El Niño pode intensificar seca e aumentar perdas na agricultura do Pará nos próximos meses
Pesquisadora da Embrapa, Lucietta Martorano, alerta para redução das chuvas, altas temperaturas e impactos na produção de alimentos
A previsão de um El Niño mais intenso nos próximos meses acende um alerta para a agricultura do Pará, com possibilidade de redução das chuvas, aumento das temperaturas, perdas na produção e impactos sobre o preço dos alimentos. Segundo a pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Lucietta Martorano, o Oeste do Estado está entre as regiões mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno, que também pode elevar o risco de queimadas e afetar comunidades que dependem dos rios e da agricultura familiar.
A pesquisadora explica que a falta de água no solo pode comprometer culturas anuais e perenes, especialmente entre produtores que não dispõem de sistemas de irrigação. Além da redução da produtividade, o cenário pode afetar a oferta de alimentos como mandioca, açaí e frutas, pressionando os preços e aumentando a vulnerabilidade de agricultores familiares.
Quais são os principais riscos provocados pelo El Niño na agricultura? O esse impacto pode depender da intensidade do fenômeno também nesse ano?
O El Niño aquece a temperatura no Oceano Pacífico. E aquela temperatura, o que ela faz? Aquecendo a temperatura do oceano, a água começa o quê? Evaporar. Aqueceu, evapora, começa a evaporar. O que acontece na circulação da atmosfera? Existe um bloqueio em que parte dessa água que saiu dos corpos hídricos vai embora para o Sul. Então, a gente está vendo muita chuva no Sul do Brasil e, na nossa região, na Amazônia, principalmente no Oeste do Pará, a gente tem o efeito do fenômeno muito pronunciado.
Então, isso ocorre igual? Não ocorre. Recentemente, eu estou terminando um artigo que submeti para uma revista, em que mostro exatamente as áreas que são quatro áreas diferenciadas no Estado do Pará que sofrem esses efeitos.
Por que isso nos preocupa? Por exemplo, porque aumenta a seca, não tem chuva, aumenta a predisposição para as folhas caírem. Não tem água no solo, as folhas caem, aumenta o risco de incêndios, de queimadas. Qualquer faísca pode provocar queimadas.
Por exemplo, nós lembramos o que ocorreu em 2023 para o início de 2024. Aquele El Niño foi um El Niño forte. Temos 90% de chance de que ele seja um evento forte neste ano e 69% de chance de que ele se intensifique entre setembro, outubro e novembro. O que acontece? Muito mais efeito de queimadas, muito mais deficiência de água no solo. As culturas não vão ter água, não vão produzir.
Quais os impactos para a rotina dos agricultores?
Acontece, em muitos anos, de ele ficar sem ter o que comer e vir para os bolsões de pobreza nos grandes centros urbanos. Então, é uma preocupação. A outra preocupação é que muita fuligem na atmosfera vai trazer problemas pulmonares, problemas na parte aérea, com muito material particulado. Os nossos rios vão secar. Outro problema é o aumento da temperatura, uma temperatura muito elevada. Nós estamos praticamente na linha do Equador. O Oeste do Pará, principalmente, é o mais castigado.
É o que vai sofrer. Por quê? Porque nós temos o Nordeste Paraense, essa região que sofre o efeito que vem do oceano. Essa circulação ameniza esse processo. Mas, para quem não tem isso, começam as secas severas, e a gente tem o risco de um El Niño muito forte, com muito maior vulnerabilidade, principalmente para as populações tradicionais e para as populações indígenas muito afastadas, porque os rios vão secar. Esses são os problemas com os quais a gente tem que se preocupar muito.
Quais culturas produzidas no Pará tendem a ser mais sensíveis a essas mudanças climáticas e a todas essas consequências do El Niño?
O agricultor de grande porte, o que acontece quando falta água no solo? Ele irriga. Ele recorre a um sistema de irrigação. Se tem essa estratégia, aciona rapidamente esse recurso e não sofre tanto com a falta de água.
Mas, se não tem essa estratégia de irrigação, o que vai acontecer? A cultura que está no campo e que ele estava esperando colher pode ter problemas. Estamos no início de setembro e, por exemplo, o milho, que é cultivado após a soja, pode estar no período de granação. Se faltar água nessa fase, o grão não se desenvolve adequadamente, e ele pode perder uma safra que tinha tudo para ser muito boa, com condições favoráveis de chuva.”
O agricultor de base familiar, que tem uma contribuição expressiva para a agricultura, não vai ter essa estratégia de irrigação. Então, ele pode perder praticamente toda a produção.
