Mais de 80% dos desempregados no Pará são negros

Em números absolutos, eles eram 328 mil dos 413 mil paraenses em busca de um trabalho

Thiago Vilarins e Redação Integrada

O desemprego, que segue em alta pelo Pará, atinge ainda mais a população negra. No primeiro trimestre deste ano, a cada dez pessoas que procuraram emprego, apenas duas eram da cor branca, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, os pretos e pardos (classificação usada pelo instituto) eram 80,8% dos desempregados no Estado. Em números absolutos, eles eram 328 mil dos 413 mil paraenses em busca de uma ocupação no mercado de trabalho.

Em igual período de 2014, antes de o País mergulhar na recessão econômica provocada pela recente crise político-econômica, eles correspondiam a 78,1%. Nessa mesma comparação, a participação dos brancos diminuiu de 21,2% para 19,2%.

Além disso, o total de desempregados no Estado quase dobrou nesse período. Passou de 278 mil, no primeiro trimestre de 2014, para 413 mil (+48,5%). A taxa de desemprego dos brancos no Estado foi de 11,8%, abaixo da média nacional (12,2%). Já a de pretos e pardos ficou acima: 12,5%. Em ambos os casos, houve crescimento em relação a 2014 (8,9% e 9,0% respectivamente) .

Segundo o IBGE, os pretos e pardos representavam 83,1% da população paraense fora da força de trabalho entre janeiro e março. Os brancos eram 16,1%. Em números, o Pará contabilizava no primeiro trimestre 6,43 milhões de pessoas em idade de trabalhar e 2,76 milhões estavam fora da força de trabalho. Destes, apenas 445 mil eram brancos.

Além de representar a maioria da massa sem oportunidade de espaço no mercado de trabalho paraense, a pesquisa revela que a população negra do Estado recebe bem menos que as pessoas brancas independente do nível de instrução.

Essa disparidade expõe a persistência da desigualdade racial no mercado de trabalho do Estado tanto nas ocupações formais quanto nas informais. Em média, os trabalhadores brancos recebem, mensalmente, por todos os seus rendimentos, R$ 2.222 - bem acima da média de todos os trabalhadores do Estado (R$ 1.581).

O abismo é ainda maior quando comparado ao valor médio do rendimento individual dos trabalhadores pretos e pardos. Quando consegue uma vaga no mercado, a população preta e parda do Estado recebe, em torno de 35% a menos. Segundo a pesquisa, os trabalhadores que se identificaram como pretos recebem em média R$ 1.507 por mês (-R$ 715 em relação aos brancos), enquanto os pardos, R$ 1.439 (-R$ 783).

Entre os 10% da população com os maiores rendimentos, apenas 27,7% eram pretos ou pardos. Por outro lado, os pretos ou pardos representavam 75,2% do grupo formado pelos 10% da população com os menores rendimentos.

Outro dado que reflete o racismo no mercado é que, além de ter pouca oportunidade e receber menos, a população não branca do Estado trabalha ligeiramente mais tempo. Em média, um paraense branco trabalha 37,4 horas por semana, enquanto a proporção para uma pessoa da cor preta é de 37,7 horas.

Desempregada sente na pele o racismo do mercado

Tuanny Salgado (Cláudio Pinheiro / O Liberal)

"Estou ciente das minhas dificuldades. Elas estão só começando". Este é o sentimento de Tuanny Salgado, de 22 anos, quando o assunto é a empregabilidade entre os negros no Pará. "Sou jovem, negra e da periferia. Conquistar a confiança de alguém que me empregue não deveria, mas é um desafio", aponta a Tuanny, desempregada há cinco meses, e com muita dificuldade de se realocar ao mercado.

Ela concluiu o ensino médio, mas ainda não conseguiu ingressar na faculdade - principal objetivo da jovem antes da pandemia. Natural de Belém, Tuanny já morou em Santa Catarina, onde trabalhou em um restaurante, mas é na capital paraense que ela tem seu maior refúgio: a família.  "Tenho uma proposta para trabalhar como babá, na França. Estou me programando para ir. Aqui, as oportunidades estão cada vez mais difíceis, com salários menores e trabalhos muitas vezes degradantes", afirma.   

Ela diz que perdeu as contas de quantas vezes já se sentiu discriminada. "Eu acho que se eu fosse branca seria tudo mais fácil. Participei de várias seletivas e nunca fiquei. Mas eu voltava lá pra ver quem garantiu a vaga, e a branquinha ocupava o lugar. Mesma idade e escolaridade, igualmente pouco experiente, mas com critérios que não sabemos ao certo", dispara, reforçando que a ela restavam "bicos", nada de carteira assinada.

Para Tuanny, o racismo escancarado nos últimos dias após a morte, nos Estados Unidos, de Jorge Floyd, um homem negro, desempregado e de 40 anos, e que causou uma onda de indignação pelo mundo também é evidente no Pará. "Precisamos gritar. Precisamos ir às ruas, para tentar conscientizar a sociedade de que somos igualmente humanos. Não acho que vá resolver, afinal, alguns aproveitam para se mostrar ainda mais babacas. Mas não é por isso que vamos silenciar. A luta tem que continuar", conclui.  

Economia
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