Construção civil e indústria fecham 591 vagas em 2026 no Pará, apesar de avanços em alguns segmentos
Saldo negativo no início do ano reflete ajuste sazonal, concentração produtiva e perda na indústria de transformação e serviços da construção, enquanto mineração sustenta empregos mais estáveis e diversificação ainda não compensa oscilações
Os dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam um cenário de retração no mercado formal de trabalho em 2026 no Pará, especialmente nos setores da construção civil e da indústria. Juntos, ambos fecharam 591 postos de trabalho neste ano.
Na construção civil, o saldo total foi negativo em 337 postos de trabalho, resultado de 6.025 admissões contra 6.362 desligamentos. Apesar do desempenho geral desfavorável, alguns segmentos apresentaram crescimento. É o caso da construção de edifícios, que registrou saldo positivo de 211 vagas, com 2.120 contratações e 1.909 demissões. A incorporação de empreendimentos imobiliários também teve resultado positivo, com 18 novos postos.
Por outro lado, áreas importantes da construção contribuíram para o saldo negativo. As obras de infraestrutura tiveram leve retração, com perda de 58 vagas. Dentro desse grupo, a construção de rodovias, ferrovias e obras urbanas apresentou uma das maiores quedas, com saldo negativo de 194 empregos. Em contrapartida, obras de infraestrutura ligadas à energia, telecomunicações, água e esgoto registraram saldo positivo de 63 vagas.
O segmento de serviços especializados para construção foi o principal responsável pela queda no setor, com perda de 490 postos. Destaque negativo para demolição e preparação de terreno, que fechou 408 vagas. Já as atividades de acabamento tiveram leve alta, com saldo positivo de 2 empregos.
Na indústria, o cenário também foi de retração. O setor geral apresentou saldo negativo de 254 vagas, com 5.599 admissões e 5.883 desligamentos. A indústria de transformação foi a mais impactada, com perda de 466 postos de trabalho. Os segmentos de água, esgoto e gestão de resíduos (-31 vagas) e eletricidade e gás (-4 vagas) também registraram resultados negativos.
Em contrapartida, as indústrias extrativistas se destacaram positivamente, com saldo de 247 novos empregos, amenizando parcialmente as perdas do setor industrial.
Sazonalidade e fragilidade estrutural ainda limitam diversificação
A leitura desses dados, no entanto, exige cautela. Segundo o economista paraense Nélio Bordalo, membro do Corecon-PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), o desempenho negativo recente não pode ser analisado de forma isolada.
“O saldo negativo recente precisa ser interpretado com cautela. O próprio Novo Caged mostra que o início do ano costuma ter ajuste sazonal mais forte em indústria e construção, inclusive no Brasil como um todo”, afirma.
Ele ressalta que o mais relevante é observar a consistência ao longo do tempo. “O ponto central não é apenas o resultado pontual de um mês ou do primeiro bimestre, mas a consistência estrutural do processo”, explica.
De acordo com o economista, há avanços no processo de diversificação produtiva no estado, especialmente com o crescimento de cadeias ligadas à agroindústria, bioeconomia e atividades associadas à mineração. Ainda assim, esses avanços não são suficientes para sustentar o mercado de trabalho diante de oscilações.
“Há sinais reais de diversificação, mas ela ainda não tem densidade suficiente para compensar oscilações da indústria de transformação tradicional”, diz.
Bordalo destaca que a estrutura produtiva do Pará ainda é concentrada. “Quando um segmento industrial reduz vagas, o impacto ainda é imediato sobre o saldo total, o que mostra que a estrutura produtiva continua concentrada e pouco integrada”, pontua. Para ele, o diagnóstico é claro:
“O processo de diversificação industrial no Pará existe, mas ainda é insuficiente para alterar o padrão estrutural da economia paraense no curto prazo”.
Mineração ainda lidera empregos mais estáveis e qualificados
Mesmo com o crescimento de novos segmentos, a mineração segue como principal eixo de geração de empregos de maior qualidade no estado. Segundo Bordalo, ainda há uma diferença significativa entre os setores. “O que os dados indicam é uma diferença clara de escala e de qualidade média do emprego”, afirma.
Ele observa que os postos mais técnicos e bem remunerados continuam concentrados nas atividades ligadas ao setor mineral. “A mineração continua sendo o setor com maior estabilidade e maior qualificação média”, destaca.
Já os setores emergentes, como alimentos, agroindústria e bioeconomia, apesar de relevantes para a diversificação econômica, ainda enfrentam limitações estruturais importantes.
“Eles geram empregos em menor escala por unidade de investimento, têm maior rotatividade e concentram salários médios mais baixos”, explica.
Bordalo reforça que esses segmentos são estratégicos no médio prazo, mas ainda estão em consolidação. “Eles ajudam a diversificar a base econômica, mas ainda não substituem a mineração como principal geradora de emprego qualificado no estado”, conclui.
Pará fecha 2025 com alta no emprego puxada pela indústria, enquanto construção civil registra queda
O estado do Pará encerrou o ano de 2025 com saldo positivo de 35.955 empregos formais, segundo dados do Caged analisados pelo Dieese/PA (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). O resultado decorre de 517.930 admissões frente a 481.975 desligamentos, representando crescimento de 3,64% no estoque de vínculos formais. Apesar do desempenho geral favorável, os números revelam contrastes importantes entre os setores, especialmente na indústria e na construção civil.
A indústria foi um dos destaques na geração de empregos, com saldo positivo de 9.201 postos de trabalho, respondendo por 25,6% do total gerado no estado. Dentro do setor, a indústria de transformação liderou a criação de vagas, com 6.531 novos empregos, seguida pela indústria extrativa mineral, que registrou saldo de 1.524 postos.
