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Classe média perde renda, poder de compra e corta consumo no supermercado

Pandemia de covid-19 agrava a situação no Brasil

Elisa Vaz

Nos últimos cinco anos, período em que o Brasil tem vivido uma grande crise econômica, impactada ainda mais pela pandemia da covid-19, a classe média brasileira encolheu e ficou com menos dinheiro para gastar. Segundo levantamento da consultoria Tendências, neste intervalo, a renda disponível para consumo da classe C caiu quase 10%, passando de R$ 286 milhões para R$ 259 milhões.

Segundo o economista Nélio Bordalo, entre os anos de 2014 e 2016, o Brasil passou por profunda recessão econômica. Após isto, a recuperação nos três anos posteriores, de 2017 a 2019, foi lenta e gradual. "A economia do Brasil sofreu choques negativos nesses anos, como a greve dos caminhoneiros em 2018; Brumadinho, que afetou o setor mineral; crise na Argentina e incertezas na economia internacional, com a guerra comercial entre EUA e China, em 2019, que impactaram negativamente no crescimento da economia brasileira, que foi bastante fraco. As perspectivas para o cenário econômico do brasil para 2020 eram positivas, com uma retomada gradual, porém mais forte, com previsão de crescimento do PIB por volta de 2%, porém, este cenário positivo foi afetado drasticamente pela pandemia do coronavírus e o resultado foi um PIB negativo de 4,1% em 2020", comenta.

Ele lembra que os indicadores apontam que a década de 2011 a 2020 foi a pior em termos de crescimento econômico dos últimos 120 anos, pior do que os anos 1980, conhecidos como “década perdida”. No ano de 2021, apesar de situações pontuais positivas, principalmente no agronegócio, a pandemia da covid-19 continua prejudicando a economia do Brasil, de acordo com Nélio. Todo esse cenário econômico desfavorável ao Brasil, em sua avaliação, afetou fortemente a renda da população brasileira, e a pior consequência deste período de fraqueza da atividade econômica no Brasil é o alto desemprego e a situação do mercado de trabalho, refletindo na queda da renda do brasileiro e, consequentemente, no poder de compra. Somado a isto, a alta de preços da maioria dos produtos da cesta básica da classe média. 

"É importante frisar que 88% da classe C é composta por trabalhadores de inúmeros setores da economia, inclusive profissionais liberais, que foram duramente impactados pelo desemprego e pelo agravamento da pandemia em 2021. A pesquisa reflete a situação da classe C paraense, pois, com redução na renda mensal e maiores gastos básicos, como alimentação, transporte, medicamentos e produtos de proteção para a covid-19, as famílias precisaram cortar despesas importantes, mas insustentáveis financeiramente", aponta o economista.

Nélio diz que, para equilibrar o orçamento mensal, as famílias procuram cortar os gastos supérfluos, como lazer, televisão por assinatura, conta de celular, além de optar por alternativas de plano de saúde mais barato e usar a energia elétrica e água com mais racionalidade. Os gastos com alimentação também foram afetados, na opinião do especialista, com redução nas compras de supermercados e feiras livres, com substituição de produtos e marcas e a eliminação de produtos considerados supérfluos.

"Com menos renda, a classe C reduz o consumo de muitos produtos e serviços, principalmente o lazer, e isso impacta negativamente na economia do Pará, não só no faturamento das empresas, mas também na arrecadação de impostos do governo do Estado e municípios. Com isso, os investimentos em educação, saúde, segurança e infraestrutura também são impactados negativamente, refletindo para a população em geral, inclusive prejudicando políticas públicas para a população com menor poder aquisitivo", destaca Nélio.

Empreendedora reduziu 85% dos gastos

Com o orçamento mais apertado, além das restrições provocadas pela pandemia, houve muitas mudanças nos hábitos de consumo, que ficaram mais limitados e enxutos. É o caso da empreendedora Círia Pimentel, de 56 anos, que trabalha no setor de vestuário ao lado da filha. Ela mora com seus dois filhos e conta que, apenas no último ano, desde que iniciou a pandemia, os gastos chegaram a cair 85% na família.

O principal impacto disso se deu nas compras não essenciais para a casa. “Nós deixamos de comer em restaurantes aos finais de semana e durante a semana, que era diário no almoço, e passamos a cozinhar. Inclusive, meu filho, que é filmaker, aprendeu a cozinhar para diminuir os custos dele. Também reduzimos o consumo de bebida alcoólica”, conta.

Quanto às compras de supermercados e feiras, Círia afirma que deixou de adquirir muitos itens para reduzir as despesas. Por exemplo, uma vez ao mês, ela comprava bacalhau, e pelo menos uma vez na semana camarão. Nenhum dos dois alimentos tem feito parte do cardápio da família nos últimos meses. Segundo a empreendedora, todos os preços aumentaram.

Até na moradia a redução de gastos da família teve impacto. Círia lembra que, quando a pandemia começou, ela e os filhos saíram do apartamento onde moravam, cujo aluguel custava cerca de R$ 3 mil, e foram morar nos altos da casa da mãe da empreendedora. Círia e a filha, Melina, que trabalham com vendas, tiveram perdas de 30%, e o filho, Lucas, atua na área de fotos e vídeos, dependendo de eventos. Na época, os três estavam com rendas reduzidas.

“Abri mão de um apartamento de 110 metros quadrados para um de 50. Fiquei lá um bom tempo, para não ter essa despesa e continuar com uma garantia financeira. Hoje, já consegui me mudar novamente, para um apartamento maior, porque melhorou um pouco. Eu e Melina conseguimos vender pela internet, também produzi algumas coisas”, diz.

Este ano, a empreendedora iria trocar de carro – ela diz que essa troca ocorre a cada três anos –, mas preferiu esperar. Da mesma forma, o celular, item necessário para o trabalho com vendas, não será trocado este ano. “Até o aluguel da loja tive que negociar, falei com o proprietário para segurar até as coisas melhorarem. O ar condicionado só ligamos para dormir, e comprei um ventilador para substituir em horas menos quentes. E nosso plano de saúde é o SUS, Nunca tivemos plano. Usamos o consultório popular”, conta Círia.

Para o futuro, a empreendedora tem a expectativa de que o cenário econômico melhore, mas só com a população vacinada o mais rápido possível. “Com um pouco mais de cuidados da população com o próximo, tomando todas as medidas inerentes à proteção individual e coletiva. E o governo federal sendo mais competente na condução tanto da política econômica quanto da política social e condução da pandemia”, opina.

Economia
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