A gente sabe que até o cacau, durante a seca de de El Nino anteriores, houve muitas perdas. Em Uruará, naquela região, quem não tinha como irrigar teve muitas perdas no cultivo do cacau. Imagine a pessoa plantar e chegar o momento da safra, depois de três ou quatro anos, para colher citrus, e não ter irrigação. Ela vai sofrer.
A nossa preocupação é que estamos acostumados com muita chuva. A nossa floresta é exuberante quando tem muita oferta pluvial. Quando essa oferta diminui, ocorre queimada, porque é uma estratégia da planta. As plantas fecham os estômatos, reduzem a capacidade de evapotranspirar e eliminam algumas folhas mais antigas. Então, há muita queda de folhas e aumenta o risco de incêndios.
Nós temos, portanto, o efeito na floresta e o efeito na agricultura. Se não houver irrigação, as espécies perenes também vão sofrer. E o agricultor de base familiar que não tem essa estratégia rápida é o que mais vai sofrer. E muita da comida que chega à nossa mesa vem da agricultura familiar.
O esperado é que este El Niño seja mais intenso do que o do ano passado e que provoque uma seca mais severa?
Nós tivemos, em 2023 e 2024, um El Niño forte. Sessenta e nove por cento dos modelos estão apontando que, no período de setembro, outubro, novembro e dezembro, ele será muito mais forte do que aquele que a gente já viveu.
Sessenta e nove por cento representa um nível elevado de confiabilidade dos modelos, que apontam para a possibilidade de esses fenômenos serem mais intensos. Quando observamos a temperatura do Oceano Pacífico, a média semanal, na semana passada, já estava em 1,8 grau. Quase 2 graus é muita coisa, principalmente porque estamos falando de uma média.
Dois graus a mais na temperatura que já temos é muito preocupante para a nossa região, porque temos pouca amplitude térmica. A temperatura quase não varia. Se essa variação ocorrer, teremos temperaturas severas, e o problema será muito sério.
Os impactos econômicos também podem ser sentidos diretamente na agricultura, em razão das consequências negativas para a produção agrícola do Estado?
Vou relembrar um dado real. No El Niño de 2015, que foi um El Niño forte, a queda do PIB, o Produto Interno Bruto, foi semelhante à queda registrada durante a covid-19. E a gente sabe o que foi a Covid-19. Então, uma situação agravada por uma seca severa. A nossa região sempre tem muita oferta de chuva. Quem está em Belém não pode imaginar, por exemplo, como é essa pecuária aqui perto da cidade.
Eu tenho uma pesquisa que fiz em 2017, um trabalho publicado, mostrando que, em ano de El Niño, em agosto, o solo já estava com déficit hídrico. Ou seja, em setembro, já não havia mais pasto para o gado, havia menos proteína disponível para os animais. O gado passa a consumir apenas palhada, o que aumenta a emissão de gases de efeito estufa. Então, é toda uma preocupação.
Sem alimento para o gado, aumenta a emissão de gases de efeito estufa, que são importantes nas análises relacionadas às mudanças climáticas. Essa é uma preocupação para nós, porque também seremos monitorados por essa variável.
Além da irrigação, quais são as outras estratégias que os produtores e agricultores podem adotar para se antecipar a esse fenômeno e reduzir os impactos dessas consequências?
Neste ano, as pessoas já começaram a emitir alertas com antecedência sobre o super El Niño. Quem acreditou não colocou a semente no campo, porque, se colocou, vai perder. A estratégia é se planejar e tomar a decisão de não plantar ou, se for uma cultura anual, antecipar o plantio.
O agricultor que tem uma cultura perene precisa providenciar uma estratégia de irrigação. Ele também pode mudar o calendário a que estava acostumado, ajustando o calendário agrícola para uma cultura anual. Para uma cultura perene já instalada, é preciso montar uma estratégia para fornecer água. Mas nós temos que pensar também na pegada hídrica dessa irrigação. Quanta água vamos utilizar justamente no momento em que não temos água disponível?
E para quem já está com a produção em andamento, quais sinais podem indicar ao produtor que a lavoura já está sofrendo com esse potencial estresse climático?
Se ele puder antecipar a colheita, deve fazê-lo. Se estiver com uma cultura que esteja entrando em floração, por exemplo, como no caso do milho que citei, é preciso atenção. Durante o período de floração, predominantemente, as espécies não podem passar por estresse hídrico. Se a planta estiver nesse período, a perda de produção e produtividade será gigantesca. Não há mais uma estratégia. Ele já plantou. Se não seguiu as informações dos alertas sobre esse super El Niño e plantou, ele vai perder.
Também existe a preocupação de que o El Niño afete não apenas a produção, mas também o preço dos alimentos?
