Alta de taxas eleva inadimplência e Norte lidera atrasos em condomínios no país

Custo condominial cresceu quase 25% em três anos e região Norte registra 18,44% de atraso

Fabyo Cruz
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Morar em condomínio no Brasil ficou mais caro nos últimos três anos e esse encarecimento tem se refletido diretamente nos índices de atraso no pagamento das taxas condominiais. Segundo o Censo Condominial 2025/2026, produzido com base em dados da Receita Federal, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e plataforma uCondo, além de levantamentos de empresas do setor, a taxa média nacional de condomínio subiu cerca de 24,9% entre 2022 e o primeiro semestre de 2025, passando de R$ 413 para R$ 516 no período. O aumento foi impulsionado sobretudo pelo reajuste de folha de pagamento, contratos de manutenção, serviços de segurança e elevação nas tarifas de energia elétrica e água. 

Esse cenário contribuiu para o crescimento expressivo da inadimplência. O índice de moradores com atraso superior a 30 dias no pagamento das taxas condominiais atingiu 11,95% no primeiro semestre de 2025, o maior patamar desde 2022. Administradoras apontam que o endividamento das famílias e os juros elevados fazem com que muitos priorizem dívidas com taxas mais altas, como cartão de crédito, deixando os boletos do condomínio em atraso.

Os dados também mostram diferenças significativas entre as regiões do país. A região Norte lidera com a maior taxa de inadimplência do Brasil, alcançando 18,44%. Isso significa que quase um em cada cinco condôminos na região está em atraso com a taxa mensal. O Nordeste aparece em seguida, com 13,52%. No Sudeste, além da inadimplência elevada, houve forte aumento nos custos condominiais em razão da grande concentração de empreendimentos. Já o Sul apresenta o menor índice do país, com 9,45%, embora tenha uma das médias mais caras de taxa condominial (em torno de R$ 537).

Embora a inadimplência cresça, os condomínios continuam obrigados a manter serviços essenciais funcionando, como limpeza, segurança, manutenção predial e despesas com áreas comuns. Desde 2015, a dívida condominial é considerada título executivo extrajudicial, o que torna o processo de cobrança mais rápido, podendo resultar em bloqueios judiciais, penhora de bens e até leilão do imóvel, mesmo quando ele é o único bem da família.


Belém

No Pará, os números seguem a tendência do Norte, com cenário considerado preocupante por especialistas e administradores. Paralelamente, Belém vive movimento de valorização imobiliária, influenciado, entre outros fatores, por investimentos e preparação para eventos internacionais, como ocorreu com a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 30). O valor médio do metro quadrado na capital chegou ao fim de 2025 em torno de R$ 8.214, com alta superior a 10% em 12 meses. Em bairros de maior verticalização, como o Umarizal, o metro quadrado pode ultrapassar R$ 12.600. Valores elevados de imóveis tendem a refletir em taxas condominiais mais caras, devido ao padrão de segurança, serviços e manutenção exigidos nesses empreendimentos.


Ananindeua

Na Região Metropolitana, há contrastes. Em Ananindeua, por exemplo, o metro quadrado médio é estimado em torno de R$ 5.749, atraindo moradores que buscam custos mais acessíveis em relação à capital. Mesmo assim, fatores locais continuam pressionando as finanças dos condomínios paraenses, como a tarifa de energia elétrica considerada entre as mais caras do país e a necessidade de manutenção frequente devido ao clima úmido e às chuvas intensas, que demandam serviços constantes de impermeabilização, limpeza de calhas e reparos estruturais.


Período crítico

A reportagem ouviu o advogado Albyno Cruz, especialista em direito condominial há 20 anos, que reforça que o início do ano é um período crítico para os condomínios no estado. “Nos primeiros meses do ano, principalmente entre janeiro e março, temos um aumento significativo da inadimplência, em média acrescido de 15% sobre a inadimplência já existente nos condomínios”, afirma. Segundo ele, esse crescimento está diretamente relacionado às prioridades financeiras das famílias. “Isso decorre, principalmente, das despesas priorizadas pelas famílias no início do ano, como matrículas escolares, impostos como IPTU e IPVA, seguros e também gastos assumidos com as festas de final de ano e férias”, explica.

Com o avanço do número de inadimplentes, as administrações condominiais passam a intensificar os mecanismos de cobrança. “Ao longo dos três primeiros meses do ano, é natural a intensificação das cobranças e até mesmo o ajuizamento de execuções judiciais”, relata o advogado. Ele afirma que essas medidas tendem a reduzir gradualmente o volume de débitos. “Essas ações trazem a redução deste aumento de inadimplência para o patamar de 7,5%, ou seja, praticamente a metade, muito em decorrência de acordos extrajudiciais e até mesmo no curso das ações”, explica.

Mesmo assim, parte das dívidas só é quitada após a tramitação judicial. “O percentual restante costuma ser recebido de acordo com a resolução de cada demanda judicial, que pode levar de três a dez meses, dependendo do processo”, afirma Cruz. Ele também orienta que síndicos e administradoras não adiem a adoção de medidas legais. “Recomenda-se que, neste período de crescimento da inadimplência, as administrações não posterguem a contratação de profissionais da área jurídica especializados na área condominial, para que adotem providências necessárias e mitiguem os prejuízos”, destaca.

O advogado projeta ainda um impacto direto desse cenário nas estatísticas judiciais nos próximos meses. “Temos um prognóstico de que neste primeiro trimestre haja pelo menos 30% a mais de ações judiciais de execução do que nos demais períodos do ano”, afirma.

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