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Indústria e agro do Pará veem oportunidades com acordo Mercosul–UE

Tratado amplia acesso ao mercado europeu e traz desafios à produção local

Fabyo Cruz

O avanço do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia deve provocar impactos diretos na economia do Pará, estado com forte vocação exportadora e participação crescente no comércio internacional. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que mais de 5 mil produtos brasileiros terão o imposto de importação zerado no mercado europeu assim que o tratado entrar em vigor, ampliando de forma significativa o acesso de produtores e indústrias paraenses a um dos maiores blocos econômicos do mundo.

Atualmente, os acordos preferenciais e de livre comércio dos quais o Brasil participa cobrem cerca de 8% das importações mundiais de bens. Com a entrada em vigor do acordo com a União Europeia, esse percentual deve subir para 36%, considerando que o bloco europeu respondeu por 28% do comércio global em 2024. A mudança amplia o alcance internacional de produtos com presença relevante na pauta do Pará, como minérios, soja, carne, celulose e itens do agronegócio amazônico.

Em 2025, o Pará exportou cerca de US$ 4 bilhões para a União Europeia, crescimento de 10,84% em relação ao ano anterior. O desempenho coloca o estado na quarta posição entre os maiores exportadores brasileiros para o bloco, com 8,04% de participação nas vendas nacionais destinadas ao mercado europeu. A expectativa do setor produtivo é que a redução de tarifas fortaleça esse fluxo comercial ao longo dos próximos anos.

Pelo acordo, a abertura será gradual do lado do Mercosul. Segundo a CNI, o Brasil terá prazos entre 10 e 15 anos para reduzir tarifas de 44,1% dos produtos negociados, o equivalente a cerca de 4,4 mil itens. O objetivo é garantir uma transição previsível, permitindo que setores mais sensíveis se adaptem à concorrência externa, enquanto segmentos mais competitivos ampliam sua inserção internacional.

Pressões e oportunidades no agronegócio

No agronegócio, o diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, avalia que o tratado trará impactos distintos para a produção regional. “O mercado é sempre atingido por qualquer dessas restrições. Então o mercado paraense, o mercado do Norte do país, vai ter uma pressão, e essa pressão do mercado europeu é muito grande”, afirma.

Minssen chama atenção para o alto nível de subsídios concedidos à produção agrícola europeia, que pode afetar cadeias produtivas locais. “Eles têm produtos que, se entrarem no nosso mercado, entram porque o subsídio deles é muito grande, principalmente o leite em pó, que pode trazer sérios prejuízos na indústria”, destaca.

Por outro lado, o dirigente ressalta a competitividade do Pará em segmentos estratégicos. “O Pará é extremamente competente e produz muito barato toda a proteína animal através de bovinos, bubalinos. Também a nossa exportação é muito importante de peixe”, observa.

De acordo com Minssen, frutas tropicais e produtos amazônicos têm forte potencial no mercado europeu. “Nossas frutas tropicais, como o açaí e o cacau, entram muito bem lá. É exigido hoje no mercado deles, e nós temos preços muito competitivos. Nós somos competitivos, temos mais qualidade e muita quantidade pra exportar pra eles”, acrescenta.

Indústria aposta em competitividade e valor agregado

Na indústria, a avaliação é de que o acordo amplia a competitividade dos produtos paraenses, especialmente nos setores de mineração, agronegócio e agroindústria. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), Alex Carvalho, minérios, soja e ferro-níquel estão entre os itens com maior potencial de ganho, mas a tendência é de diversificação da pauta exportadora.

“A redução tarifária amplia a competitividade dos produtos paraenses no mercado europeu e cria espaço para bens com maior valor agregado”, avalia. Carvalho reconhece que a entrada de manufaturados europeus com menos impostos pode pressionar setores menos competitivos, mas afirma que o risco é mitigado pelo perfil da indústria local. “A indústria paraense ainda tem baixa exposição à concorrência direta com bens finais produzidos na Europa. Mais do que uma ameaça, o acordo pode funcionar como um indutor de modernização”, afirma.

Cacau, chocolate e identidade amazônica

Um dos exemplos citados é a cadeia do cacau e do chocolate. “O Pará é o maior produtor de cacau do Brasil e vem consolidando uma indústria local de chocolates finos. Com o acordo, produtos europeus tendem a chegar mais baratos ao mercado brasileiro, aumentando a competição. Por outro lado, abre-se a possibilidade de o chocolate paraense, com identidade amazônica, rastreabilidade e apelo socioambiental, acessar o mercado europeu com menos barreiras”, destaca o presidente da Fiepa.

Tecnologia e modernização industrial

Outro efeito esperado é a redução de tarifas para bens de capital, como máquinas e equipamentos. Em 2025, o Pará importou da União Europeia insumos industriais, produtos químicos e itens essenciais para a mineração e a indústria de transformação. Com custos menores para aquisição de tecnologia europeia, a expectativa é de ganhos em eficiência produtiva, modernização de processos e até melhorias ambientais.

“Além do minério, outros produtos da pauta paraense podem ganhar competitividade com a abertura do mercado europeu. Carne certificada; soja, que cresceu 28% nas exportações para a UE entre 2024 e 2025; e açaí podem se destacar entre os segmentos com maior potencial de expansão”, explica Carvalho.

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