Se diminui a oferta e aumenta a procura, mas não há oferta suficiente, o valor aumenta. Se não há oferta do produto, será necessário, por exemplo, importar de outros locais e, com certeza, haverá aumento dos preços.
Como exemplo, temos o nosso projeto da Embrapa, o IrrigaPote. Lá onde colocaram limão, em Capitão Poço, durante o período seco do El Niño de 2023 para 2024, eles venderam a saca pelo dobro do preço, porque tinham limão e os outros produtores não tinham. Então, eles ganharam mais.
Uma produtora, lá em Santarém, quando tem seca, quase ninguém tem acerola. Ela tem acerola e vende porque tem água com o IrrigaPote. Essas são estratégias do produtor de base familiar.
Para os produtores de maior escala, se não houver irrigação, com certeza haverá perda de produção, porque, sem água no solo, a planta não vai expressar seu potencial produtivo. E a comida na mesa vai faltar. A nossa farinha, o nosso açaí nas comunidades, o açaí das comunidades, dos açaizais nativos... Os açaizais cultivados são uma outra estratégia, mas os nossos açaizais nativos não vão produzir.
A nossa farinha vai aumentar de preço, porque a nossa mandioca não vai ter água suficiente para produzir o tubérculo e garantir a produção de farinha. Como ela vai produzir o tubérculo? Não tem água no solo. Então, tudo isso afeta a produção.
Como a Embrapa trabalha junto aos produtores? Quais tipos de ações e recomendações são oferecidos e como funciona esse apoio?
Nós temos o Zoneamento de Risco Climático, o ZARC, por meio do qual a Embrapa já orienta os agricultores. O agricultor geralmente recebe financiamento para custear a safra. Então, a Embrapa, com o ZARC, reduziu muitas perdas na agricultura, inclusive perdas consideráveis relacionadas ao seguro agrícola.
É uma estratégia de orientação e de tomada de decisão. O ZARC é uma excelente ferramenta para a tomada de decisão e é um produto da Embrapa, que conta com um grupo que trabalha com essa orientação ao produtor. Considerando que se trabalha com risco, já está considerando as variáveis que poderão, naquele ano, influenciar a agricultura.
O El Niño pode se estender? Nesse caso, como as pessoas podem lidar com isso, especialmente o produtor e as pessoas do campo que dependem da plantação?
Geralmente, o El Niño vai se estender, dependendo das condições. Ele vai pegar esta nossa estação e a próxima. Então, as chuvas que começariam em meados de dezembro, quando a Zona de Convergência entra na Amazônia, vão se retardar. Ela não vai entrar no período esperado. Então, os agricultores vão ter que mudar a estratégia de cultivo, porque não vão ter aquela chuva com a qual estavam acostumados a planejar e produzir.
Outra coisa que também é preocupante é o aumento da temperatura. E muitas espécies que estavam adormecidas no solo eclodem. Por exemplo, pode haver aumento de cigarras, gafanhotos e outros insetos. Isso pode provocar muitos problemas em função do aumento da temperatura, porque é como se houvesse uma mudança de chave em todo o processo que estava praticamente equilibrado. E que estava em uma condição que a gente já conhece, uma condição média da atmosfera, mas aí mudou. Então, as coisas começam a preocupar, inclusive em relação à nossa saúde.
Podemos ter problemas de saúde respiratória e outros problemas, como a dengue. Com a água empoçada, aquelas poças podem se tornar criadouros do mosquito e aumentar os casos de dengue. E, no Pará, podemos ter também casos de dengue hemorrágica. Então, esses alertas precisam chegar à sociedade. O que temos hoje é que a informação chega mais rapidamente à população. As pessoas usam o celular e conseguem ter acesso às informações. Antes, essa informação poderia até existir, mas não chegava à sociedade.
E a nossa função, como pesquisadores na área de agrometeorologia, climatologia e meio ambiente, é orientar a população com base nas nossas pesquisas. O Pará não é igual em todo o território. O Oeste paraense, com 31%, tem uma probabilidade muito maior de sofrer esses efeitos do que a região mais ao sul do Pará, que tem 14%. O El Niño não produz os mesmos efeitos em todo o Estado do Pará. Esses fenômenos climáticos, como El Niño e La Niña, não vão atuar da mesma forma em todas as regiões do Estado.
E quais as recomendações para a sociedade?
Eu gostaria de pedir à população que considerasse mais a ciência, que se preocupasse mais com as informações científicas e realmente se preparasse. Se usar a informação correta, vai se preparar para não ser pega de surpresa.
Eu também pediria à nossa população que não queimasse lixo, que acabasse com esse hábito de queimar lixo à tarde. Não queimasse, porque qualquer faísca poderá provocar um incêndio de proporções muito maiores.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA