O que não te contam sobre trabalhar com inteligência artificial
Especialistas analisam a relação entre IA, produtividade, carga horária e novas exigências de trabalho
A inteligência artificial entrou no cotidiano de trabalho prometendo agilidade, otimização e ganho de tempo. Em muitos casos, essas promessas se confirmam no nível técnico. Mas, na prática, o que se observa é um cenário mais complexo: a produtividade aumenta, enquanto a sensação de tempo livre não acompanha esse avanço.
Dados recentes ajudam a entender essa contradição. Uma pesquisa da AI Resume Builder, realizada em setembro de 2025 com quase 1.300 líderes empresariais, aponta que 24% das organizações já exigem o uso de IA em todos os cargos. Já um levantamento da Workday mostra que 85% dos trabalhadores dizem economizar entre uma e sete horas por semana com a tecnologia, mas relatam perder cerca de 40% desse tempo revisando, corrigindo ou refazendo materiais gerados pelas ferramentas.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com efeitos menos visíveis. Um estudo do MIT Media Lab, publicado em 2025 e conhecido como “Your Brain on ChatGPT”, introduz o conceito de “dívida cognitiva”, associando o uso frequente de IA a mudanças na conectividade cerebral e à possível redução do esforço cognitivo. O levantamento identificou diferenças significativas entre grupos que utilizaram IA e aqueles que recorreram apenas ao próprio raciocínio.
Nesse contexto, a discussão sobre o impacto da inteligência artificial no trabalho deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver decisões organizacionais, culturais e até políticas.
O paradoxo da produtividade e o que não aparece
Para o especialista em IA aplicada Emerson Guimarães, coordenador de TI do Hospital Beneficente Portuguesa do Pará, o principal ponto de tensão está na forma como os ganhos de eficiência são absorvidos pelas empresas.
“É da forma como está sendo incorporada. A tecnologia cumpre o que promete em termos técnicos: economiza tempo em tarefas específicas, acelera processos e automatiza as repetições que são realizadas no cotidiano. O problema é que esse tempo economizado raramente chega ao trabalhador como folga. Ele é imediatamente reabsorvido pela organização, vira mais entregas, mais reuniões, mais escopo, régua de qualidade mais alta e prazos reduzidos.”
Segundo ele, esse comportamento segue um padrão histórico já observado em outras tecnologias. Ferramentas que aumentam a eficiência acabam elevando também o nível de exigência, num movimento conhecido na economia como Efeito Rebote ou Paradoxo de Jevons.
“Esse efeito histórico é um dos padrões mais bem documentados da história da tecnologia. A historiadora Ruth Schwartz Cowan mostrou isso de forma definitiva com os eletrodomésticos: a máquina de lavar, o aspirador e a geladeira não reduziram o tempo de trabalho doméstico das mulheres ao longo do século XX, apenas elevaram o padrão de limpeza, de higiene e de apresentação esperado.”
No ambiente corporativo, isso se traduz em mais entregas no mesmo tempo e em uma mudança silenciosa no que passa a ser valorizado. A IA, segundo Guimarães, privilegia aquilo que pode ser mensurado, o que pode distorcer a percepção de produtividade.
“Esse talvez seja o risco mais silencioso e mais sério de todos. A IA é excelente naquilo que pode ser contado: número de e-mails respondidos, relatórios produzidos, linhas de código escritas, posts publicados, resumos de reunião. Ela não é excelente em julgamento maduro, discernimento ético, leitura de contexto, intuição construída ao longo de anos, a capacidade de perceber que a pergunta certa é outra.”
A professora e pesquisadora especialista em tecnologia Kalynka Cruz reforça que essa lógica cria uma espécie de métrica do “visível”, em que a IA tende a valorizar aquilo que é facilmente quantificável, deixando em segundo plano dimensões mais subjetivas do trabalho. Segundo ela, tarefas ligadas a julgamento, contexto e interpretação acabam sendo menos reconhecidas, mesmo sendo centrais para decisões mais complexas.
Esse deslocamento pode impactar tanto as decisões das empresas quanto a forma como os profissionais desenvolvem suas próprias habilidades. A chamada “dívida cognitiva”, apontada pelo estudo do MIT, entra justamente nesse debate ao sugerir que o uso excessivo da tecnologia pode reduzir o esforço mental necessário para tarefas mais complexas.
