Com menor oferta, entressafra do açaí começa a pressionar preços em Belém
Feirantes e consumidores da capital paraense já sentem os efeitos da entressafra, mas avaliam que 2026 inicia com cenário menos pesado do que o registrado no ano passado
A redução da produção nas ilhas próximas a Belém e a maior dependência de regiões externas marcam o início da entressafra do açaí na capital paraense. Com menor oferta do fruto e custos mais altos na origem, os preços começam a dar sinais de pressão nas feiras, mercados e batedeiras, enquanto comerciantes e consumidores já demonstram cautela em relação aos próximos meses.
Na Feira da 25 de Setembro, no bairro de São Brás, o movimento segue intenso, mas os impactos do período de entressafra já aparecem na rotina de quem vende e de quem consome. A feirante Lays Sampaio, 37 anos, que trabalha há cinco anos no ramo, confirmou nesta segunda-feira (5/1) que o custo do fruto pago aos fornecedores subiu cerca de 20%. Ainda assim, ela avalia que o momento não é de desespero.
“A gente teve um aumento pequeno, de uma média de 20%, mas nada que dê para alarmar o consumidor ainda”, afirma. De acordo com a feirante, apesar do fim da safra nas ilhas mais próximas, cidades no Arquipélago do Marajó, como Ponta de Pedras, ainda sustentam uma boa produção, o que ajuda a evitar altas mais bruscas.
Atualmente, a comparação com o início do ano passado reforça essa percepção. Enquanto em 2025 a lata de caroço chegou a custar cerca de R$ 100, hoje a média está em torno de R$ 70. “Ano passado a lata já estava R$ 100. Este ano está em torno de R$ 70”, relata Lays. No box onde trabalha, os preços seguem entre R$ 24 (popular) e R$ 30 (médio mais encorpado), sem queda significativa na procura.
“Os clientes estão aproveitando o preço mais baixo e continuam consumindo bem”, diz. Apesar disso, ela acredita que a alta é inevitável no decorrer da entressafra. “Ele vai subir. Só tem perspectiva de baixar de julho em diante”, projeta, reforçando que 2026 tende a ser menos pesado do que o ano anterior.
Visão do consumidor
Para quem compra, a preocupação começa a se fazer sentir. O pedagogo Leoncio Leopoldino, 59 anos, percebe que o produto está começando a encarecer novamente. “A gente está vendo que ele está começando a saltar de novo. É natural, porque começa a ficar mais escasso”, comenta. Ele lembra, porém, que o açaí não é um item eventual, mas parte essencial da alimentação de muitas famílias paraenses.
“Tem gente que só come se tiver açaí. Na minha casa, por exemplo, eu tenho uma neta que tem que ter açaí todo dia”, afirma. Leoncio também demonstra receio com a destinação do produto para outros mercados, enquanto o consumo local sente o impacto da alta.
Oferta e abastecimento
A percepção de queda na oferta local é compartilhada por quem acompanha o mercado há décadas. Também na Feira da 25 de Setembro, Leoclides Andrade, 69 anos, com 25 anos de experiência no comércio de açaí, diz que a produção nas ilhas de Belém praticamente chegou ao fim.
“Nas ilhas de Belém, o açaí praticamente já acabou. Uns 90% já terminou”, afirma. Ele conta que o abastecimento depende principalmente da produção do Marajó, especialmente Ponta de Pedras. Mesmo assim, os comerciantes ainda evitam reajustar os preços de forma imediata.
“Quando a gente aumenta o preço, é porque já está no ‘vermelhaço’. A gente segura até onde dá”, explica. Ele lembra que 2025 foi um ano mais crítico: “Ano passado, a lata chegou a R$ 200, R$ 250. Para vender isso para o cliente, só orando a Deus”, recorda.
Além da baixa oferta, o transporte também pesa na formação do preço. A maior parte do açaí do Marajó chega a Belém de barco, o que demanda tempo e gera perdas de qualidade. “O açaí vem do Marajó de barco. Passa dois, três dias viajando e já não chega com a mesma qualidade”, explica Leoclides. Ele prevê ainda que, nos próximos meses, a presença do açaí gelado vindo de Macapá deve aumentar — produto geralmente mais caro e com perda de cor e sabor — até que a grande safra paraense retorne por volta de julho.
Dieese confirma trajetória de alta
O levantamento mais recente com dados consolidados sobre o preço do açaí em Belém é do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA), referente a novembro de 2025, embora divulgado somente no fim de dezembro. Segundo a nota técnica, o litro do açaí comercializado na capital apresentou novas altas naquele mês, com reajustes entre 0,36% e quase 1%, a depender do tipo do produto e do local de venda.
No caso do açaí tipo médio, por exemplo, o preço médio passou de R$ 28,02 em outubro para R$ 28,12 em novembro, uma alta de 0,36%. No acumulado de janeiro a novembro, a elevação chegou a 22,37%, e, na comparação dos últimos 12 meses, atingiu 37,64%. Já o tipo grosso apresentou aumento de 0,67% em novembro, acumulando 20,62% no ano e 32,96% em 12 meses, também acima da inflação do período.
O Dieese reforça que os preços continuam pressionados e acima da inflação geral, reflexo da entressafra, de custos logísticos e da forte demanda. Esse cenário tende a se refletir também nos primeiros meses de 2026.
O supervisor técnico do Dieese/PA, Everson Costa, explica que o boletim de dezembro ainda está em fase final de consolidação, mas deve confirmar a continuidade desse movimento de alta. “O material de dezembro do açaí vai seguir a tendência de alta. Então, o que observamos em novembro deve se repetir e, infelizmente, ficar mais caro nos dados de dezembro”, afirmou.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA