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Zélia Amador de Deus tem história de vida e luta contada em documentário

'Amador, Zélia', de Glauco Melo, remonta trajetória da personalidade paraense das artes

Lucas Costa

Nome das artes no Pará, listada ainda entre os principais do país quando trata-se da teóricos da luta antirracista, a professora emérita da UFPA, Zélia Amador de Deus, tem finalmente sua trajetória de vida e luta traduzida para as telas. O documentário “Amador, Zélia”, de Glauco Melo, refaz sua trajetória da infância aos dias atuais, utilizando diversas linguagens dentro do estilo documental, sob o roteiro de Ismael Machado.

No filme, atualmente em fase de finalização, Zélia apresenta histórias como a primeira vez que lembra de ter sofrido racismo, quando tinha pouco mais de nove anos. Filha de uma empregada doméstica vinda da ilha do Marajó, no Pará, Zélia fazia os primeiros anos numa escola administrada por freiras. As notas chamavam a atenção. Não menos que a cor de sua pele, descobriria depois.

A escola iria fazer um espetáculo de dança, baseado em religiões umbandistas. A freira-professora perguntou quem gostaria de participar. Zélia levantou o braço.  A irmã optou por uma menina branca. “Ela tinha uma cara de cavalo”, lembra Zélia. Para justificar, a professora explicou que naquelas atividades sempre eram escolhidas meninas mais ‘ajeitadinhas’. “E eu não me achava desajeitada, pelo contrário”, lembra Zélia Amador.

A missão de documentar a vida da personalidade paraense foi assumida por Glauco Melo, Aline Paes, Michelle Maia e Ismael Machado, que se uniram sob a ideia de trabalhar juntos em projetos de caráter humanista.

“A proposta feita pelo Glauco, a gente chegou ao consenso de ser a Zélia Amador, um personagem ideal para o que pretendíamos. Depois disso, foi que, após entrarmos em contato com a Zélia, ela nos deu total bênção sobre o projeto. Foi incrível o apoio dela desde o começo”, relembra Ismael Machado.

Com uma personalidade e história tão potentes em mãos, o documentário então tomou novas formas, saindo da caixinha do formato depoimentos/imagens de arquivo. “No meio do caminho, apaguei tudo o que estava escrevendo e caiu a ideia de misturar linguagens. A Zélia não tinha - e não tem - imagens de infância, algumas imagens de adolescência...etc. Então, a solução foi usar outros elementos para contar essa história. O primeiro foi usar ilustrações animadas. Foi quando a gente encontrou o Joziel, um jovem que foi aluno da Zélia na UFPA e que a admira profundamente. Foi um achado”, conta Ismael.

A tarefa de Josiel Paz, jovem ilustrador de 21 anos, foi a de contar algumas passagens da vida de Zélia por meio da arte da animação. O projeto tornou-se ainda mais significativo para o artista, que também encontrou no trabalho um “alívio às dores que o racismo e as inúmeras fobias sofridas lhe causavam”.

“Estar nesse projeto, falando de Zélia especificamente, é entusiasmante e desafiador. Ela foi uma das primeiras professoras que tive na universidade, a primeira preta. E vê-la naquela posição me deu mais coragem para não desistir. Zélia não é qualquer professora. Ensinou a turma, apenas provocando debates, discussões, tirando máscaras que tapavam o racismo e a intolerância pré-existente advinda da nossa criação”, conta Josiel.

Para além das animações, o documentário traz ainda as artes cênicas para contar a história da renomada professora. Uma das ideias propostas no roteiro de Ismael Machado foi a de sublinhar algumas passagens da trajetória de Zélia com uma dramatização, simulando um monólogo teatral. Quem assume esse papel é a atriz e ativista cultural Carol Pabiq - a DJ Ananindeusa.

A atriz tem experiência, mas estava afastada dos palcos e das câmeras há cerca de dez anos. Para Carol, “Amador, Zélia” foi um reencontro com a arte da interpretação.

“Costuma-se chamar de ‘prêmio’ ou de ‘presente’ quando a gente recebe um trabalho para dar vida a um personagem. E depois de 10 anos longe dos palcos e dos sets de filmagem ser convidada para viver Zélia Amador de Deus no cinema é uma honra. Pois Zélia é muito querida e admirada por mim, por artistas, por ativistas, pela intelectualidade, pela sociedade como um todo”, avalia Carol.

As filmagens de “Amador, Zélia” já foram encerradas, e atualmente a equipe trabalha na edição. “A ideia é que o doc caminhe pelos espaços que forem surgindo, tudo está mais complicado com essa pandemia. Não era para o Brasil estar nessa situação, mas estamos...então todos os passos tem que ser pensados a partir dessa lógica”, explica Ismael.

Cinema
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