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Canoístas destacam relação de dependência e respeito com o meio ambiente

Grupos de canoagem mostram a relação entre esporte, saúde física e mental e preservação ambiental, além da convivência sustentável com os povos ribeirinhos

Sidney Oliveira e Pedro Cruz

“Tenho um amigo, de outro clube de canoagem, que está há mais tempo do que eu nessa. Uma vez ele falou algo muito certo: a maioria das pessoas que ‘procuram a água’ está com algum tipo de problema que quer deixar ali”. A reflexão, contada por Alan Bordallo, também é uma autoanálise. “Então eu, quando comecei a remar, em 2015, estava numa fase baixo astral, aí vim para cá remar”, relembra.

Bordallo é fundador, instrutor e coordenador do Caruanas Va’a, um dos vários clubes de canoagem que desbravam a Baía do Guajará, outros rios e furos que circundam a Região Metropolitana de Belém com expedições e iniciativas socioambientais de preservação da natureza e interação com os ribeirinhos.

Alan Bordallo é um dos fundadores do grupo Caruanas (Sidney Oliveira/O Liberal)

A busca inicial por paz de espírito e renovação evoluiu para uma relação intrínseca de dependência e, essencialmente, respeito à natureza – algo totalmente alinhado com o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado anualmente em 5 de junho.

“O prazer de fazer a canoagem é ter justamente a prática do esporte em contato com a natureza e poder desfrutar de momentos de contemplação da fauna, do meio ambiente e explorar o grande potencial hídrico que temos. Isso desperta a consciência e a educação ambiental em tempos que o desmatamento e a poluição avançam numa escala exponencial”, salienta outro canoísta, Thiago Santos.

Professor de Educação Física e com mais de 10 anos de experiência em canoagem, Santos está entre os criadores da Marenteza, escola de canoagem que atua não apenas em Belém, mas em áreas do nordeste paraense, Ilha do Marajó e baixo amazonas.

Cercada por 39 ilhas, Belém têm, atualmente, outras seis iniciativas similares, que têm crescido no número de apoiadores e integrantes. São elas: Canoapaidegua, Marear, Amazônia Va’a, Ubá, Canoeiros e o Iara Va’a.

Responsabilidade socioambiental

Alinhado com o discurso da preservação e conscientização dos recursos naturais, o grupo Marenteza já organizou ações de limpeza e reciclagem de lixo despejado nas águas da região.

“Nosso objetivo é conseguir preservar nossos espaços naturais para futuras gerações. Nós já realizamos por diversos anos o clean up day, um evento australiano que dedica o segundo domingo de setembro para limpeza do local da prática esportiva, seja rio, praia ou igarapé”, explica.

Thiago Santos faz parte da Marenteza (Arquivo pessoal)

A ação atuava em várias frentes, em uma espécie de cadeia produtiva. “Reuníamos os remadores, convidávamos a associação de reciclagem de Ananindeua para doar o material reciclável que retirávamos do rio. Era em torno de 300 kg”, detalha Thiago Santos.

“O evento é sem fins lucrativos e tenta melhorar a educação ambiental mostrando que, se cada um fizer a sua parte, a gente consegue melhorar a convivência e o uso do rio, seja para lazer ou para esportes”, complementa.

A canoagem tem como pilar a responsabilidade socioambiental, pois a Amazônia não é só floresta, água e fauna. O homem, sobretudo o ribeirinho, faz parte desse contexto e é foco do relacionamento do grupo Caruanas com comunidades da Ilha das Onças, em Barcarena, cerca de trinta minutos de Belém à remo.

Um exemplo é a ‘Horta da Maré’, idealizada pela agrônoma Tassiana Miranda, de Santarém. O projeto é de canteiros de hortas suspensas devido ao alagamento natural pelas altas das marés. Tem como objetivo introduzir as hortaliças orgânicas na alimentação das pessoas da Ilha das Onças.

Horta da Maré é uma iniciativa incentivada pelo Caruanas (Sidney Oliveira/O Liberal)

Além da segurança alimentar aos integrantes da comunidade, futuramente pode, também, gerar renda e sustento. “É uma interação para deixar um legado para os nativos”, explicou Alan Bordallo.

