BNDES triplica média anual de investimentos no Pará e amplia apoio a setores estratégicos
Financiamentos saltam de R$ 6,7 bilhões para R$ 17 bilhões, com destaque para comércio, indústria e infraestrutura; banco também retoma crédito direto a governos e aposta na bioeconomia e restauração florestal
A diretora socioambiental do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Tereza Campello, afirmou ao Grupo Liberal que o banco triplicou a média anual de investimentos no Pará nos últimos anos, impulsionando setores como indústria, comércio, serviços e infraestrutura. Segundo ela, o volume total de financiamentos saltou de R$ 6,7 bilhões para R$ 17 bilhões, além da retomada do crédito direto ao governo estadual e prefeituras, que passou de zero para R$ 1,6 bilhão. Campello também destacou o avanço da bioeconomia, com foco na restauração florestal e captura de carbono, e avaliou que o estado se consolida como estratégico para o desenvolvimento sustentável, turismo e logística na Amazônia.
Quais são os principais dados desse balanço que você destacaria?
Tereza Campello: O primeiro dado que eu queria mostrar é a média anual de aprovação dos financiamentos para o estado do Pará. Não é para o governo do estado. É para o conjunto do estado, mostrando essa grande virada. Se a gente olhar o período anterior, vocês veem que foram 6,7 bilhões; o investimento pulou para 17 bilhões. Quer dizer, duas vezes e meia, se a gente comparar um período com o outro.
Só que nós estamos comparando três anos com quatro anos. Então, se a gente fizer a média anual, a gente vê que esse aumento foi ainda maior: foi três vezes maior. Mostra-se o esforço que o banco vem fazendo para investir nas várias áreas: comércio, indústria, agricultura.
Não só o Pará vem crescendo, como o banco vem sendo um parceiro desse crescimento. Olhando, num primeiro momento, o que aconteceu com a agropecuária: a gente via o investimento no período de 2019 a 2022, do governo anterior, em 1,5 bilhão; dobrou. Pegando a agropecuária, que é um setor muito forte no estado e que também vem crescendo, o banco dobrou a sua participação no apoio e no suporte ao setor.
Quando a gente pega a indústria — e esse dado eu queria muito ressaltar — o impacto é muito maior: três vezes o crescimento. É o setor que acaba puxando muito a economia e que gera mais emprego de qualidade. Mostra também que esse desenvolvimento é numa área que é estratégica. O Estado vem melhorando o seu desempenho a nível nacional e o banco vem se tornando um dos parceiros mais estratégicos.
Agora, olhando duas áreas que são fundamentais: uma delas, comércio e serviços, aumentou seis vezes. Era R$ 800 milhões e pulou para R$ 4,6 bilhões de reais - a maior parte deste investimento em micro, pequena e média empresa no estado do Pará.
E, por fim, a infraestrutura, que também é um estado que carece ainda de infraestrutura fundamental, não só básica. Para que suporte esse crescimento na indústria, a gente precisa ter toda a infraestrutura do estado preparada. Também duplicou: passou de R$ 4,2 bilhões para R$ 8,8 bilhões; mais do que duplicou, na verdade.
O que aconteceu de investimento diretamente para o governo do estado? Se a gente olhar o que aconteceu ao longo dos quatro anos do governo anterior - do governo do ex-presidente Bolsonaro - o investimento no governo do estado e nas prefeituras foi zero. Então, financiamento direto de um banco, que é o principal banco de investimento do país, no conjunto dos estados, o investimento tinha sido zero.
Passamos a R$ 1,6 bilhão de reais. Um salto que nem dá para dizer percentualmente quanto, porque de zero para R$ 1,6 bilhão é um crescimento infinito. Isso mostra o esforço do banco não só em apoiar o governo do Estado e as nossas prefeituras — teve investimento na prefeitura de Belém — como o suporte para áreas que são estratégicas.
Esses investimentos, muito mais do que investimentos para a COP, aconteceram em territórios vulneráveis da cidade. Foram investimentos estratégicos em áreas que eram costumeiramente sujeitas a alagamento e, portanto, a gente acabou levando benefícios estratégicos para mais de meio milhão de habitantes na cidade de Belém.
Eu queria que você avaliasse qual é a viabilidade de se continuar investindo na economia do Estado considerando que a gente ainda tem esse setor da indústria a se desenvolver um pouco mais. A gente consegue sobreviver de comércio e serviços nos próximos anos? Como é que você avalia a distribuição dos investimentos nesses diferentes setores? O que já é positivo para o Estado e o que ainda precisa melhorar?
Tereza Campello: O estado do Pará tem diversificado muito a sua base produtiva. Era um estado que, se a gente olhasse historicamente, tinha uma base muito forte de exploração na área de minérios e uma parte de agricultura forte. O Pará vem conseguindo diversificar com novas indústrias se instalando, inclusive um setor que eu acho muito promissor para o estado: a indústria moveleira e a indústria de madeira, que é o que a gente chama de setor de florestas.
