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Preço de tecidos em Belém registra alta de 8,23% e supera inflação nacional

Levantamento do Dieese aponta que custo logístico e frete rodoviário encarecem produtos. Lojistas buscam novos fornecedores para manter competitividade.

Gabriel da Mota

O setor têxtil em Belém atravessa um período de forte pressão inflacionária, operando em uma realidade distinta do restante do país. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese/PA), os dados mais recentes do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) indicam que o item tecido registrou uma alta acumulada de 8,23% na capital paraense em 2025. O percentual é significativamente superior à média brasileira, que ficou em apenas 1,52% no mesmo período, evidenciando uma pressão inflacionária localizada que impacta toda a cadeia produtiva regional. Para enfrentar esse cenário, o comércio tradicional busca alternativas geográficas e de portfólio. 

Nelissa Marques, supervisora comercial de uma loja de tecidos localizada no bairro de Canudos, destaca que a sobrevivência do modelo de negócio depende de uma curadoria minuciosa. "A compra de tecido é bem variada. Buscamos fornecedores não só brasileiros como também de fora do Brasil, para ter uma demanda diferente de outras lojas. Fixamos firme na questão de variedades, trazendo tecidos da moda e de alta costura, mas também atendendo quem faz trabalho artesanal, como tricoline para bolsas", afirmou a supervisora, citando que a procura por itens sustentáveis e funcionais cresceu exponencialmente com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30).

image Nelissa Marques, supervisora de uma loja de tecidos localizada em Canudos (Wagner Santana / O Liberal)

Logística e o desafio do frete no Pará

A análise técnica do Dieese/PA reforça que o custo logístico é o principal motor dessa inflação. Everson Costa, supervisor técnico da entidade, explica que o Pará possui uma dependência crítica de mercadorias do Sul e Sudeste. "Adicione nesta formação de preços os fretes mais longos e os custos com transporte rodoviário e fluvial. O frete é o principal elemento de custo para essas lojas. Essa situação reduz a competitividade do comércio local frente a regiões com cadeias integradas", analisou o economista, ressaltando que, em Belém, a inflação do setor ignora a média geral da cidade.

Essa dificuldade logística é sentida no cronograma das lojas. Nelissa detalha que o transporte rodoviário leva, em média, 12 dias para completar o trajeto até a capital paraense.

"Tudo o que aumenta na inflação, como a gasolina, passa por toda uma demanda de frete e impostos, o que altera o valor até chegar ao cliente. Fazemos o possível para manter o padrão de qualidade com preço acessível, mas o custo operacional é um desafio diário", explicou.

Tradição e a força do atendimento presencial

O mercado de tecidos em Belém é um dos ramos mais antigos da economia urbana, mas que tenta se modernizar sem perder o "toque". Clarisse Silva, que gerencia o negócio fundado há nove anos no bairro de Canudos, com um know-how familiar de quatro décadas em Belém e Abaetetuba, acredita que o setor é resiliente. "O tecido é essencial. A gente veste roupa, dorme em uma colcha. Ele não deixa de existir; se transforma. Hoje, grandes lojas já vendem a roupa pronta, mas ainda temos um público nichado que prefere o toque e a confiança de fazer sua própria peça", observou a proprietária.

image Mercado de tecidos em Belém é um dos ramos mais antigos da economia urbana (Wagner Santana / O Liberal)

A diversidade do estoque reflete essa necessidade de adaptação. Enquanto o linho rústico é comercializado a R$ 20 o metro, o linho puro de alta qualidade chega a custar R$ 130, servindo de parâmetro para diferentes perfis de consumo. O tecido Oxford de 3 metros de largura é o "coringa" da casa, sendo o mais procurado para decoração de mesas e cortinas. Durante os preparativos para a COP 30, as tonalidades bege, areia e verde foram as campeãs de venda, consolidando a influência de grandes eventos no comportamento do consumidor belenense.

Carnaval e o impacto no emprego

Com a chegada do Carnaval, o ritmo nas oficinas de costura ganha nova intensidade. Luciana Assis, costureira autônoma, relata um aumento de 60% a 70% na demanda por customizações e reformas de abadás.

"Calculo a minha mão de obra pelo tempo. Vejo quantas horas vou levar e multiplico pelo valor da minha hora, fora os insumos que subiram muito. Minha rotina é de pesquisa presencial: vou em cada loja anotar preços para garantir que o custo da matéria-prima não inviabilize o meu lucro", revelou a costureira.

image Luciana Assis, 51, em seu ateliê no bairro de Val-de-Cães (Foto: Igor Mota | Arquivo O Liberal)

Entretanto, o Dieese/PA alerta para o impacto dessas pressões no mercado de trabalho. Embora o comércio geral tenha saldo positivo, o segmento de tecidos enfrenta a concorrência agressiva do comércio eletrônico e das lojas de departamento prontas. "O emprego nas lojas de tecidos sente esses efeitos. Certamente já tivemos uma empregabilidade maior nesse setor. A concorrência com o tecido chinês e a mudança de preferência da população para o 'pronto para vestir' dificultam a geração de novos postos", concluiu Costa.

O caminho do tecido até Belém

  • Principais origens: Brasil (SP, MS), China, Irlanda e Índia
  • Tempo de transporte: em média, 12 dias de viagem via caminhão
  • Inflação em 2025: 8,23% (Belém) vs 1,52% (Brasil)
  • Público: 70% feminino; forte presença de idosas

Fontes: Dieese/PA e profissionais ouvidas pela reportagem

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