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Salário mínimo em 2026 garante café e carne, mas valor segue longe do ideal, aponta Dieese

Aumento de R$ 103 representa ganho real acima da inflação, mas alta de 45% no preço do café e custo da cesta básica em Belém consomem boa parte do reajuste.

Gabriel da Mota
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A partir de 2026, o trabalhador brasileiro terá R$ 103 a mais no contracheque. O novo salário mínimo, fixado em R$ 1.621, traz um reajuste de 6,79% e carrega a promessa de ganho real — aquele que supera a inflação oficial. No entanto, na "matemática da sobrevivência" feita nos corredores dos supermercados e nas feiras de Belém, esse dinheiro extra tem destino certo e curto: cobrir o encarecimento de itens básicos que pesam na mesa das famílias, como o café, o óleo e a carne.

Para entender o alcance desse reajuste, a reportagem ouviu o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA). A análise técnica revela um cenário de recuperação lenta. Se por um lado o trabalhador respira melhor do que nos anos de crise entre 2019 e 2022, por outro, ainda está distante de ter suas necessidades constitucionais plenamente atendidas.

Segundo Everson Costa, supervisor técnico do Dieese no Pará, o novo valor ajuda a recompor o orçamento, mas não resolve o abismo entre o salário oficial e o custo de vida real.

"Apesar de trazer ganho real, o valor ainda está distante do chamado 'salário mínimo necessário' previsto na Constituição Federal, que deveria garantir não apenas alimentação, mas também moradia, saúde, educação, transporte e lazer. Segundo estimativas nacionais do DIEESE, o mínimo necessário segue sendo mais de quatro vezes superior ao piso oficial", explica Costa.

image Everson Costa, supervisor técnico do Dieese-PA (Divulgação)

R$ 103 compram o quê?

Para quem vive com o piso nacional, cada centavo conta. O acréscimo de R$ 103 pode parecer pouco para alguns, mas é "oxigênio" para quem viu a inflação dos alimentos disparar. Dados do Dieese mostram que, em Belém, o café teve alta de 45% nos últimos 12 meses, seguido pelo óleo de soja (11,9%) e pela carne bovina (6,7%).

"Na prática, esse acréscimo mensal não garante uma cesta básica adicional, mas pode cobrir parte das despesas com proteínas ou itens como café, pão e óleo, que pesam fortemente no orçamento. O reajuste ajuda a recompor parcialmente o poder de compra, mas ainda é insuficiente para neutralizar totalmente a pressão inflacionária dos alimentos", detalha o supervisor do Dieese.

Em novembro de 2025, a cesta básica em Belém custava R$ 666,15. Isso significa que, mesmo com o aumento, um trabalhador compromete quase metade do salário líquido apenas para comer, sobrando pouco para as demais despesas da casa.

Impacto na economia local

Do ponto de vista macroeconômico, a injeção desses recursos promete aquecer o comércio local no curto prazo. O economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon-PA), Pablo Reis, avalia que o mercado já precificou esse aumento, mas alerta para os riscos de repasse aos preços.

"A diferença dos índices é referente às reposições de perdas dos períodos anteriores. O impacto na inflação é sempre um risco, mas as unidades produtivas tendem a se recompor rapidamente desse choque de demanda", analisa Reis.

Para o economista, embora exista uma barreira para a formalização de novos empregos devido ao aumento do custo da folha, o movimento é esperado pelo mercado. "O impacto no PIB ocorre no curto prazo, meses depois, quando os órgãos competentes já conseguem detectar a mudança no consumo e na circulação desse dinheiro", completa o conselheiro.

image Pablo Damasceno Reis, economista do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon-PA/AP) (Foto: Arquivo Pessoal)

Prefeituras

Um dos pontos de maior tensão em todo reajuste salarial é o impacto nas contas das prefeituras, grandes empregadoras de mão de obra com remuneração baseada no mínimo. Procurada pela reportagem para detalhar se os municípios paraenses suportarão o aumento da folha em 2026 sem cortes de serviços, a Federação das Associações de Municípios do Estado do Pará (Famep) informou que ainda não possui dados consolidados das prefeituras sobre o impacto específico do novo valor.

Apesar dos desafios fiscais e do custo de vida elevado, o saldo para 2026 aponta para uma melhora tímida, mas consistente. "O trabalhador hoje está em situação melhor do que há anos atrás. Em 2025, um salário mínimo permite adquirir cerca de 1,79 cesta básica, patamar superior aos anos de crise de 2021 e 2022. Houve melhora, mas a recuperação ainda é incompleta", conclui Everson Costa.

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Economia
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