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Intervenções do BC expõem fragilidades de bancos digitais e reforçam alerta aos investidores;entenda

Economistas apontam falhas de gestão, governança e liquidez como causas centrais das liquidações e defendem diversificação como principal estratégia de proteção, mesmo com a cobertura do FGC.

Jéssica Nascimento
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Desde a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, ao menos seis instituições financeiras passaram por intervenções diretas do Banco Central. A mais recente ocorreu na última quarta-feira (21/01), com o Will Bank, que soma cerca de 12 milhões de clientes em todo o país. Apesar do impacto inicial da medida, a maior parte dos investidores deve ser ressarcida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre aplicações de até R$ 250 mil por CPF e por instituição. Valores acima desse limite, porém, entram em uma zona de incerteza, dependendo da capacidade de recuperação de recursos do banco liquidado.

Na avaliação dos economistas ouvidos pelo Grupo Liberal, a liquidação de instituições como o Banco Master e o Will Bank não está ligada ao número de clientes, mas a problemas estruturais recorrentes, como insolvência, gestão inadequada de riscos, falhas de governança e descumprimento de obrigações operacionais. Eles ressaltam que o Fundo Garantidor de Créditos protege o pequeno investidor, mas não elimina riscos, sobretudo para quem concentra recursos ou busca rentabilidades acima da média, e defendem a diversificação de aplicações como medida essencial diante da instabilidade no sistema financeiro.

Crise financeira, falhas de gestão e vínculos perigosos: os fatores da liquidação

Para o economista paraense Nélio Bordalo, conselheiro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), a intervenção não foi um fato isolado nem resultado de uma única decisão técnica, mas o desfecho de um processo de deterioração financeira e institucional.

Segundo Bordalo, a liquidação de bancos digitais como o Banco Master e o Will Bank decorre de uma combinação de fatores que se agravaram ao longo do tempo.

“A liquidação de instituições como o Banco Master e o Will Bank não decorreu de um único motivo isolado, mas de uma combinação de fatores financeiros, de governança e regulatórios que, ao se agravarem, tornaram a continuidade operacional inviável”, explica.

Entre os principais pontos, o economista destaca a insolvência econômica. “Ambos os bancos enfrentaram insolvência, ou seja, o valor de seus passivos superou persistentemente o valor de seus ativos, e a liquidez foi severamente comprimida”, afirma.

No caso do Will Bank, a situação se agravou ainda mais por problemas operacionais, como o descumprimento de obrigações com a operadora Mastercard, o que resultou na suspensão do uso dos cartões pelos clientes.

Outro elemento decisivo foi o vínculo entre as instituições. O Will Bank fazia parte do mesmo conglomerado controlado pelo Banco Master, o que ampliou a exposição aos problemas de capital e liquidez.

“Com a deterioração do Master, o Banco Central entendeu que não havia base financeira segura para manter o braço digital em operação”, avalia Bordalo.

Ele também aponta falhas estruturais de governança e um apetite elevado ao risco como motores da crise, impulsionados por crescimento acelerado e oferta de produtos com alta remuneração sem a devida cautela.

O que diferencia bancos digitais sólidos dos mais frágeis

Para o economista, a diferença entre um banco digital sólido e outro mais suscetível à intervenção do Banco Central está nos fundamentos financeiros e na qualidade da gestão.

“A solidez de um banco digital decorre de fundamentos econômicos e de governança que permitem manter a confiança dos depositantes e a estabilidade financeira da instituição”, resume.

Entre os fatores-chave estão a qualidade dos ativos e a gestão de liquidez. Instituições saudáveis mantêm reservas suficientes para enfrentar saídas inesperadas de recursos, enquanto liquidez apertada e ativos problemáticos aumentam o risco de insolvência. A governança também é central nesse processo.

“Bancos com estruturas robustas de governança corporativa, controles rígidos e transparência tendem a identificar problemas antes que se tornem crises”, diz Bordalo.

O cumprimento de normas operacionais e contratuais é outro sinal de alerta. Para ele, a incapacidade de honrar compromissos com redes de pagamento e parceiros de mercado pode acelerar a intervenção, como ocorreu no caso do Will Bank. Além disso, níveis adequados de capitalização e uma exposição controlada aos riscos de mercado são essenciais para absorver perdas e sustentar o crescimento.

Por fim, Bordalo ressalta o papel da confiança. “Quando a credibilidade de um banco é abalada por falhas operacionais ou boatos de insolvência, há risco de corrida bancária, o que pressiona a liquidez e pode antecipar uma intervenção”, afirma.

Em síntese, segundo o economista, “um banco digital robusto se apoia em fundamentos financeiros sólidos, governança eficaz e aderência estrita às normas do sistema financeiro”, pilares cuja ausência eleva o risco de colapso e de ação regulatória.

Número de clientes não garante solidez

O economista paraense André Cutrim, também conselheiro do Corecon PA/AP, avalia que o número elevado de clientes não deve ser confundido com segurança financeira.

Segundo Cutrim, ter uma base ampla de correntistas indica capacidade de expansão, mas não necessariamente saúde financeira.

“Ter muitos clientes, por si só, não é sinônimo de solidez financeira. Na prática, esse dado revela muito mais sobre a capacidade de expansão e alcance operacional, mas diz pouco acerca da saúde econômica da instituição”, afirma.

O economista ressalta que a segurança de um banco está relacionada a fatores estruturais.

“Do ponto de vista econômico, a segurança de uma instituição financeira depende de capitalização adequada, estrutura de funding, gestão de liquidez, qualidade da carteira de crédito e governança”, explica.

Ele destaca ainda que o crescimento acelerado, comum entre bancos digitais, pode ocultar problemas.

“Esse crescimento, quando acelerado, pode mascarar fragilidades estruturais, como aumento da inadimplência, incompatibilidade de prazos e dependência excessiva de funding volátil”, alerta.

Para Cutrim, as intervenções do Banco Central reforçam essa lógica.

“O risco bancário não é diluído pelo volume de correntistas, mas mitigado por capital, liquidez e supervisão eficaz, sendo o FGC um mecanismo de proteção ao pequeno investidor, que, contudo, não transforma escala em garantia de solvência”, completa.

Diversificação como estratégia de proteção

Diante de episódios recorrentes de liquidação, o economista recomenda cautela e diversificação por parte dos investidores. “A principal estratégia para reduzir riscos é não concentrar recursos em uma única instituição, produto ou tipo de ativo”, orienta.

Na prática, isso envolve distribuir aplicações entre diferentes bancos, respeitando os limites do FGC, além de variar prazos e classes de ativos.

“Combinar instrumentos de menor risco e maior liquidez, como títulos públicos, com aplicações privadas, como CDBs e fundos, distribuídos entre instituições diferentes, reduz a exposição a choques específicos”, explica.

Cutrim enfatiza que diversificar vai além da busca por rentabilidade.

“A diversificação reflete uma escolha racional diante da incerteza inerente ao sistema financeiro, funcionando como instrumento de prudência econômica”, afirma.

Por fim, o economista lembra que o risco é parte inevitável das decisões financeiras.

“Todos operamos sob condições de risco e incerteza, uma vez que o futuro é, por definição, desconhecido. Isso reforça a necessidade de escolhas prudentes e estratégias de proteção diante de eventos imprevistos”, conclui.

FGC protege o pequeno investidor, mas não elimina riscos

Segundo o economista paraense Genardo Oliveira, o FGC cumpre bem o papel de proteção ao investidor comum, mas não deve ser encarado como uma blindagem total.

“O Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e por instituição. Isso significa que pequenos investidores e correntistas, que geralmente mantêm valores abaixo desse limite, estão razoavelmente protegidos”, explica.

A cobertura do FGC inclui depósitos em conta corrente, poupança, CDBs, RDBs, letras de câmbio, letras hipotecárias e LCIs e LCAs emitidas por instituições associadas. Ainda assim, Oliveira ressalta limitações importantes.

“Quem possui valores acima de R$ 250 mil em uma única instituição pode não recuperar o excedente, dependendo da liquidação. Além disso, o ressarcimento não é imediato, pois há prazos para consolidação de dados e pagamento”, afirma.

Outro ponto de atenção é que nem todos os produtos financeiros estão protegidos. “Fundos de investimento, ações e debêntures não são cobertos pelo FGC”, reforça o economista. Para ele, a estratégia mais segura para investidores com maior volume de recursos é a diversificação.

“Investidores de maior porte precisam distribuir aplicações entre instituições diferentes para não ultrapassar o limite de cobertura.”

Rentabilidade fora da média e falhas operacionais acendem o alerta

Diante do avanço dos bancos digitais e do aumento da competição por clientes, Genardo Oliveira alerta para sinais que podem indicar fragilidade financeira antes de investir. Um dos principais, segundo ele, são as promessas de ganhos elevados.

“Campanhas de rentabilidade muito agressivas, com retornos acima da média do mercado, podem sinalizar fragilidade ou uma tentativa de captar recursos rapidamente”, diz.

O histórico da instituição também deve ser observado. Bancos digitais muito novos ou sem trajetória consolidada tendem a ser mais vulneráveis em momentos de crise. Problemas operacionais recorrentes, como atrasos em pagamentos, resgates travados ou falhas constantes nos aplicativos, também funcionam como sinais de alerta. “Esses problemas podem indicar estresse financeiro”, avalia.

A transparência é outro fator decisivo.

“Dificuldade em acessar informações sobre balanços, auditorias ou estrutura societária deve gerar cautela”, afirma Oliveira.

Ele acrescenta que instituições excessivamente dependentes de captação agressiva ou concentradas em um único produto ou nicho ficam mais expostas a mudanças regulatórias e oscilações de mercado.

Em síntese, o economista destaca que o FGC é uma importante rede de proteção, mas não substitui a análise cuidadosa do investidor. “O FGC dá segurança para pequenos investidores, mas não elimina riscos. Diversificar aplicações e desconfiar de promessas fora da realidade continua sendo fundamental”, conclui.

 

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