“Essa horta veio justamente para ajudar, ainda mais, no período de maré alta, que aqui as regiões são muito banhadas pelas águas. Ajuda a dar solução, por que não temos como plantar hortaliças no solo diretamente. O projeto está proporcionando colher tanto para o sustento próprio como para repartir com os amigos”, aprova Celso de Jesus, 41 anos, 19 deles morando na Ilha das Onças.

O nome Caruanas Va’a é uma homenagem aos povos originários e ribeirinhos. Foi escolhido como forma de valorizar a cultura indígena. “Caruanas são entidades que vivem no fundo das águas e na floresta que, segundo a cultura indígena, trazem cura e equilíbrio dos seres viventes. É uma forma de valorizar a cultura amazônica”, conclui o fundador Alan Bordallo.

Meio ambiente: aliado da saúde física e mental

Ainda sobre a relação com o rio, como uma prática de refúgio e relação com a natureza, Bordallo aponta que esforço e movimento da canoagem fazem deixar o estresse para trás.

“A canoagem, em geral, tem muito disso: ela transforma o teu esforço em movimento, em te levar para frente. Cada remada que tu dás, tu deixas um pouco do teu estresse. Gasta um pouco de energia ali, produz elementos químicos dentro do teu corpo que já te colocam mais para cima. É como uma luta”, argumenta.

A canoagem é o elo entre o centro urbano e as ilhas (Sidney Oliveira/O Liberal)

Na visão do remador, a procura pelo contato com a água, por meio da prática de canoagem, tem crescido em Belém. Para ele, o interesse por conhecer, estar mais próximo da natureza e do outro lado da cidade é notório. “Eu percebo que em Belém existe um momento favorável em busca desse contato com o rio. Muita gente está se interessando mais por esse lado da cidade que ficou tanto tempo esquecido”, atesta.

Passado o auge da pandemia do coronavírus em Belém, aumentou a procura por atividades em locais aberto. “Todos nós tivemos que nos privar do contato com as pessoas, de sair de casa. Então, quando foram flexibilizadas as regras de isolamento, a galera procurou muito o esporte ao ar livre em geral”, pontua.

“A gente tem visto uma procura como nunca houve antes. E o fato de estar praticando o esporte ao ar livre, que é mais seguro em relação à covid segundo estudos recentes, é outra coisa que tem favorecido a procura pela modalidade”, reforça o remador.

O esforço físico auxilia no alívio do estresse, aponta Alan (Sidney Oliveira/O Liberal)

Terapia

Quem se sente motivado e otimista na prática da canoagem é José Márcio Xavier da Silva, 42 anos. Pasteleiro, há um ano ele rema como forma de reabilitação e terapia devido à depressão que o acompanha por alguns anos.

“Procurei a canoagem devido ao tratamento que estou fazendo de depressão. O contato com a natureza e a remada me ajudam bastante nesse processo que estou passando hoje. É um refúgio, uma terapia, uma meditação. Quando você está remando, está meditando também. É muito bom esse processo de canoagem e remada com o meio ambiente. Já melhorei setenta por cento da minha depressão”, afirma.

José Márcio Xavier da Silva usa a canoagem como terapia para a depressão (Sidney Oliveira/O Liberal)

Xavier ainda destaca que foi incentivado durante o processo de psicoterapia. “Minha psicóloga me estimulou a procurar mais contato com a água, com o rio, por isso busquei a canoagem”, explica.

Em meio aos praticantes da modalidade, Júlia de Almeida, 29, psicóloga paraense que mora há sete anos no Rio de Janeiro, aproveita as folgas para visitar a família e também reestabelecer o contato com os rios amazônicos.

“A gente como categoria, os psicólogos, entende que fazer uma atividade física ajuda na produção de bem-estar, ajuda no cuidado da saúde mental”, explicou Almeida, que ainda destaca outros pontos positivos desse processo.

“A canoagem, por ser ao ar livre, por estar em contato com outras pessoas ou mesmo a prática sozinha na água, é uma forma de trabalhar a segurança, o esforço físico, isso tudo também estimula a sensação de bem-estar e pode ajudar no cuidado de saúde mental”, reforça.

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