O Pará é um dos setores que vem despontando no Brasil com florestas nativas. Tivemos alguns investimentos que hoje servem de exemplo para o Brasil todo, que foram dois grandes setores que se instalaram: a Mombak e a re.green se instalaram no estado, com duas áreas enormes de florestas nativas. Eu acho que é uma vocação.
O Brasil está mostrando que, para além do que a gente já fazia, que eram florestas plantadas em geral de pinus e de eucalipto, tem um novo setor emergente que são as florestas nativas. Estamos restaurando as nossas florestas nessas áreas que tendiam à desertificação e que são degradadas, áreas que passaram por um processo intensivo de agricultura e pecuária e que se tornaram impróprias inclusive para a produção agrícola.
Estamos restaurando essas áreas plantando florestas nativas; com isso, a gente tem benefícios variados - a própria reconstrução das florestas onde ela tinha sido derrubada e eram áreas de emissão de carbono.
Essas áreas de reconstrução vão prestar um serviço fundamental para o país, que é a captura de carbono. Isso é uma vocação do estado do Pará, que foi um dos pioneiros nessa agenda de clima e eu acho que vai se tornar uma referência não só para o Brasil, mas para o mundo na área de restauro florestal. Mas também, com isso, você tem manejo florestal para madeiras nobres.
No passado, você tinha uma parte da floresta sendo roubada, e a exportação de árvores era feita com a floresta em pé que estava sendo derrubada; agora nós estamos plantando a floresta com essa finalidade. Então tem manejo florestal e tem crédito de carbono. É uma área muito promissora. A gente tem apostado muito.
Além daquilo que a gente já financiou, que são financiamentos recentes do banco no setor privado, não estamos falando em restauro florestal para o setor público. Estamos falando de empresas investindo, tomando dinheiro emprestado do BNDES para investir em florestas no estado do Pará.
Além desses grandes empreendimentos que já se instalaram, estamos no portfólio do banco analisando um conjunto de outras empresas que estão no mesmo caminho.
Eu não posso contar para vocês ainda, pois estão em análise, mas espero que brevemente a gente possa voltar aqui para dar essas notícias em primeira mão.
O setor de comércio e serviços tradicionalmente é um setor que cresce - isso não acontece só no Pará - o mundo vem se especializando e avançando muito nessas áreas, então acho que é natural que cresça mais do que as outras áreas. Mas eu destacaria esse crescimento na infraestrutura, que vai envolver o Pará ser uma das frentes para energia e uma das frentes importantes na área de portos e exportações.
Quais outras questões você poderia pontuar que são diferenciais do Pará interessantes para o BNDES investir?
Tereza Campello: O Estado, como eu disse, é o mais populoso que nós temos na Amazônia; de longe é o mais populoso, portanto é aí que se concentra grande parte do comércio e serviços se a gente comparar com os outros estados. De fato, desponta. É a saída também ali pelo Marajó, uma das áreas portuárias importantes e estratégicas para o escoamento da produção não só do Norte, mas do Centro-Oeste. Acho que continua sendo uma frente de investimentos importante e estratégica para o país.
Eu acho que agora tem uma frente que se abre e o Pará se torna o portador de futuro nela: a entrada do turismo para a região amazônica não ser mais via Rio de Janeiro ou São Paulo. Tradicionalmente, as pessoas vinham ao Brasil, entravam pelo Nordeste, Rio, São Paulo ou Brasília e conheciam a Amazônia por essas diferentes entradas.
Agora, o Pará se consolidou como um estado que está apto, Belém está apta a receber não só turistas via aérea, como está se preparando para ser também uma via de entrada com navios, recebendo uma parcela desses turistas que entram não só para visitar e conhecer a Amazônia paraense, mas mesmo a Amazônia dos nossos outros oito estados que compõem o bioma.
Eu queria que você fizesse uma avaliação do quão importante o evento da COP 30 foi agora que ele já passou, do quão importante ele foi para posicionar ou reposicionar o Brasil como uma referência global em financiamento climático. Como é que você avalia esse pós-evento?
Tereza Campello: Olha, eu acho que a COP no Brasil foi um ganho. Muita gente apostou que não ia dar certo, muita gente torceu contra, inclusive achando que Belém não ia conseguir dar conta do recado, e nós mostramos o oposto. Queria começar com isso porque a cidade está de parabéns. Eu passei praticamente três anos visitando e estando aí por conta das obras que a gente vinha trabalhando em parceria com o governo.
Então, eu vi parte dessa transformação acontecendo - a cidade se preparando para receber a COP, mas para além daquilo que a gente conseguiu botar de pé ao longo desses três anos e entregar, a cidade conseguiu receber os nossos visitantes, tanto brasileiros quanto estrangeiros.
Todo mundo declarava o tempo todo a alegria do povo paraense, da cultura, de como foram bem recebidos. Então, primeiro, contamos com a cultura, com o entusiasmo do povo do Pará, em especial da cidade de Belém.
A cidade se preparou de fato do ponto de vista de hotelaria, de bares e restaurantes, de ter uma apresentação de qualidade. A gente recebeu o turista com a comida do Pará. Tenho certeza de que foi o que os turistas viveram também.
