforme apurado, servidores de carreira teriam demonstrado preocupação com o nível de exposição do banco a um fundo administrado por uma gestora que posteriormente entrou no foco de investigações envolvendo operações suspeitas no sistema financeiro.
"Não temos conhecimento de pessoas físicas ou servidores que tenham sido impactados diretamente por esse investimento específico no FIDC. Estamos acompanhando atentamente o desenrolar das investigações para entender os riscos aos empregos e à confiança no banco", afirmou Vera Paoloni, representante do Sindicato dos Bancários do Pará. A entidade busca esclarecer se a exposição a fundos ligados a gestoras sob suspeita pode comprometer a estabilidade dos serviços bancários no Estado.
MASTER
Procurada pelo Grupo Liberal, a defesa do proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro enviou à seguinte nota: “A defesa de Daniel Vorcaro informa que o Banco Master e seu controlador não participam da gestão, da administração, da precificação ou da modelagem técnica dos fundos mencionados”.
Banpará diz ter sido vítima de esquema nacional
O Banpará sustenta que é vítima do esquema envolvendo a Reag/Master, e não participante de eventuais irregularidades. O banco afirma que solicitou a renúncia da Reag da administração e de outros serviços relacionados ao fundo em setembro de 2025, antes da decretação da liquidação extrajudicial, o que, segundo a instituição, demonstra postura preventiva e de não conivência.
A justificativa técnica apresentada para o investimento menciona a busca por diversificação da carteira e expectativa de retorno de até 130% do CDI, com risco considerado controlado. Especialistas, no entanto, destacam que decisões dessa magnitude, especialmente em bancos públicos, exigem transparência ampliada e critérios rigorosos de análise.
A liquidação da Reag trouxe à tona operações que, juntas, somavam centenas de bilhões de reais sob gestão, ampliando o debate sobre fiscalização, governança e responsabilidade no uso de recursos públicos e institucionais.
INVESTIGAÇÃO
O escândalo do Banco Master ganhou escala nacional com a Operação Carbono Oculto, que apura ligações de instituições financeiras com o crime organizado. A Reag Trust era responsável pela gestão de mais de 500 fundos, com um patrimônio líquido consolidado de R$ 287,1 bilhões. Suspeita-se de um esquema de "socialização de prejuízos", em que perdas de investimentos eram repassadas a cotistas institucionais, enquanto os lucros eram direcionados a entes privados.
Apesar do congelamento operacional das contas da administradora, o patrimônio dos investidores aplicados nos fundos possui garantia de segregação jurídica. Isso significa que os recursos do Banpará não se misturam ao caixa da Reag Trust.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) foi procurada pela reportagem para informar se há novas fases da investigação que envolvam o banco estatal paraense, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.
Banco vai completar 66 anos em 2026
O Banpará é uma sociedade de economia mista, organizada sob a forma de banco múltiplo, para gerar desenvolvimento econômico ao Pará. A instituição financeira vai completar 66 anos de fundação em 2026 e tem buscado disputar espaço no mercado, com competitividade.
Em 2025, por exemplo, o Banco implementou o Banparapay, um sistema de pagamento moderno de transações financeiras. O projeto inclui maquininhas com tecnologia avançada, pagamento via QR Code e integração bancária, proporcionando mais agilidade e segurança para empreendedores e clientes.
A nova ferramenta foi implementada, em março do ano passado, em parceria tecnológica da EntrePay. À época, o Banpará divulgou que as maquininhas passariam a contar com Pix habilitado e pagamento por aproximação (NFC), garantindo transações rápidas e seguras.
De acordo com o governo do Pará, nos últimos três anos, a instituição financeira cresceu. Durante a pandemia de covid-19, o Banco passou o administrar os pagamentos dos programas sociais e auxílios do Estado e prefeitura - Vale Gás, Água Pará, Renda Pará, Fundo Esperança e Bora Belém -, bem como gerenciar de maneira os lucros e dividendos, criando linhas de financiamento com juros abaixo do mercado. “A iniciativa tornou o Banpará competitivo, diferenciado e atrativo aos olhos do investidor”, destaca o texto do portal de notícias Agência Pará, do governo estadual.
Ainda segundo o governo estadual, no início de 2019 o Banco somava 108 agências em todo o Estado. Em março de 2025, o banco inaugurou sua 62ª unidade, entregue pela atual gestão do governo estadual, iniciada em 2019. Atualmente, são 164 agências e 35 postos de atendimento no território paraense.
Cronologia e detalhes da crise financeira
Outubro de 2024: Banpará realiza o primeiro aporte de R$ 50 milhões no fundo.
Agosto de 2025: Banco aplica novos R$ 40 milhões no FIDC Rover.
Setembro de 2025: Instituição paraense solicita renúncia da Reag da administração do fundo.
Dezembro de 2025: Valor total do investimento alcança R$ 95,6 milhões.
Janeiro de 2026: BC decreta liquidação extrajudicial da CBSF DTVM S.A. (nova denominação de Reag Trust DTVM S.A.)
Total sob gestão: Reag administrava R$ 287,1 bilhões em mais de 500 fundos de investimento
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