Os contracheques que serão pagos ao longo do mês de janeiro de 2026 devem chegar diferentes para milhões de trabalhadores brasileiros. Para quem recebe até R$ 5 mil por mês, o desconto do Imposto de Renda deixará de existir. Já entre os que ganham de R$ 5.001 a R$ 7 mil, o valor retido será reduzido de forma significativa. A expectativa é de mais dinheiro líquido na conta logo no início do ano, efeito que passou a ser chamado informalmente de “décimo quarto salário”, embora tecnicamente não se trate de um benefício extra, mas da redução do imposto cobrado na fonte.
A mudança é reflexo direto da reforma do Imposto de Renda aprovada recentemente e que passa a valer neste exercício. Até 2025, trabalhadores com rendimentos próximos de R$ 3 mil já viam o “leão” morder parte do salário mensal. Agora, a faixa de isenção foi ampliada para R$ 5 mil. Na prática, isso significa que o campo “IRRF” do contracheque de janeiro em diante deverá vir zerado para essa parcela da população. O desconto do INSS continua existindo normalmente, mas o imposto federal deixa de reduzir o rendimento líquido.
Para quem recebe acima desse patamar, mas até R$ 7 mil, o impacto também será relevante. As alíquotas foram reduzidas e a parcela a deduzir aumentou, o que fará com que o valor descontado seja menor do que no ano passado. Segundo o economista Valfredo Farias, o modelo segue o princípio da progressividade. “Todo mundo que ganha até R$ 5.000 está isento. A partir daí, cada faixa adicional de renda passa a pagar uma alíquota maior apenas sobre o que excede esse valor, e não sobre o salário inteiro”, explica. “É um sistema em que quem ganha mais paga mais, mas de forma gradual”, completa.
A sensação de “salário extra” ocorre porque o trabalhador passará a ficar com um dinheiro que antes saía todo mês. Um profissional que recebia R$ 5 mil em 2025 podia ter entre R$ 300 e R$ 500 descontados mensalmente de Imposto de Renda. Em 2026, esse valor deixa de ser retido. Ao longo de 12 meses, a economia acumulada pode se aproximar do valor de um salário inteiro, o que ajuda a explicar a comparação popular com um “14º salário”, ainda que não haja nenhum depósito adicional feito pela empresa.
Planejamento financeiro
A expectativa já influencia o planejamento financeiro das famílias. A assistente comercial Ingrid Casseb, de 28 anos, afirma que o valor que deixará de ser descontado deve ajudar a reorganizar o orçamento doméstico. “Para mim, a prioridade seria colocar as contas em dia, para organizar melhor o orçamento da casa, ficar mais tranquila e guardar um dinheiro para emergência, até para ter uma segurança maior financeira”, diz. O cenário é especialmente relevante neste período do ano, marcado por despesas como IPTU, IPVA e material escolar.
Segundo o economista Valfredo Farias, a tendência é que boa parte desse dinheiro adicional não seja direcionada imediatamente ao consumo. “Dados recentes mostram que cerca de 80% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida e aproximadamente 30% estão inadimplentes. Então, uma parcela relevante desse recurso deve ser usada para pagar contas atrasadas, sair do SPC e do Serasa”, avalia. Ainda assim, ele destaca que parte do valor retorna à economia. “Outra parte vai para consumo, principalmente alimentação. Isso ajuda o comércio e os serviços, mesmo que de forma moderada”, afirma.
Efeitos
O aumento do consumo levanta dúvidas sobre possíveis efeitos inflacionários. Para o economista, existe esse risco, mas de forma limitada. “Sempre que há mais dinheiro circulando, há pressão sobre preços. Mas esse impacto não deve ser grande porque apenas cerca de 8% da população ganha mais de R$ 5 mil. Os outros 92% ganham menos e estão focados em pagar dívidas”, explica. Ainda assim, ele pondera que o atual cenário econômico, com famílias e empresas endividadas, reduz o efeito positivo esperado pelo governo.
Do ponto de vista fiscal, a isenção também tem custo. A estimativa é que o governo deixe de arrecadar entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões ao ano. “Não é exatamente um déficit novo, mas uma receita que o governo abre mão de receber”, afirma Valfredo. Segundo ele, em um contexto de desequilíbrio fiscal e juros elevados, isso pode gerar pressão futura por novas fontes de arrecadação. “O governo tenta compensar com a taxação de rendas mais altas, como dividendos, mas na prática a arrecadação pode ficar abaixo do esperado”, analisa.
Análise
Apesar das críticas, o economista ressalta que o Imposto de Renda, em essência, é um dos tributos mais justos do sistema brasileiro. “O grande problema do Brasil não é o imposto de renda em si, mas o peso enorme dos impostos sobre consumo, que atingem ricos e pobres da mesma forma”, diz. Para ele, a reforma melhora a situação dos trabalhadores de menor renda, mas não resolve a desigualdade estrutural do sistema tributário.
Por fim, a redução do desconto também tende a tornar o trabalho com carteira assinada mais atrativo para o empregado. “Para o trabalhador, ficou muito melhor, porque sobra mais dinheiro no fim do mês e isso conta para aposentadoria, férias e 13º”, explica Valfredo. Para as empresas, no entanto, o custo de contratação permanece elevado. Ainda assim, a expectativa é que parte dos trabalhadores que recebiam valores “por fora” passe a formalizar a renda, aproveitando a isenção até R$ 5 mil e ampliando a proteção trabalhista e previdenciária.
