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Com Kikitos na prateleira, Francisco Gaspar celebra trajetória e projeta novos trabalhos

Ator paraense premiado em Gramado por ‘Pão Doce’ reflete sobre origens amazônicas, processo criativo sem formação tradicional e bastidores de sua caminhada no audiovisual

Bruna Dias Merabet
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O ator, jornalista, roteirista e fotógrafo paraense Francisco Gaspar alcançou um marco histórico na carreira ao conquistar seu segundo Kikito de Melhor Ator no consagrado Festival de Cinema de Gramado, este ano ao interpretar Fernando, protagonista do curta-metragem “Pão Doce”. Sua primeira estatueta veio em 2007 com o curta-metragem “O.D. Overdose Digital”, de Marcos DeBrito. Já em 2014, o drama de guerra “A Estrada 47”, do qual o paraense participa, foi o grande vencedor do Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro do 42º Festival de Gramado.

“Receber o prêmio me coloca num lugar de reconhecimento e não de ‘vitória’. É um reconhecimento de que o caminho seguido, a estrada caminhada estava na trilha certa, só isso. O artista criador nunca para de buscar, cavar, experimentar e isso será pra vida toda. E, às vezes, nessa busca não acertamos, não funcionamos. Normal. Eu nunca quero estar certo de tudo, sempre quero estar na dúvida se acertei ou não. Não é errar, fracassar, na real, é não funcionar. Se for fracasso também, não tem problema, porque, afinal, eu tenho um certo pé atrás com quem só vence, só acerta. O fracasso é rico também. Gosto de gente que fracassa e levanta, tenta de novo. Acho bonito, acho dramatúrgico, tem conflito, entende? Eu sou um caboclo paraense que vai tentar sempre, quero sempre seguir tentando. Mas, ganhar esse prêmio dezenove anos depois me fortalece, me diz que posso acertar algumas vezes”, analisa o artista.

Ao refletir sobre a composição de Fernando, protagonista do curta-metragem “Pão Doce”, de Wesley Gabriel Silva Santos, Francisco Gaspar destaca a profunda identificação pessoal e social com o personagem. O ator afirma que dar vida a um homem brasileiro, caboclo, pardo, negro e periférico, além de vivenciar os desafios da paternidade solo e da rotina sob a escala 6x1 sem ser pai na vida real, transformou sua visão de mundo. Para o artista, a experiência agregou um valioso repertório político e intelectual, tornando-o um homem diferente após o filme e consolidando o maior ganho de sua trajetória no projeto.

“Eu sempre penso em como trazer pra mim, pro meu corpo, pro meu interior a personagem que me apresentam. Eu sou um ator que precisa de tempo pra criar o tempo certo para cada personagem, não sou um ator que pega um roteiro e já sai fazendo na forma ou, até mesmo, no talento que a pessoa tem. Eu não tenho esse talento. Eu não tenho formação, graduação em Artes Cênicas, aliás, fui negado em todas as escolas de teatro aqui em São Paulo nos anos 80. E eram poucas, hoje temos muitas e boas escolas de teatro. Então, a negação que recebi em escolas me fez ir mais fundo fazer oficinas de teatro e formação livre, buscar meus próprios métodos, fazer colagens e chegar a um lugar que é só meu e que pode não funcionar pra outros. Voltando ao “tom certo” que tu muito bem citaste, isso também tem a ver com a direção, a regência de quem está dirigindo o filme. É o diretor quem diz que o caminho que tu tomaste é o que ele quer e pensou pro personagem. Eu adoro os diretores, eu adoro ser dirigido e tenho a sorte de encontrar com diretores que amam atores e gosta de dirigi-los”, pontua.

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Em sua trajetória no audiovisual e no teatro paulistano, o ator paraense destaca como suas origens e vivências no Pará atravessam de forma profunda sua entrega cênica em projetos de diferentes regiões do país.

“Eu já fiz pracinha na segunda guerra mundial, traficante barra pesada, chapeiro, padre, mordomo de presidente da república, carroceiro e uma infinidade de personagens que daí cai exatamente naquilo que eu falei anteriormente: eu tenho a cara do brasileiro que está na rua, na vida. Ser um homem amazônida me diferencia do homem urbano, e, repare bem, não estou dizendo que sou melhor, estou dizendo que traz outras vivências que o homem só urbano não tem, porque, ao mesmo tempo que sou amazônida, sou também urbano porque moro em São Paulo há 42 anos. Quando sou convidado a criar homens simples, da roça, porque sim, meu pai era roceiro, adventista e pai de 14 filhos, de cara eu volto a ser a criança que trabalhava na roça com meu pai no sul do Pará até início dos anos 80. O homem urbano me traz a vivência mais recente, dos últimos anos, do dia a dia, da dureza física e opressora. E olha, aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro todos olham pra mim como um homem nordestino, nunca dizem que sou paraense. Sou filho de maranhenses e trago o sotaque do Maranhão e não o do paraense nato”, conta o ator.

O reconhecimento nacional abre portas para um ano ainda mais movimentado na trajetória do paraense. Francisco Gaspar antecipa que novos trabalhos já estão a caminho no cinema e no teatro, reafirmando sua versatilidade e o compromisso de continuar levando histórias potentes para o público brasileiro: “Tenho alguns projetos de curta-metragens pra filmar, um deles é uma adaptação que fiz do livro Eu te Amo, Ivan de Wesley Barbosa, grande escritor da quebrada paulista, menino promissor, dar andamento a meu roteiro de longa-metragem e vou arriscar meu primeiro monólogo no teatro. Trótski é uma dramaturgia que está nascendo aos poucos e deve chegar aos palcos até fim do ano que vem. No momento estou estudando tudo sobre a Revolução Russa e me alimentando com informações daqueles grandes homens e mulheres que fizeram a maior revolução no início do século passado. Teatro é suor, lapidação e luta. Há outros projetos que são mais sigilosos, que não podem sequer ser mencionados por conta de contrato. Em 2027 terei muito açaí e cupuaçu na cuia, com farinha baguda. O tacacá virá na festa de lançamento”.

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