Max Martins - 100 anos: quando a palavra vence o tempo
Poeta destaca-se no ineditismo de sua criação literária, com poemas que merecem ser descobertos por quem não abre mão de imagens e sons das palavras
Em 20 de junho de 1926, nascia o poeta paraense Max da Rocha Martins, ou simplesmente Max Martins. Max viveu na poesia. Por isso, ele vive sempre nos versos que legou ao público. Em especial, neste sábado (20), quando se comemora o centenário de Max, pois esse mestre das palavras sabia muito bem onde elas nascem e que, ao nascerem, nunca mais somem de vista. Então, ler poemas de Max Martins é a principal homenagem a esse autor intenso, como dizem pessoas que descobriram e descobrem a cada dia a pulsação das construções desse autor.
“Max Martins é um poeta de altíssimo timbre; seja pelo domínio e emprego de todos os registros verbais, em real proveito da ampla e reconhecida grande poesia, seja porque, a preço de trabalho, trabalho e insistência com o elemento verbal, soube firmar-se no posto de maior, tanto como os maiores de qualquer canto e tempo”, destaca Amarílis Tupiassu, professora aposentada da UFPA e da Unama, doutora em Letras/Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Seu arquivo de composições estéticas é vasto e conjuga signos em pluralidade tal, que abrange do visual, tendendo, sim, à poesia concreta, à letra e ao fragmento altamente significativo, indo a apurado labor com a poesia que se tece com a exploração do ritmo, da sonoridade apurada, com teimosia na extração da riqueza verbal interligada a todos os tempos ou em solidariedade a passado, presente e futuro, ou seja, com o discurso poético sempre moderno, porque sempre atual, apto a falar com todo e qualquer leitor”, pontua a educadora.
“Frente a um poeta dessa envergadura, só cabe afirmação de louvor e dar graças, alegria e conclamação à grata homenagem, quando de seu centenário”, completa Amarílis Tupiassu.
O poeta Vasco Cavalcante tem uma proximidade muito interessante com a obra de Max. “Max Martins foi meu vizinho no Conjunto Residencial do IAPI desde a minha infância. Sempre tive uma grande admiração por ele e por sua instigante e criativa poesia. Foi o primeiro grande autor/poeta a ler meus primeiros rabiscos literários. Sempre tive um grande apreço pelo ser humano e pelo imenso poeta que ele sempre foi”, diz Vasco.
A trajetória poética de Vasco está ligada ao Grupo Fundo de Gaveta, reunindo autores em Belém. “Eu fui um dos fundadores do grupo de poesia alternativa Fundo de Gaveta, que esteve na ativa entre 1981 e 1983, juntamente com Jorge Eiró, William Silva, Celso Eluan, Zé Minino e Yrú Bezerra. Quanto a essa história dos esboços (sobre papéis amassados com esboços de poemas de Max), o que me lembro a respeito é que tinha um personagem que vagava pelas ruas do Conjunto do IAPI e algumas vezes pegava em uma lixeira, em frente à casa do Max Martins, papéis com rascunhos de poemas escritos por ele, e os jogava pelas janelas de algumas casas, e às vezes até declamava nas ruas alguns trechos dos poemas”, relata Vasco.
Para Vasco Cavalcante, “Max Martins é uma das grandes referências poéticas de nosso tempo”. “Na forma como ele mesclava o pensar filosófico criativo na manipulação das palavras em sua essência, buscando não apenas um significado, mas uma expressão em que, em sua leitura, nos levava a enveredar por imagens, sonoridades, emoções e descobertas dentro de uma visão extremamente poética”.
Silêncio e palavra
“Amar o amargo de mim mesmo”. Esse verso/poema, do livro “Say it (over and over again)”, lançado pela Edfupa, diz muito sobre o valor literário e existencial da obra de Max Martins, e é ovacionado pela poetisa Rosângela Darwich, que conheceu o poeta.
“A obra de Max Martins dialoga com a tradição poética, mas, ao mesmo tempo, mantém um caráter profundamente experimental e singular, fazendo dele uma das vozes mais importantes da poesia amazônica e brasileira contemporânea”, diz Rosângela.
“Em seus versos, Max constrói uma tensão permanente entre silêncio e palavra, presença e ausência, transformando a linguagem em experiência. Seus poemas, de grande intensidade estética, convidam o leitor a participar da construção do sentido, explorando os espaços em branco, a sonoridade e a condensação verbal. Instigante e atraente é o encontro entre síntese verbal, força imagética e reflexão sobre a própria linguagem poética”, completa Rosângela.
Livros a ler
A bibliotecária Elisangela Costa, chefe da Seção de Obras Raras da Biblioteca Central da UFPA, destaca que “há uma boa aceitação da poesia de Max Martins nas bibliotecas, e a UFPA vem fazendo reedições frequentes de sua obra, que vem abastecendo as bibliotecas belenenses”.
No Setor de Obras Raras, em que ela atua, encontram-se alguns exemplares raros de títulos de Max Martins. “Temos um exemplar de 1952 da obra ‘O Estranho: poemas’, o primeiro livro publicado por Max Martins. Na realidade, foi Oliveira Bastos, um amigo dele, que o incentivou a publicar, porém Max, naquela época, não tinha condições de arcar com o valor da publicação. Remígio Fernandez, o proprietário das Oficinas Gráficas da Revista de Veterinária, o convenceu a pagar parcelado”.
“No entanto, Max submeteu o texto original ao concurso da Academia Paraense de Letras e acabou arrematando o Prêmio Vespasiano Ramos, e com o valor do prêmio ele acabou de pagar a edição. Foram produzidos 300 exemplares, os quais Max distribuiu para amigos e nunca se preocupou em vendê-los de fato. Por causa da tiragem limitada, essa obra se tornou difícil de ser encontrada e, por conta disso, um destes 300 exemplares compõe o Acervo da Seção de Obras Raras da BC/UFPA. Esse exemplar originalmente pertenceu à biblioteca particular da jornalista e militante paraense Eneida de Moraes", conta Elisângela.
A biblioteca pessoal de Max Martins foi doada para o Museu da UFPA, em 2010 - cerca de 2.500 volumes. A Universidade informa que as comemorações do centenário de Max Martins ocorrerão em setembro, começando com uma programação na Unicamp. Em seguida, haverá um evento em Belém, na UFPA, com a exposição das obras do Max e lançamento de cartas inéditas do poeta, com a presença do poeta e Age de Carvalho, discípulo de Max.
Max Martins faleceu em 9 de fevereiro de 2009, aos 82 anos de idade, e deixou um legado ímpar nas letras da Amazônia e se imortalizou como uma figura central na renovação da literatura brasileira no Século XX. Ele se destacou com uma poesia de vanguarda, transitando basicamente entre o modernismo, o concretismo e o experimentalismo, ou seja, distanciou-se do regionalismo clássico. Ajudou a criar a Casa da Linguagem, da qual foi o primeiro diretor, atuando com a escritora Maria Lúcia Medeiros. Max produziu colagens e desenhos em diários. Ele publicou dez livros. O 11º, com poemas de Max (“Say it (over and over”), foi lançado pela UFPA em 2021.
Na próxima quarta-feira (24), a Casa da Linguagem, da Fundação Cultural do Pará (FCP), será palco do Arraial das Letrinhas, evento que junta a cultura junina à literatura e homenageia o escritor paraense Max Martins, que completaria 100 anos em 2026. A programação ocorre a partir das 17h com entrada gratuita, com feira gastronômica e show de carimbó estilizado com a banda “Batucada Misteriosa”. No dia do centenário de Max Martins, ler poemas é sempre transcender o tempo e espaço.
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