Conheça a história de Antônio Tavernard, o autor da letra do hino do Clube do Remo
Tavernard construiu obra diversa em várias linguagens artísticas, ainda pouco conhecida do grande público
Desde domingo (23), o Hino do Clube do Remo voltou a ecoar pelo Pará após o Leão Azul conquistar vaga na Série A do Campeonato Brasileiro de 2026. A celebração reacende também a história do autor da letra do hino, o poeta Antônio de Nazaré Frazão Tavernard — a melodia é de Emílio Albim. Muito além do clássico azulino, Tavernard construiu obra diversa em várias linguagens artísticas, ainda pouco conhecida do grande público.
Segundo o historiador e tenente coronel da Polícia Militar Itamar Gaudêncio, o hino foi composto pelo poeta e atleta de esportes náuticos Antônio Tavernad, do Clube do Remo, em 1933, influenciado por suas experiências de atleta e cronista da revista "A Semana". "O hino é uma adaptação da marchinha de Carnaval composta pelo amigo dele Emílio Albim que tinha composto letra e melodia para o bloco carnavalesco Cadetes Azulinos. Tavernard trocou algumas palavras, e o hino acabou sendo publicado após sua morte ocorrida em 1936 e da de seu amigo Emílio Albim (falecido em 1939) por baluartes do "Clube de Periçá" somente em 1941 (jornal "O Estado do Pará, em 4 de novembro de 1941)", destaca Gaudêncio.
O sobrinho-neto do poeta, o diretor de cinema de animação Cássio Tavernard, pesquisou a obra do escritor em seu mestrado na UFPA ("Quandú - Possíveis diálogos entre literatura e o cinema de animação"). Ele conta que Antônio Tavernard nasceu em Belém em 10 de outubro de 1908 e morreu jovem, aos 26 anos, em 26 de maio de 1936. Dramaturgo, jornalista, compositor e poeta lírico, abordava temas como amor, morte e esperança. Foi um dos redatores de A Semana, revista cultural de grande circulação nos anos 1930.
Em vida, Tavernard publicou apenas um livro, "Fêmea", de 1930, obra que, segundo Cássio, merece ser revisitada pelo caráter crítico e contemporâneo. Apesar de ser lembrado sobretudo pela poesia, o escritor produziu também crônicas, contos e peças teatrais, como "A Casa da Viúva Costa", "A Menina dos 20 Mil" e "Seringadela". Na música, destacam-se "Foi Boto Sinhá", "Romance" e "Matinta-perera", parcerias com o maestro Waldemar Henrique. Postumamente, sua poesia foi reunida nos livros "Os Sacrificados" e "Místicos e Bárbaros".
A vida do poeta foi marcada pela hanseníase, doença incurável para a época. A família construiu um espaço isolado no chamado Rancho Fundo, no bairro de Nazaré, onde ele escrevia. Ali, consolidou a maior parte da sua obra. Entre as relíquias preservadas por Cássio estão uma carta autógrafa sobre a recepção crítica de "Fêmea" e um fac-símile de "Místicos e Bárbaros". O Hino do Clube do Remo, conta ele, é patrimônio afetivo da família: aniversários costumam terminar com seus membros cantando-o em coro.
Para o professor Paulo Nunes, da UEPA e Unama, Tavernard é um poeta “em trânsito”: situado no Modernismo, mas ainda influenciado pelo Romantismo. A doença, que o afastou da vida pública, impregnou sua produção de melancolia. Já a parceria com Waldemar Henrique revela o Tavernard nativista, conectado ao imaginário amazônico, às lendas e às vozes populares. Essa aproximação, segundo Nunes, permitiu que Waldemar se afirmasse como um dos grandes nomes do Modernismo musical brasileiro.
Como atleta remista, Tavernard conhecia a mística esportiva do clube que ajudou a eternizar em verso. Para o professor, o Hino do Remo destaca-se entre os hinos clubísticos do país por sua força épica e estrutura literária sólida, construída em quadras com refrão marcante. “Todo remista que se preza sabe cantar seu poema com orgulho raro”, observa Nunes. Ele afirma que Tavernard se sentiria honrado ao ver sua obra renascer como trilha da campanha que levou o Clube do Remo à elite do futebol brasileiro quase um século após sua criação.
O escritor e pesquisador Alfredo Garcia, estudioso de Tavernard desde 1986, ressalta que a produção do autor transita entre Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo. Seus poemas, analisa Garcia, ultrapassam o contexto biográfico e se mantêm atuais. No caso do hino, ele destaca o diferencial de exaltar tanto a bandeira azulina quanto os atletas, reforçando a identidade remista com poesia simples, porém inesquecível.
Alfredo pretende lançar uma seleta dos contos de Tavernard já publicados “para sair em 2026, quando teremos os 118 anos de nascimento do poeta e 90 de sua precoce partida”.
Em Icoaraci
Há cerca de um ano, o Coletivo Tavernard atua na comunidade de Icoaraci disseminando informações sobre a vida e obra do poeta azulino. Esse grupo atua com o projeto Tavernard Itinerante, em que leva o universo do autor a estudantes de Icoaraci . São realizadas oficinas de arte e música, encontros e saraus literários, além do Cine Club Tavernard e uma biblioteca comunitária.
"Se fosse pra descrever em uma palavra a história de vida e a obra do Poeta Antônio Tavernard, com certeza, eu diria: Resiliência", enfatiza o estudante de Letras e pesquisador Adalberto Moura Neto, da coordenação do Coletivo. O grupo pretende produzir um documentário sobre o poeta, entre outros projetos.
A redescoberta de Antônio Tavernard vai além da celebração esportiva. O hino do Remo, que emociona gerações, é só a porta de entrada para a obra de um artista multifacetado que soube transformar dor, paixão e pertença em literatura, música e memória. A campanha do Remo devolveu-lhe o eco de sua criação e abriu caminhos para que seu legado, interrompido precocemente, seja enfim percebido na dimensão que merece.
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