Relojoeiros mantêm o tempo vivo em Belém aos 410 anos
Enquanto serviços simples, como a troca de bateria, custam a partir de R$ 30 e levam poucos minutos, revisões completas podem chegar a R$ 320 e demandar até 15 dias
O tic-tac quase não se escuta em meio ao barulho do comércio no centro de Belém, mas ele está lá. Discreto, constante, marcando o ritmo de uma profissão que atravessa séculos e chega aos 410 anos da capital paraense ainda com público fiel. Com séculos de tradição, o ofício da relojoaria resiste às transformações tecnológicas e segue presente no cotidiano da capital paraense. Enquanto serviços simples, como a troca de bateria, custam a partir de R$ 30 e levam poucos minutos, revisões completas podem chegar a R$ 320 e demandar até 15 dias. Em pequenas lojas, bancadas gastas pelo tempo e lupas apoiadas sobre o balcão, relojoeiros seguem desmontando, limpando e remontando mecanismos que carregam não só engrenagens, mas histórias.
A arte da relojoaria vive hoje um paradoxo. Enquanto a fabricação em larga escala de relógios está concentrada em grandes indústrias, muitas delas fora do país, cresce a procura por profissionais especializados em conserto e restauração. Relógios de pulso, bolso, parede, antigos ou modernos continuam chegando às mãos de quem sabe lidar com peças mínimas e paciência máxima. Segundo dados do Sebrae Pará, a demanda por esse tipo de serviço teve aumento de 75,63% nas buscas online entre 2020 e 2021. O ganho médio mensal da atividade gira em torno de R$ 3.480, valor que varia conforme a clientela e o volume de serviços.
TRADIÇÃO E MEMÓRIAS
Com 67 anos de idade e meio século de profissão, Gueber Elias é uma dessas pessoas que aprenderam a lidar com o tempo desde muito cedo. Ele começou aos 16 anos e atravessou diferentes fases da relojoaria. Viu a passagem dos relógios totalmente mecânicos para os modelos a bateria, acompanhou a chegada dos digitais e hoje convive com os smartwatches, que pouco ou nada dialogam com o conserto artesanal. Ainda assim, afirma que a procura se mantém. “Muitos ainda fazem questão de usar relógio. Tem pessoas que dormem com relógio, que tomam banho com relógio, não tiram o relógio para nada. Ainda tem esse tipo de gente que gosta, e graças a Deus por isso, que nós podemos sobreviver com esse tipo de serviço”, diz.
Na bancada de Gueber passam tanto relógios modernos quanto peças antigas, muitas delas de família, como um relógio pedestal com mais de cem anos. Há objetos que chegam carregados de afeto, lembranças de pais, avós ou pessoas queridas que já não estão mais ali. Para ele, essa relação emocional explica parte da sobrevivência do ofício. O dia a dia, no entanto, não é simples. Se antes havia abundância de peças no mercado, hoje a realidade é outra. Encontrar componentes de relógios antigos pode levar dias ou semanas, e nem sempre a solução é imediata. “Antigamente, quando tinha uma peça quebrada, tinha onde comprar e substituir facilmente. Agora não, existe mais dificuldade, mas nós conseguimos ainda alguma coisa. Demora, não é de uma noite para o dia. Mas a gente se esforça”, ressalta Gueber, explicando que é um trabalho que exige persistência e criatividade para adaptar o que existe ao que é possível fazer.
Alguns relógios que chegam à loja vêm de fora do Brasil. Há modelos fabricados na Alemanha e em outros países com forte tradição relojoeira, muitos deles antigos e com mecanismos que já não são produzidos. Em meio a essas memórias privadas, Gueber também fala dos relógios públicos de Belém, instalados em praças e espaços que, por décadas, ajudaram a marcar o tempo da cidade. Ele chegou a trabalhar na manutenção de um desses equipamentos e lembra quando eles tocavam todos os dias, nos horários de 6h, 12h e 18h, integrando a rotina urbana. No entanto, o relojoeiro diz que percebe uma negligência por parte do poder público no cuidado e manutenção dessas antiguidades como patrimônio histórico.
NOVAS GERAÇÕES
Enquanto Gueber representa a experiência, Ana Beatriz Fortes simboliza a continuidade. Aos 19 anos, ela trabalha na loja da família e cresceu cercada por relógios. O negócio atravessou gerações, passando do avô para o tio, depois para o pai, e hoje conta com a presença dela. Ana tem outros planos profissionais e sonha em abrir o próprio negócio na área de panificação, mas não pretende romper com a história familiar. Para ela, manter o legado também faz parte de quem é.
Carregar um sobrenome ligado à profissão, conta, não é simples. Existe uma expectativa de continuidade, de dedicação integral, que nem sempre é leve. Ainda assim, ela vê beleza no fato de toda a família estar conectada pelo mesmo ofício. Ana considera a relojoaria uma profissão bonita, mas pouco valorizada. A modernidade impõe desafios claros. Os relógios inteligentes funcionam como extensões do celular e não permitem o mesmo tipo de manutenção. A loja acaba focando nos modelos tradicionais, mecânicos ou a bateria, enquanto parte do mercado migra para produtos descartáveis.
Mesmo jovem, Ana entende a importância simbólica dessa atividade para Belém. Ao caminhar pela cidade, ela percebe a presença de relógios em praças antigas e espaços históricos, elementos que fazem parte da paisagem urbana e da memória coletiva. “Eu vejo que é muito importante para a nossa cidade carregar esse legado. Em todas as praças de antigamente tem relógio e eles não são bem cuidados. Hoje mesmo, pela Batista Campos e na própria Praça do Relógio, tem relógios lá aqui estão abandonados. Então é uma profissão que não é mais tão valorizada”. Ana reforça que preservar a relojoaria é também preservar um pedaço da identidade da capital paraense.
Outro profissional que ajuda a manter esse ofício vivo é Jhonatan Rodrigues, de 44 anos. Há 14 anos na profissão, ele entrou na relojoaria a partir de um convite de um amigo e foi se aperfeiçoando com o tempo. Hoje, atende diferentes tipos de relógio, tanto automáticos quanto a bateria, mas afirma que a maior parte da procura está nos serviços mais simples, como troca de bateria e pequenos ajustes.
Jhonatan observa que são poucas as pessoas interessadas em aprender o ofício atualmente. Ao longo dos anos, muitas tradições se perderam, e a relojoaria acabou ficando restrita a quem já estava no mercado. Ainda assim, ele acredita que é uma profissão rica em aprendizado, que ensina precisão, paciência e responsabilidade. “São poucas pessoas que querem continuar nesse ramo, mas é um ramo que tem um bom aprendizado de tudo que você leva para a sua vida. Nesses 410 anos que Belém vai completar, essa profissão tem muito a desenvolver ainda para as pessoas que querem aprender”, conclui.
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