Quadrilhas mantêm a chama da cultura junina acesa

Brincantes de vários bairros de Belém preparam suas coreografias nas ruas da cidade

Enize Vidigal

Junho chegou! E com ele a alegria das danças, trajes e comidas típicas apimentadas por curiosas simpatias e embaladas por muito arrasta-pé. É nos grupos de quadrilha que acontece uma das maiores paixões da quadra junina. A dança ilustra a primeira de uma série de matérias sobre a quadra junina que o #LibCult publica este mês.

Em Belém, brincantes de várias idades e de diversos bairros se entregam à tradição, dedicando-se por meses a rotinas intensivas de ensaios, que se tornam uma atração à parte nas ruas da cidade. Mas são nas apresentações em concursos oficiais, com caprichosas coreografias e trajes especiais, que essas estrelas do São João encontram o verdadeiro troféu: o entusiasmo do público.

"Somos um grupo de jovens do bairro do Guamá, onde procuramos manter viva a chama da cultura popular. A manutenção desse grupo é importante para que a gente possa não só trabalhar na quadra junina, pois também serve de resgate para os jovens ociosos do nosso bairro, tirando-os da rua. No grupo passamos a dança, mas também experiência de vida e educação e prepará-los para o mundo, que está tão violento", diz Tom Vilhena, presidente-fundador e coreógrafo do Encanto da Juventude, que tem 27 anos.

O grupo ensaia desde outubro do ano passado na Praça Bruno de Menezes, em São Brás, com 20 pares de brincantes. "Procuramos trazer a comunidade para dentro do movimento, pois sem o apoio dela fica quase inviável fazer cultura popular já que a gente não tem o total apoio do poder público, que ajuda sim, mas a gente gasta muito mais do que nos é proporcionado."

JURUNAS

No bairro do Jurunas, a Travessa Pariquis é local de ensaio do Santa Luzia, um dos grupos de quadrilha mais antigos de Belém, com 41 anos. Ao todo, 28 pares de brincantes de diversas idades, dos 12 aos mais de 30 anos de idade, ensaiam intensamente desde janeiro deste ano.

"Assim que termina a quadra junina, em outubro se começa a planejar o tema do ano que vem, selecionar a música e montar os desenhos (das roupas). Os desafios são a falta de segurança (para o ensaiar) e o apoio político que a gente não tem, mas a gente é guerreiro, a gente tira do nosso bolso, o brincante paga a própria fantasia. Aqui é uma família, todo mundo dança aqui, recebemos todos de braços abertos e fazemos o revezamento para brincar o São João, não importa se ganhou ou se perdeu (concursos), o importante é ficar todo mundo feliz", declara Max Magno, coreógrafo e marcador do Santa Luzia.

Para os grupos de quadrilha, em geral, os trajes podem ser o segredo mais bem guardado antes de cada apresentação. Este ano, Álvaro Freitas, de 22 anos, é o estilista oficial das misses simpatia e mulata do grupo Santa Luzia, do Jurunas, além de brincante. "É uma coisa muito boa. Vou aprendendo com o tempo. Tenho desenhos (croquis) próprios assinados. Outras quadrilhas já usaram as minhas roupas também", conta.

Universitário de Serviço Social, ele dança há cinco anos em grupos de quadrilha, reproduzindo a tradição aprendida com a mãe e os tios. "São João não é pra quem quer, é pra quem gosta".

Quadrilha junina é cultura passada de pai para filho. É comum entre os brincantes encontrar gerações de brincantes da mesma família. Edvaldo Magno, o "Vavá", presidente da quadrilha Santa Luzia, fundada há 41 anos junto com os irmãos, conta que foi nos ensaios namorou e casou com Vera.

Ela, que foi candidata a miss caipira por muitos anos, não deixou de dançar quadrilha nem na gravidez dos filhos Max e Lidyane. "Depois que eles cresceram, começaram a dançar comigo na quadrilha. Naturalmente, hoje, eles são os responsáveis diretos de tomar conta do grupo, de levar adiante. Encerrei a carreira de marcador de quadrilha no ano passado. Fiz isso por 40 anos. O meu filho Max está dando continuidade a partir desse ano. É possível que ele possa levar também por 40 anos e depois o meu neto (hoje com 8 meses), filho dele, quem sabe também possa". 

ICOARACI E OUTEIRO

O grupo de quadrilha Reino de São João, grande campeão do ano passado no concurso da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), vai disputar este ano com uma nova miss capira, a estudante de Nutrição, Larissa Ricca, de 22 anos, que traz uma experiência de 16 anos. Fundado no bairro do Guamá, há cinco anos, hoje o grupo reúne brincantes de vários bairros de Belém, inclusive dos distritos de Icoaraci e Outeiro e dos municípios de Ananindeua e Marituba.

Larissa Ricca é a miss da quadrilha 'Reino de São João', que reúne integrantes de vários bairros (Cristino Martins/ O Liberal)

Com passagem por diversos grupos, Larissa revela que é preciso ter "muito carisma e muita dança no pé" para chamar a atenção dos jurados. Mãe de uma filha de um ano, ela conta com a ajuda da mãe e da sogra para comparecer aos ensaios. "Quando a gente gosta, dá um jeito. Fui musa do 'É do Pará', fui miss capira campeã, miss mulata, já fiz parte de grupos folclóricos, participei de festivais internacionais, musa da Matinha do Carnaval. Tudo o que é parte de folclore eu me envolvo."

O coreógrafo do Reino de São João desde 2018, Clayton Moura, afirma que "determinação e muita atenção dos brincantes e também dedicação da diretoria" são fundamentais para a vitória. 'Tem que ter a harmonia do conjunto para chegar a esse mérito".

Desde 15 de janeiro, os ensaios acontecem todas as noites na Praça da Bandeira, no centro de Belém. O tema escolhido para a apresentação de cada escola a cada ano é o que orienta a definição da coreografia e dos trajes dos brincantes.

"Estamos com 20 pares. Fazemos laboratório, experimentações dos movimentos com os brincantes. Não são bailarinos, mas trabalhamos o limite de cada um. É feito um estudo (para definir a coreografia) sobre a temática da apresentação, sem fugir do tradicional, com bailado, que é a dança moderna e contemporânea", explica Clayton.

Cultura
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