Do rigor científico à liberdade literária Fábio Castro se aventura
Pesquisador e professor universitário lança o primeiro romance “O réptil melancólico”
Acostumado com o rigor científico e com o método de pesquisa, o jornalista e professor universitário paraense Fábio Castro, de 53 anos, se aventura na seara da literatura, de onde não pretende sair, com a edição do primeiro romance “O réptil melancólico”, escolhido pelo prêmio Prêmio Sesc de Literatura 2021. A obra vencedora do prêmio nacional será editada pela Record com previsão de lançamento em novembro deste ano e uma tour por 21 capitais brasileiras. Castro, que entregou a obra duas horas antes de finalizar as inscrições, adianta que o romance é apenas o primeiro de outros cinco em que já está trabalhando.
Apesar de se sentir um estreante, esse não é o primeiro livro de ficção que ele lança. Há 35 anos, o professor lançou o livro de contos “Terra dos Cabeçudos”. Depois a vida acadêmica o levou a se concentrar nas publicações científicas e nos livros de pesquisa. A pandemia com a obrigação de isolamento social e a morte de vários amigos fez Fábio Castro revisitar escritos literários antigos guardados há muito tempo, e sentisse a necessidade de dialogar com os amigos. “Todos os dias da minha vida eu leio literatura, sempre escrevi muito, mas somente agora pela pandemia, pelo cenário que estamos vivendo, resolvi recuperar o tempo e fazer da literatura um projeto”, conta.
O livro “O réptil melancólico” traz na história uma distopia, onde o Pará nunca aderiu a independência do Brasil e continuou a ser uma colônia portuguesa até os anos 1960, quando a Ditadura Militar negocia com Portugal o controle da colônia paraense. Neste contexto político de repressão dois primos vivem diferentes exílios.
“É um romance alegórico. Tão importante como a trama do livro são as imagens, é um livro um pouco imagético, tem algumas alegorias nele. De todos os imaginários, a cidade de Belém é o grande personagem do livro, mas é a Belém que foge um pouco dos estereótipos amazônicos, para uma Belém portuguesa", revela. A trama da história se passa durante o Regime Militar, quando alguns personagens saem de Belém e vão para o exílio, e em outro momento retornam para a cidade. O livro aproveita para tratar sobre a colonialidade e a auto colonialidade que a Amazônia e os amazônicos passam com a relação com o Brasil “desenvolvido”.
Como muitos romances, “O réptil melancólico” também fala um pouco sobre o próprio escritor, que ainda menino viveu a Ditadura Militar brasileira com o medo da invasão de sua casa e prisão da família. O pai de Fábio, militante comunista, ajudava amigos e companheiros perseguidos pelo regime a fugir. Ao mesmo tempo, dialoga com a outra experiência de Castro que é a vivência no exterior como estudante e pesquisador amazônico.
“O livro é muito atual e por isso acho que foi premiado. Ele dialoga com o momento atual do Brasil, tem a ver com o medo, a dinâmica do medo da violência do Estado. O Estado que pode acabar com a tua vida, isso é uma coisa importante, e junto disso a estratégia de fuga do país para quem precisa sobreviver", compara.
Habituando-se à nova pele de escritor, Fábio Castro espera estender o diálogo com todos os amigos e desconhecidos com o novo livro. “Eu não vou parar não. É uma coisa que foi tão importante fazer, e que eu havia deixado para depois. A pesquisa científica consome muito, exige um padrão narrativo que não é a literatura, e que tem que obedecer o cânone científico. Na experiência da pandemia, eu perdi muitos amigos, incontáveis amigos, várias pessoas que eu conhecia, e outras que nem tanto, mas que ficava pensando ‘um dia quero dialogar literariamente com essas pessoas, ler o que eles fazem’. Foi uma experiência fundamental investir tempo na literatura, é fundamental para um novo diálogo”.
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