Aquilo que o BNDES apostou, o governo do presidente Lula apostou — que Belém e o Pará iam dar conta disso contra muita gente que ficou agourando — nós demos conta. É um orgulho enorme e eu sei que a cidade se sente orgulhosa porque eu vi isso acontecendo.
Eu sei que o Pará se preparou, que o governo do estado se preparou, estava do nosso lado, que a cidade se preparou, mas tinha muita gente torcendo para dar errado e tinha muita gente que duvida.
Tivemos uma alegria durante o período da COP: a gente fez um restauro, que é o do Complexo dos Mercedários. Durante esse mês, o Mercedários, que é da Universidade Federal do Pará e fica no centro histórico de Belém, se transformou na Casa do BNDES. Tivemos a oportunidade de receber 31 mil visitantes em duas semanas. Muita gente da cidade que nunca tinha entrado no Mercedários, pois ele foi inaugurado agora. Um lugar lindo.
Todo mundo entrava feliz da vida comentando como as coisas estavam funcionando. Então, eu acho que a COP foi um sucesso nesse sentido das pessoas conhecerem o lado do Brasil que não é só o Rio de Janeiro, poderem quebrar aquela ideia de que a Amazônia é só floresta, serem recebidos numa grande cidade, mas uma cidade amazônica.
A COP em si pôde fazer reflexões que talvez em outro lugar não conseguiria fazer. A COP, que tradicionalmente discute somente energia e emissões de gás carbônico, conseguiu discutir também biodiversidade, bioeconomia, mostrando o papel que a natureza cumpre para manter o planeta resfriado.
Só pelo fato de existir a Floresta Amazônica, ela mantém o planeta 1°C mais frio. Se a gente perder essa riqueza, a Terra já aquece 1°C somente porque perdeu a floresta. Não é só um pulmão, é também um ventiladorzinho da Terra. Trazer a COP para a Amazônia permitiu mostrar esse lado das soluções baseadas na natureza e fazer uma discussão de altíssimo nível.
Se a COP 30 tivesse acontecido em outro lugar, a gente teria perdido essa capacidade de engajamento, de envolvimento. Eu acho que a vinda para o Brasil encheu as pessoas de energia e de esperança.
Cumprimos um papel. Não podemos esquecer disso nem deixar de se orgulhar, em especial os paraenses. Você sabe que eu sou cidadã paraense e belenense, né? Então eu já aproveito que eu falo como paraense também, tenho a alegria de ter recebido o título, eu e o presidente (Aloizio) Mercadante. Temos muito que se orgulhar do papel que cumprimos e de tudo aquilo que deixamos de legado para a cidade de Belém e para o estado do Pará.
A gente está no último ano desse atual mandato do presidente Lula. Quais investimentos estão em andamento ainda no estado do Pará e quais você pode antecipar que ainda serão feitos durante este ano por parte do BNDES?
Tereza Campello: Estamos em pleno andamento das nossas obras. Você recorda que a gente restaurou, recuperou e construiu pavimentação, ciclovias e parques em 12 canais na cidade de Belém. Desses 12 canais, a gente já entregou sete prontos; tem outros cinco que estão em obras. As pessoas achavam que a gente estava restaurando os canais para a COP; não era para a COP, até porque a COP não tinha nada a ver com esse território, que é um território da periferia, das baixadas de Belém.
A gente também fez investimentos que foram para a COP, como o Hangar, que foi restaurado e ampliado, mas que hoje ficou para a cidade. Teve o Canal Tamandaré, no centro da cidade, onde a população já está aproveitando o parque linear e a praça que comporta o terminal hidroviário regional, que também está funcionando e atende as ilhas. Tem várias obras que já estão prontas e que ajudaram a COP, mas a maioria foi feita para melhorar a vida da população.
Essas obras continuam sendo feitas e a gente continua entregando. Mês passado, por exemplo, entregamos a Rua da Marinha, que eu acho que é uma das vias estratégicas da cidade, ligando duas grandes estruturas viárias. Ficou super bonita, mantendo toda a parte do Parque da Marinha preservada. Teve um monte de questionamentos e críticas, mas agora que a cidade está podendo usufruir desse benefício.
Essa obra estava prevista no Plano Diretor da cidade desde 2008. Não foi uma invenção ou obra de maquiagem; estava planejada e não tinha saído do papel. Nós tiramos ela do papel e já entregamos. Tem um conjunto de entregas que continuam sendo feitas e tem investimentos privados, por exemplo em gás na região, que continuam sendo feitos.
Estamos com vários investimentos no nosso pipeline que são privados; como são privados, a gente não pode abrir. Tem uma área enorme do território do Pará que está sendo restaurada, inclusive com o Fundo Amazônia. O Fundo Amazônia ficou quatro anos sem investimento nenhum; nós investimos nesses três anos.
É um investimento que o governo Lula está fazendo para que a gente possa viabilizar um conjunto de atividades envolvendo bioeconomia, restauro florestal, povos indígenas e assentamentos. São R$ 218 milhões de reais que a gente investiu no Fundo Amazônia. Quanto que foi do governo passado? Foi zero. E quanto a gente conseguiu investir nesse período? Foram R$ 218 milhões em três anos.
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