Mercado de antiguidades segue forte em Belém

Peças refletem passado da cidade e atraem apreciadores da arte

Eduardo Laviano

O mercado de vendas de antiguidades, assim como o comércio de artes em geral, sofreu com a pandemia de covid-19. O relatório da Art Basel afirma que, só em 2020, a queda nas vendas chegou a 22% em todo o mundo. Marcus Elgrably comanda uma loja de antiquário em Belém desde 2006 e conta que o momento foi difícil, mas também trouxe renovação para o empreendimento

"Foi um momento de transformação. Percebi que outras pessoas também estavam passando pela mesma situação e queriam uma válvula de escape. Resolvi inovar com novas formas de venda por meio da internet e aplicativos. O que foi um teste, um momento na vida, passou a ser uma nova diretriz de como conduzir as vendas", conta ele. 

Elgrably foi criado no meio das antiguidades e desde cedo pegou gosto pelas obras de arte do segmento, que compreendem desde mesas e quadros até vasos e louças. A loja dele, na rua 28 de setembro, é uma viagem no tempo que guarda diversos segredos e histórias. Boa parte do trabalho dele é feito por meio de consignação, com famílias da capital paraense que o procuram para por peças à venda tanto em leilão como na própria loja. Ele também é responsável pela avaliação real do produto do mercado, que nem sempre condiz com a importância afetiva que o dono atribui ao objeto. 

"Procuramos selecionar principalmente peças que não precisem de restauro, como porcelanas, cristais, bronzes e outros. Porém, na parte de mobiliário, sempre tem que fazer alguma coisa, seja no polimento, limpeza e outros. Mas o objetivo é sempre manter o original da peça", diz.

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Segundo o empreendedor, Belém é uma das poucas capitais do país que ainda tem o hábito de se fazer leilões e de pessoas frequentando lojas de antiguidades. Ele conta que o interesse por antiquário vem se difundindo por outras cidades do estado por conta da internet, já que ele tem clientes em Marabá, Tucuruí, Santarém e Castanhal, por exemplo. "Talvez seja pela memória afetiva, pelo gosto refinado que o paraense tem. Outro motivo foi a expansão imobiliária no estado. Em um certo momento percebemos que mesmo as pessoas que não curtem ou não tinham o hábito de ter peças antigas mudaram de casa e incorporaram alguma peça antiga na nova decoração, seja um lustre, uma mesa ou poltronas", aponta. 

O destaque nas vendas são as peças do estilo art nouveau, bastante apreciado entre os anos 1890 e 1920 e do qual Belém foi um grande palco devido ao ciclo da borracha. Segundo Marcus, as pessoas guardam na memória afetiva lembranças de pais e avós de uma época de apogeu e de grandes conquistas da cidade. E esses objetos fazem parte dessa história. Já o perfil de clientes é variado, mas quase sempre acima dos 30 anos. 

"O gosto por obras de arte independe da situação financeira ou grau de escolaridade. Percebemos o quanto o bonito agrada aos olhos de quem vê. É uma visão subjetiva, única e intuitiva. Hoje dentro da loja temos peças para os mais variados estilos e gosto", lembra ele, ao sublinhar que hoje em dias os clientes não são mais grandes colecionadores voltados para um único tema ou estilo, e sim apreciadores de arte. Além disso, muitos compradores entendem que, no futuro, o valor agregado de uma peça pode aumentar, o que torna as compras um investimento. 

Memória da cidade cravada nas antiguidades

Para o historiador Aldrin Figueiredo, os objetos de antiquário estão diretamente ligados à memória da cidade. Ele lembra que é comum encontrar santos, brasões e nomes importantes da história do estado nas peças. "Você vai encontrar obras assinadas por Theodoro Braga, Antonieta Feio, Artur Frazão e diversos pintores e escultores. Além de objetos de uma determinada classe e gosto, como o estilo neomanuelino, em cristaleiras, móveis escuros que chamamos de tremidos e torcidos, com colunas salomônicas. É de um gosto tradicional aqui em Belém. É uma janela de compreensão e testemunhos do passado. São fontes históricas para a investigação, leitura e compreensão", diz. 

Ele argumenta que apesar de não ser tão grande, o segmento é antigo e contínuo em Belém. O Pará tem leilões desde o século XVII, mas a prática ganhou força no século XIX, com ofertas diárias registradas na imprensa local. O gosto por antiquário o fez ganhar novos amigos e, na opinião dele, o segmento atrai várias gerações. Além disso, a usabilidade das antiguidades convidam a sociedade para uma reflexão sobre consumo e sustentabilidade. 

"Me interessei pelo tema por conta da minha área de atuação e por que comprei uma casa antiga e acabei restaurando a casa. A relação com os objetos antigos acabou sendo meio que automática. Comecei a decorar a casa e partir para uma lógica de reaproveitamento. Os objetos estão aí para serem usados. Desenvolvi uma cultura de requalificar e reutilizar esses objetos antigos. Na minha casa, muitas louças e talheres, coisas da cozinha e da casa, são antigas. A sociedade produz muito material. E qual o destino dele? Simplesmente guardar? Esses materiais são duráveis, bonitos e podem ser reutilizados", aconselha. 

Economia
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