Carnaval no interior do Pará valoriza tradição e identidade cultural
Blocos de Cametá, São Caetano de Odivelas e Breves mantêm manifestações próprias e mobilizam milhares de foliões durante a folia
Com a chegada do carnaval, a festa ganha força para além de Belém e se espalha pelos municípios do interior do Pará. Em diferentes regiões do estado, blocos tradicionais mantêm vivas manifestações culturais próprias, mobilizando milhares de foliões todos os anos. Cidades como Cametá, São Caetano de Odivelas e Breves constroem uma folia marcada pela identidade local, reunindo memória, criatividade e sentimento de pertencimento.
No nordeste paraense, Cametá é um dos municípios onde o carnaval se destaca pela participação popular e pela força dos blocos de rua. Um deles é o Bloco do Parente Daniel, criado em 2016 a partir da reunião de amigos durante o período carnavalesco.
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Bloco do Parente surgiu da convivência entre amigos em Cametá
Idealizador e organizador do bloco, Daniel Novaes contou ao Grupo Liberal que a iniciativa tem relação direta com suas vivências na cidade. Filho de cametaense e morador de Belém, ele costumava passar as férias e o carnaval no município, sempre acompanhado de amigos.
“Como eu morava em Belém, por ser filho de cametaense, eu passava as férias e o carnaval em Cametá. Então convidava amigos para virem à cidade e, como aqui todo mundo se chama de parente, por volta de 2016 decidimos inventar um bloquinho. Reunimos muitos amigos na Ponte do Assunção, que é um lugar bastante conhecido na cidade, fizemos uma coleta e saímos atrás do carro de um amigo nosso no sábado de carnaval”, relembrou.
Após o encerramento da sociedade com o ex-cunhado, Daniel decidiu seguir com o projeto e deu início a uma nova fase do bloco, que passou a se chamar Bloco do Parente Daniel. Segundo ele, a mudança marcou um novo ciclo da festa.
“Até 2024 nós fazíamos o bloco juntos. Depois desse ano, encerramos a sociedade e eu continuei com o bloco. Em 2025, quando fiz o bloco sozinho, coloquei o meu nome e pegou. Foi um sucesso no ano passado e, para este ano, a expectativa é ainda maior, já que vendemos 70% dos nossos abadás”, destacou.
Arrastão do Boi Faceiro leva bois de máscara ao carnaval de São Caetano
No município de São Caetano de Odivelas, no nordeste paraense, o Arrastão do Boi Faceiro é um dos principais símbolos do carnaval local. Criado em 2006, o bloco surgiu com a proposta de valorizar elementos culturais próprios da região e diferenciar a festa das referências mais comuns do carnaval nacional.
Coordenador do arrastão, Rondi Palha explica que a ideia nasceu a partir da percepção de uma padronização do carnaval, marcada por influências como abadás, micaretas e trios elétricos. “Aqui em São Caetano, notamos que havia elementos diferentes, de uma manifestação muito forte, que poderiam ser introduzidos no carnaval e tornar a festa mais singular, que são os bois de máscara”, afirmou.
Apesar da resistência inicial de parte da população, que associava os bois de máscara à quadra junina, o bloco se consolidou ao longo dos anos. “Quando saímos no carnaval, algumas pessoas mais tradicionalistas criticaram, dizendo que o boi era algo do mês de junho. Mas vimos que deu certo colocar um elemento nosso no carnaval e seguimos com a proposta. Este ano vamos completar 20 anos de existência”, explicou.
Entre os momentos marcantes da trajetória do arrastão, Rondi destaca a criação do concurso de fantasias, em 2011, que se tornou um dos pontos altos do desfile. A proposta incentiva a criatividade dos participantes, sem a obrigatoriedade de camisetas ou abadás.
“Incentivamos as pessoas a virem fantasiadas, não com fantasias do Boi Faceiro, mas com toda a criatividade que o brasileiro tem. No final, premiamos tanto participantes individuais quanto grupos fantasiados”, ressaltou.
Breves mantém blocos tradicionais que atravessam gerações
Na Ilha do Marajó, o município de Breves também preserva uma tradição carnavalesca forte, com blocos que reúnem milhares de foliões todos os anos. Entre os mais conhecidos estão o Bloco Caranguejo Breves e o Bloco dos Injuados.
Fundado em 1994, o Bloco Caranguejo Breves se destaca pelo desfile irreverente e animado. A criação surgiu de forma inusitada, quando o fundador Raimundo Leão, conhecido como Panga, presenciou a cena de um homem embriagado que caiu na lama. A imagem inspirou a ideia de criar um bloco baseado na figura do caranguejo.
Já o Bloco dos Injuados é ainda mais antigo. Criado em 1978, o grupo nasceu de forma simples, reunindo amigos para brincar o carnaval nas ruas da cidade. Com o passar dos anos, tornou-se símbolo de resistência cultural e diversidade, tendo como um de seus marcos a criação da Ala LGBT, ainda nos anos 1980, período em que a diversidade enfrentava fortes barreiras sociais e culturais.
Carnaval como expressão da cultura popular paraense
Entre encontros de amigos, resistência cultural e manifestações que atravessam gerações, os blocos do interior do Pará mostram que o carnaval vai além da festa. A folia se consolida como espaço de identidade, memória e expressão popular, fortalecendo laços comunitários e reafirmando a diversidade cultural paraense.
Cada município imprime características próprias à sua celebração, transformando ruas e praças em espaços de convivência, tradição e celebração coletiva durante o carnaval.
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