Além disso, Kalynka Cruz chama atenção para o que fica de fora dos sistemas. Em contextos como o do Sul Global, saberes tradicionais e experiências locais muitas vezes não estão presentes nos bancos de dados que alimentam a IA, o que limita a forma como essas realidades são representadas. “Os saberes dessas comunidades não estão no banco de dados, então a IA responde a partir do que foi dito sobre elas, não a partir delas”, resume.
RH entre produtividade e limites
Dentro das organizações, a incorporação da IA já altera a forma de definir metas, distribuir tarefas e avaliar desempenho. Para a administradora e especialista em Gestão de Pessoas Sandra Lopes, o destino dos ganhos de produtividade segue uma lógica previsível.
“A lógica econômica prevalece: se uma atividade ficou mais rápida com IA, a empresa tende a capturar esse ganho convertendo em mais volume, mais metas ou menor headcount, não em folga operacional.”
Esse movimento coloca o setor de Recursos Humanos no centro do debate. Mais do que implementar ferramentas, passa a ser responsabilidade da área criar mecanismos para evitar que a eficiência se transforme apenas em sobrecarga.
A psicóloga e administradora Auriana Rodrigues aponta que esse aumento de exigências já é percebido no cotidiano das empresas. “Na prática, o que se observa no mercado é que a inteligência artificial tem gerado mais aumento de exigências e metas do que, necessariamente, redução da carga de trabalho.”
Segundo ela, o desafio está em equilibrar produtividade e saúde mental, especialmente em um cenário em que riscos psicossociais passam a ser formalmente reconhecidos na gestão do trabalho. Isso implica revisar metas, preparar lideranças e construir formas de avaliação que considerem não apenas o volume de entrega, mas a sustentabilidade do desempenho ao longo do tempo.
Com a automação de tarefas operacionais, também muda o que se espera dos profissionais. Competências como pensamento crítico, capacidade de interpretação, adaptação e tomada de decisão ganham mais relevância, ao mesmo tempo em que o uso da própria IA passa a ser uma habilidade avaliada.
Entre a agilidade e a pressão no dia a dia
Para quem já utiliza inteligência artificial na rotina, os efeitos aparecem de forma concreta. O designer, filmmaker e editor de vídeo Berg Viana, de 27 anos, relata que a tecnologia trouxe ganhos claros em agilidade, especialmente em tarefas mais repetitivas.
“Uso a inteligência artificial na otimização de alguns processos, que antes eram mais burocráticos, mais lentos e menos eficazes. Por exemplo, na velocidade de conseguir um código para alguma ferramenta específica em uma edição ou para sintetizar ideias.”
Ao observar o impacto ao longo do tempo, no entanto, a percepção muda. “No dia a dia, percebo uma agilidade maior para fazer um processo que antes era engatado, mas, a médio e longo prazo, usando por mais tempo, parece que o volume de trabalho aumentou”, reflete.
Ele destaca que a IA facilita etapas do processo criativo e técnico, mas exige atenção para evitar resultados padronizados ou pouco autênticos. A ferramenta, segundo ele, funciona mais como apoio do que como solução completa. Outro ponto levantado por Berg é a relação com clientes, que nem sempre compreendem o papel real da tecnologia no processo de produção. A ideia de que a IA torna tudo mais fácil pode levar a expectativas irreais sobre prazos e esforço. “É um atalho para algum processo, mas não necessariamente para para resolução daquele problema”, reforça.
O designer, por fim, afirma que espera uma regulamentação maior para evitar usos indevidos da inteligência artificial. Na avaliação dele, o saldo é positivo, especialmente pela agilidade em tarefas que antes levavam horas e hoje podem ser resolvidas em segundos, mas faz a ressalva de que os benefícios dependem do uso consciente e crítico.
Entre ganhos de eficiência e aumento de exigências, a inteligência artificial vai se consolidando como uma ferramenta que reorganiza o trabalho mais do que o reduz. O tempo economizado existe, mas o destino dele ainda está em disputa.
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