Reajuste de preços pressiona escolha entre gasolina e etanol, veja o mais vantajoso

Mesmo com preço menor, etanol perde competitividade no Pará devido ao menor rendimento e à dependência de abastecimento de outras regiões

Maycon Marte e Jéssica Nascimento

Os preços dos combustíveis no Pará registraram forte alta ao longo de março de 2026, com reajustes que ultrapassam 20% em alguns casos. Os dados constam em estudo divulgado pelo Dieese/PA (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base em informações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que compara as semanas de 1º a 7 de março e de 22 a 28 de março. Para Everson Costa, supervisor técnico do Dieese/PA, o etanol, apesar de apresentar preços mais baixos que a gasolina, não se mostra, em geral, a alternativa mais vantajosa para o consumidor paraense, já que para ser economicamente competitivo, precisa custar até cerca de 70% do valor da gasolina.

De acordo com o levantamento, os aumentos mantêm a pressão sobre os consumidores em todo o estado. O cenário é influenciado por fatores externos, como a instabilidade geopolítica internacional e a volatilidade das cotações do petróleo, além de reajustes recentes nas refinarias, que impactam principalmente o diesel, mais sensível às oscilações do mercado global.

Costa detalha ainda o impacto na prática. “Para um carro popular com tanque de 46 litros, o abastecimento completo com gasolina custaria cerca de R$ 312,34, enquanto com etanol sairia por aproximadamente R$ 226,78, uma diferença de R$ 85,56. No entanto, como o etanol rende menos, em média 30% inferior, o motorista precisaria abastecer com mais frequência, reduzindo ou até eliminando a economia aparente”, analisa.

Em Belém, a gasolina comum passou de R$ 5,93 para R$ 6,79 no período analisado, alta de R$ 0,86 por litro, equivalente a 14,5%, enquanto o etanol teve aumento mais moderado, de R$ 0,08 por litro, o que representa 1,6%. No estado, a gasolina subiu em média de R$ 6,19 para R$ 6,84, alta de R$ 0,65 por litro (10,5%). O etanol registrou crescimento de R$ 0,18, equivalente a 3,7%.

Consumo

Na capital, os consumidores começam a trocar a gasolina pelo etanol na tentativa de reduzir os impactos no bolso. O motorista de aplicativo Ítalo Pantoja dirige há cerca de três anos e se adaptou a essa prática, optando também pelos postos de abastecimento com bandeira branca. “Devido a difernça de preço, de mais de R$ 2 entre um e outro, ai já se torna vantajoso”, avalia. Seu consumo fica em um teto mensal de R$ 1.800, apenas com o etanol, o que não tende comprometer sua atividade profissional.

Ele reconhece que o etanol tem a tendência a durar menos, conforme o consumo de cada motorista, mas defende que, no seu caso, a economia direta no valor pago compensa. Esse caso se assemelha ao da estudante Amanda Sudario, que usa o veículo apenas para uso doméstico e também realiza a troca para o etanol quando o preço da gasolina sobe. Mesmo com um gasto de R$ 300 mensais, ainda escolhe equilibrar o uso do combustível com a opção mais em conta. “Costumo abastecer com uma mistura de gasolina e etanol, o que considero mais eficiente”, afirma.

Dificuldades

Adotar o etanol como alternativa esbarra em dificuldades, como a baixa produção de etanol na Região Norte, que leva cidades como Belém a dependerem do abastecimento vindo do Centro-Sul, o que encarece o frete e limita a oferta, pressionando os preços. Segundo o economista e membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá) Nélio Bordalo, essa condição estrutural impede que o etanol funcione como alternativa quando a gasolina sobe, já que ambos os combustíveis tendem a aumentar simultaneamente. Além disso, a migração do consumidor para o etanol costuma ser apenas pontual e só se justifica quando o preço fica abaixo de cerca de 70%”, afirma.

Em nota, o Sindicombustíveis Pará corrobora a análise e explica que o preço do etanol no Pará é determinado pelo valor de origem, custos logísticos, tributação e despesas operacionais. Isso se soma ao ICMS e fatores como a variação no preço da cana-de-açúcar e do dólar. Segundo o advogado e porta-voz do sidicato, Pietro Gasparetto, não há expectativa de queda significativa nos preços, e medidas como redução de impostos e instalação de usinas locais seriam fundamentais para tornar o etanol mais competitivo.

Efeito global

No cenário internacional, o aumento dos combustíveis está ligado, em parte, a fatores conjunturais, como conflitos no Oriente Médio, que afetam a produção e a distribuição de petróleo. De acordo com Doutor em Relações Internacionais paraense Mário Tito, embora a guerra pressione os preços no curto e médio prazo, esse impacto não é permanente.

Ele destaca ainda que fatores internos, como a atuação de distribuidores e a dinâmica do mercado, também influenciam os valores praticados, mesmo sem aumento proporcional nos custos. Assim, o especialista conclui: “Acredito que ainda vai haver impacto no preço do combustível, mas ao mesmo tempo acredito que seja passageiro, não a curto prazo, mas a médio prazo.”

Já o economista André Cutrim aponta que a alta recente da gasolina no Brasil também está relacionada ao preço internacional do petróleo, à cotação do dólar e à política de preços da Petrobras. Ele afirma que a competitividade do etanol depende não só do preço, mas também do rendimento e de condições locais. “Em cidades como Belém, com tráfego mais congestionado e maior tempo em marcha lenta, tende a ampliar a desvantagem energética do etanol, exigindo um preço relativamente mais baixo para compensação”, explica

Dessa maneira, a escolha do consumidor é sensível a diversos fatores e exige comparação no momento do abastecimento, enquanto medidas de fiscalização buscam garantir maior transparência na formação dos preços.

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