Teatro de animação transforma histórias de idosos em espetáculo inédito na Amazônia
A montagem do argentino Sergio Mercurio ocupa a Caixa Cultural entre os dias 23 e 26 de julho
Envelhecer raramente ocupa o centro do palco. Quando aparece, quase sempre é cercado por estereótipos ou dramas. Em "Velhos" ("Viejos"), no entanto, a velhice ganha outro lugar: o das histórias comuns, do humor e dos afetos. É por meio de oito bonecos manipulados com diferentes técnicas que o argentino Sergio Mercurio, uma das principais referências do teatro de animação voltado para jovens e adultos na América Latina, conduz o público por encontros que atravessam gerações e convidam a olhar o tempo com mais humanidade.
Pela primeira vez na região Norte, a montagem chega à Caixa Cultural Belém, no bairro Reduto, para quatro apresentações, entre quinta-feira (23) e domingo (26), sempre às 19h.
A estreia marca também o primeiro encontro de Mercurio com o público paraense. O argentino conta que desembarca na Amazônia brasileira cercado de expectativa e relembra a passagem pela Amazônia boliviana, anos atrás.
"Espero isso com muita alegria. Tomara que esse encontro seja o primeiro. Espero voltar a emocionar as pessoas”, afirma.
Ao lado da atriz Rosi Jacomelli, ele interpreta os personagens teatrais, que vão de bonecos gigantes a figuras conduzidas apenas pelos pés dos atores. Ao final de cada sessão, o artista permanecerá no teatro para um bate-papo com a plateia, ampliando as reflexões iniciadas durante o espetáculo.
Inspiração na infância
Primeira parte da trilogia "Velhos e Seus Netos", a montagem nasceu das lembranças da infância do artista. Muito antes de percorrer mais de 20 países apresentando espetáculos, Sergio cresceu cercado pelos avós maternos e paternos. Ao lado da casa da família, outro casal de idosos também passou a fazer parte de sua vida.
Hoje, ele reconhece que foi essa convivência que moldou seu olhar sobre o envelhecimento. "Cresci cercado pelos meus avós e por um casal de idosos que morava ao lado da minha casa e que também passei a considerar como avós. Hoje entendo que uma criança, além de não passar fome ou frio, precisa ser olhada. Eu fui olhado por seis velhos, e eles me ensinaram pelo exemplo”, conta.
Essas memórias deram origem aos personagens que habitam a montagem que traz ao Pará, considerada um dos seus maiores sucessos. Em cena, eles não aparecem como heróis nem como vítimas, mas como pessoas comuns, cheias de lembranças, humor, fragilidades e afeto.
De acordo com Mercurio, o objetivo nunca foi ensinar como enxergar a velhice, mas convidar o público a observá-la de outra maneira. "Sempre tive facilidade para ouvir e estar perto dos idosos. Meu desejo com esse espetáculo é que outras pessoas possam olhar para a velhice da mesma forma que eu aprendi a olhar desde criança”, diz.
O humor como caminho
Alzheimer, Parkinson, solidão, companheirismo e memória atravessam o espetáculo. Em vez de transformar esses temas em uma sucessão de lições morais, Mercurio escolheu outro caminho: o riso de identificação.
Para ele, toda aproximação com algo desconhecido costuma despertar medo ou preocupação. Depois desse primeiro impacto, porém, surgem outras possibilidades de compreensão.
"Assim que a gente entra naquilo e não fica preso à primeira impressão, pode ir além, entrar no raciocínio e, depois, no humor, na poesia e na intuição. Esse caminho eu encontrei sem querer. Só agora consigo colocar isso em palavras. A lição moral é séria e aburrida”, declara Sergio.
Quando os bonecos revelam o humano
Embora os seus personagens sejam tradicionalmente associados ao universo infantil, Mercurio acredita que são justamente eles que conseguem revelar aspectos profundos da condição humana.
Segundo o artista, aquilo que não possui vida desperta uma relação de confiança capaz de aproximar o espectador das emoções vividas em cena.
"A gente acredita muito mais naquilo que não está vivo. Os vivos mentem, enganam, confundem. Aquilo que não tem vida não trai. Os bonecos podem ficar muito mais próximos de nós”, afirma o artista.
Durante mais de três décadas de carreira, Sergio Mercurio percorreu a América Latina, criando espetáculos inspirados nas pessoas, nas culturas e nas paisagens encontradas pelo caminho. Hoje, porém, ele afirma viver outro momento artístico: "Antes de sair de viagem, eu queria conhecer os outros. Agora eu falo dos outros que eu conheci e aprendi a amar”.
Casado com uma brasileira, Mercurio diz que sua identidade foi construída pelos encontros que viveu ao longo da carreira. "Eu deixei de ser argentino. Sou a confluência com os outros”, dispara.
Essa transformação também mudou a maneira como cria seus espetáculos. Se antes sua curiosidade estava voltada para as distâncias e os territórios, hoje ela se concentra no tempo.
"Antes eu me interessava pelo espaço. Depois comecei a me interessar pelo tempo”, acrescenta.
Segundo Mercurio, a história não termina quando as luzes se apagam. Em diferentes países, ele percebeu que o público costuma prolongar a experiência compartilhando lembranças da própria família.
"Sempre tem uma pessoa que, ao finalizar o espetáculo, me fala de seu pai, de seu avô. Tem sempre alguma pessoa que se vê como ela vai ser. Tem também alguém que se aproxima para me agradecer e dizer que já sabe o que quer para seu futuro”, diz emocionado.
Serviço:
Espetáculo Velhos (Viejos)
- Datas: 23, 24, 25 e 26 de julho de 2026
- Horário: 19h
- Local: CAIXA Cultural Belém – Avenida Marechal Hermes, s/n, Armazém 6A, Reduto (Porto Futuro II)
- Ingressos:
- R$ 20 (inteira)
- R$ 10 (meia-entrada para os públicos previstos em lei e clientes CAIXA)
- Gratuidade para pessoas com 60 anos ou mais.
- Vendas: na bilheteria da CAIXA Cultural Belém e pelo site da CAIXA Cultural
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