Theatro da Paz, em Belém, tem tudo para ser Patrimônio Mundial da Unesco

Às vésperas da avaliação pela Unesco da candidatura dos teatros da Paz e Amazonas, paraenses e visitantes dessa casa de espetáculos torcem por um resultado positivo

Eduardo Rocha

O Theatro da Paz merece ser Patrimônio Mundial da Unesco? A resposta é óbvia e afirmativa para os paraenses ou, em especial, para quem de outras cidades do Brasil e do mundo conhece essa casa de espetáculos, com 148 anos como símbolo da cultura e da história da Amazônia. Entre os dias 20 e 29 de julho, em Busan, na Coreia do Sul, o Comitê da Unesco que trata do assunto terá sua 48ª sessão para analisar a candidatura "Teatros da Amazônia", que reúne os edifícios históricos do Teatro Amazonas, em Manaus (AM), e do Theatro da Paz, em Belém (PA). Ao todo, o órgão analisará 30 novas candidaturas à Lista do Patrimônio Mundial.

image Visitantes conhecem de perto a riqueza de detalhes da edificação e da história do Theatro da Paz (Foto: Carmem Helena / O Liberal)

A história do Theatro da Paz, desde a inauguração, em 15 de fevereiro de 1878, no Ciclo da Borracha, até os dias atuais, é contada aos visitantes desse espaço durante a programação de visitas monitoradas. Em um grupo de 51 pessoas, na quinta-feira (22), estava o casal Luciana Matos, servidora pública, e Tadeu Pedersoli, administrador de empresas, de Minas Gerais. Era a primeira vez deles no teatro.

"Eu gostei muito da imponência do teatro. Você chega ao teatro e sente uma emoção; é de uma beleza! E a guia foi muito didática. Eu acho que, sem essa visita, as pessoas perderiam informações importantes”, destacou Luciana. “Eu jamais imaginaria que a pintura era pintada no teto, à mão, e não em papel de parede". Ela também observou a importância dos espelhos e o lado místico atribuído a eles pelos barões da Borracha. Já Tadeu ressaltou a originalidade das peças do TP, e o casal aprovou a preservação do teatro.

image Tadeu Pedersoli e Luciana Matos: Theatro da Paz faz parte da história e da cultura dos brasileiros e merece ser Patrimônio Mundial da Unesco (Foto: Carmem Helena / O Liberal)

Luciana não tem dúvida de que o Theatro da Paz deve ser considerado Patrimônio Mundial da Unesco. "Com certeza. As pessoas têm que saber da existência disso aqui e, principalmente, da história. Faz parte da nossa história. Por mais que eu não more no Pará, é a minha história, né?", enfatizou.

Outra visitante foi a empresária Ariane Furtado Santos, de Parnaíba (PI), que também esteve pela primeira vez no teatro. "Ah, eu amei. Desde a entrada, a arte, a forma como as pessoas nos receberam. A forma como ela (a guia) explicou as pinturas; o lustre também me encantou. A escada. Eu já me interessei logo quando vi uma foto na internet dessa escada vermelha. E também a parte lá de dentro, onde o espetáculo acontece. Cada pintura!. Aquilo me encantou demais, por ser manual, algo mais especial. E o ambiente em si é muito lindo", contou. Para Ariane, a história do teatro também é muito interessante.

image Ariane Furtado Santos: encantamento com a beleza do Theatro da Paz, no centro histórico de Belém (Foto: Carmem Santos / O Liberal)

História viva

Os visitantes e quem já esteve no Theatro da Paz, projetado em estilo neoclássico, têm razão: tudo nele traduz história e cultura. Além da fachada, uma obra de arte a céu aberto na Praça da República, o piso do hall de entrada é composto por pedras portuguesas assentadas com uma mistura de látex de seringueira e gordura retirada da bexiga do peixe gurijuba. Nos mosaicos estão referências às ilhas do entorno de Belém, à Cruz de Malta, em alusão a Portugal, e ao sapo muiraquitã, tradicional amuleto da cultura amazônica. A faixa central do piso faz referência aos rios da Amazônia.

Outra curiosidade é o "Espelho da Verdade", que chegou ao teatro durante a reforma de 1904, como presente da França, juntamente com o lustre do hall. Composto por cristal francês e placas de bronze na moldura, o espelho recebeu esse nome por não provocar distorções na imagem.

A sala de espetáculos foi projetada de acordo com a hierarquia social da época. Cada pavimento era destinado a um grupo específico, formando uma espécie de pirâmide invertida. O primeiro e o segundo andares eram ocupados pela elite, incluindo pessoas com títulos de nobreza, grandes comerciantes, autoridades e figuras influentes durante o Ciclo da Borracha. A partir do terceiro andar, ficavam a classe média e pessoas que prestavam serviços aos chamados barões da borracha.

Para o diretor do teatro, Edyr Augusto Proença, "o Theatro da Paz merece esse reconhecimento porque reúne características que o tornam único". Segundo ele, a arquitetura preservada, a história, a contribuição para a identidade cultural da Amazônia e a atuação contínua, há 148 anos, como espaço de formação de artistas e de realização de grandes produções aproximam o teatro dos critérios para o reconhecimento. "Ser reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco é reconhecer a contribuição da Amazônia para a cultura e para a história da humanidade", enfatiza.

"A trajetória do Theatro da Paz acompanha a própria formação cultural de Belém. Ao longo desses quase 150 anos, a sua presença contribui para impulsionar a atividade cultural, fortalecer o turismo e movimentar uma ampla cadeia da economia criativa, envolvendo artistas, técnicos, produtores e diversos profissionais da cultura. Ao mesmo tempo, o teatro sempre esteve de portas abertas para as diferentes expressões culturais da identidade amazônica. É palco de grandes produções de ópera, concertos e espetáculos, mas também dialoga com manifestações populares, como o Arrastão do Pavulagem”. “Isso mostra que a tradição e a cultura popular se encontram e se fortalecem nesse mesmo espaço", destaca Edyr Augusto.

Entre os muitos nomes relacionados ao Theatro da Paz está o do maestro Waldemar Henrique (1905-1995). O pesquisador e membro da Academia Paraense de Letras, Sebastião Godinho, amigo pessoal do compositor, relembra a relação de Waldemar com o teatro.

"Waldemar Henrique foi o grande diretor com que o Teatro da Paz pôde contar em uma de suas mais difíceis fases. Na segunda metade da década de 1960, quando o maestro voltou definitivamente para Belém, assumiu o cargo de diretor da casa de espetáculos e, movido unicamente pelo amor que lhe devotava, devolveu-lhe vida e movimento, tirando-o do estado de abandono em que se achava, desprezado, sem nenhuma função".

"Para tanto, Waldemar achou por bem residir no próprio teatro, ocupando um dos seus camarins, para melhor colocar em prática o seu plano de resgate. O Theatro da Paz era para ele muito mais do que um órgão público. Era algo mágico, transcendental, com o qual estava unido por vontade dos deuses das Artes, a começar pela mesma data de nascimento de ambos: 15 de fevereiro. O teatro, em 1878; ele, em 1905”, assinalou Godinho.

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