Em contrapartida, a construção civil apresentou desempenho negativo em 2025, com fechamento de 4.126 vagas, o equivalente a -11,5% do saldo total. O resultado indica retração no setor, mesmo diante do crescimento global do emprego no estado, e reforça à sensibilidade às oscilações da atividade econômica e dos investimentos.
A análise também evidencia diferenças significativas na qualidade dos empregos gerados. Enquanto a indústria, de forma geral, apresenta tempo médio de permanência de 21,5 meses, a indústria extrativa mineral se destaca com média de 51 meses — mais que o dobro de diversos setores. Já a construção civil registra um dos menores tempos médios, com 12,8 meses, evidenciando alta rotatividade.
Segundo o supervisor técnico do Dieese/PA, Everson Costa, esse dado revela aspectos estruturais importantes do mercado de trabalho paraense.
“Esse dado revela que a mineração oferece empregos com maior estabilidade, menor rotatividade e maior potencial de construção de carreira”, afirma. Ele destaca ainda que esse padrão está associado a ocupações mais qualificadas e melhor remuneradas.
Para o especialista, o impacto da mineração vai além dos números diretos de emprego. “Do ponto de vista econômico, essa característica é fundamental, pois trabalhadores com vínculos mais longos e maior renda possuem maior capacidade de consumo, o que contribui para dinamizar outros setores da economia”, explica.
Mesmo representando apenas 4,2% do saldo total de empregos, a indústria extrativa exerce influência significativa sobre a economia estadual. Sem esse segmento, o saldo de empregos cairia para 34.431 postos, evidenciando seu papel estratégico.
Everson Costa reforça que a mineração deve ser compreendida como eixo estruturante do mercado de trabalho no Pará.
“A mineração não deve ser analisada apenas pelo número de empregos que gera diretamente, mas sim pelo seu papel como indutor de renda e atividade econômica”, pontua.
Esse efeito indireto ajuda a explicar por que setores como comércio e serviços lideram a geração de empregos, mesmo não sendo os principais responsáveis pela produção de riqueza primária. Ao mesmo tempo, evidencia a vulnerabilidade de setores como a construção civil, que apresentou retração no período.
Diante desse cenário, a análise do Dieese/PA aponta para a necessidade de diversificação produtiva como estratégia para reduzir a dependência da economia mineral e fortalecer a sustentabilidade do mercado de trabalho no estado.
Nova indústria precisa apostar em qualificação e retenção
Para o economista paraense Genardo Oliveira, embora a mineração lidere em estabilidade e remuneração, há caminhos claros para que a chamada “nova indústria” avance e reduza desigualdades no mercado de trabalho.
“A mineração no Pará se consolidou como setor de empregos mais estáveis e melhor remunerados, mas isso não significa que outras áreas industriais não possam avançar”, afirma.
Segundo ele, o investimento em formação técnica e tecnológica é um dos pilares centrais desse processo. “É preciso investir em centros de qualificação voltados para automação, energias renováveis, biotecnologia e indústria digital. Isso eleva a produtividade e cria profissionais mais valorizados”, diz.
Genardo também destaca a importância de políticas voltadas à permanência do trabalhador.
“Programas de carreira, planos de cargos e salários e incentivos à permanência reduzem a rotatividade”, explica.
Outro ponto estratégico é a articulação com instituições de ensino e pesquisa. “Parcerias com universidades e institutos federais ajudam a criar empregos de maior complexidade e remuneração”, afirma.
Diversificação é chave para interiorizar o desenvolvimento
Diante da retração recente em setores como construção civil e das oscilações industriais, Genardo Oliveira aponta que a diversificação produtiva é essencial para reduzir as vulnerabilidades econômicas no estado.
“A retração na construção civil e a oscilação da indústria mostram a vulnerabilidade de setores dependentes de ciclos econômicos”, afirma.
Para ele, ampliar a base produtiva pode impulsionar o desenvolvimento fora dos grandes polos mineradores. “A diversificação produtiva pode ser decisiva para interiorizar o desenvolvimento no Pará”, diz.
Entre os caminhos possíveis, ele destaca o fortalecimento do agronegócio sustentável e das agroindústrias.
“Agregar valor à produção agrícola e florestal gera empregos locais e reduz a dependência da exportação de commodities in natura”, explica.
A bioeconomia também surge como alternativa estratégica. “Fármacos, cosméticos e alimentos derivados da biodiversidade podem criar polos industriais regionais”, afirma.
Outro eixo importante é a expansão de energia limpa e infraestrutura descentralizada. “Projetos de energia solar e pequenas centrais hidrelétricas podem dinamizar economias locais”, observa.
Genardo também menciona o potencial do turismo e dos serviços especializados. “Diversificar para setores menos sujeitos a ciclos globais da mineração amplia a base econômica dos municípios”, diz.
Por fim, ele destaca o papel dos arranjos produtivos locais. “Estimular cadeias produtivas regionais fortalece a interiorização e cria empregos de maior permanência”, aponta.
“Assim, a diversificação não apenas reduz a vulnerabilidade, mas também distribui melhor os benefícios do crescimento econômico, evitando a concentração em poucos polos mineradores e promovendo desenvolvimento mais equilibrado no território paraense”, conclui.
Ele ressalta ainda que a valorização salarial deve estar associada à produtividade. “Ao alinhar ganhos salariais com inovação e eficiência, a indústria pode competir com a mineração em atratividade”, pontua.
Além disso, práticas sustentáveis podem influenciar diretamente a qualidade do emprego. “Empresas que incorporam padrões ESG tendem a oferecer vínculos mais duradouros e atrair trabalhadores qualificados”, acrescenta.
“Em síntese, o avanço depende de transformar a ‘nova indústria’ em um espaço de inovação e carreira, não apenas de empregos de curto prazo”, conclui.
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