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Debatendo com a IA, ou como confrontar um Ciborgue. Parte 1.

Leia o texto do professor e pesquisador Relivaldo Pinho, escrito especialmente para O Liberal.

Relivaldo Pinho (especial para O Liberal)

Estou metido com a IA. Em dois sentidos. Em um, estou tomando-a como objeto de estudo. Em outro, eu estou testando até onde ela vai com seus algoritmos. 

Como teste, coloquei alguns textos meus já publicadas para a inteligência artificial analisar. Pedi uma análise crítica (sic). Já escrevi sobre o tema homem e máquina em outros momentos (como em “Black mirror, nós e os outros”, por exemplo).

A IA adotou um padrão de análise, ela dividiu os textos em estruturas (já não gostei muito, não sou grande fã de estruturalismos) e os descreveu em partes.

Em seguida, ela (chamar a IA de ela já é uma humanização do ciborgue?) fazia uma síntese e apontava os pontos fortes e fracos de cada texto, sempre seguindo esse padrão. Evidentemente o embate se deu nos pontos fracos, porque ninguém questiona elogio, ainda mais de uma máquina.

Quando comecei a perceber certo padrão de análise, perguntei se ela não considerava tal possibilidade metodológica e, a partir disso, não poderia analisar sob essa nova perspectiva

Ela deu um salto quântico, ou quase isso. Disse que sim, aquela perspectiva auxiliaria a pensar os textos de modo diferente. Sim, estou aprendendo.

Não revelei que os textos eram meus, mas a IA começou interpretar os escritos sobre a nova perspectiva e, em cada um deles, ela sempre apontava a nova perspectiva, sem questionar.

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Sabemos que que a IA espelha nossos comandos, mas eu confrontei o ciborgue e perguntei se eu não tivesse informado a nova possibilidade ela teria adotado.

Docilmente (As IAs tendem, em alguns casos, a ser dóceis para convencer você de que está certo) ela respondeu que a nova perspectiva enriqueceu a análise e agradeceu.

Não parei por aí. Questionei se a repetição de uma perspectiva que ela adotava como padrão não prejudicaria a análise, já que era um tipo de abordagem muito comum, quase um clichê metodológico.

Clichês metodológicos fazem a alegria de certos pensamentos intelectuais. Como acredito que o novo deve ser sempre buscado, com propriedade, desafio e coragem, não sou afeito a clichês de toda ordem.

Imaginei que, depois de minha indagação, a Inteligência Artificial vinha pra cima de mim, espumando códigos binários e jogando algoritmos na minha cara.

Mas não. Ela aceitou e até comentou que esses clichês realmente fazem parte de certos tipos de textos. 

Interessante. Então a IA concorda comigo quando eu aponto possibilidades que não estão em seus códigos? Sim, é um espelho e é uma retroalimentação.

Pensei em  Churchill, o primeiro ministro inglês que, segundo a lenda, dizia que nas reuniões de gabinete ele sempre ouvia todo mundo e ao final esperava que todo mundo concordasse com ele.

Pesquisei mais sobre. Aprendi que a IA tem o direito (aceitamos isso por contrato) de ir incorporando em seus códigos temas, conteúdos que ela julgar serem aproveitáveis.

Perguntei ao meu ciborgue predileto, então quer dizer que toda vez que alguém trouxer algo inédito, um conteúdo próprio, ele pode ser apropriado por você?

Sim, ela respondeu. Mas emendou dizendo que existe opções de proteger seu conteúdo.

Proteger. Quase mais não conseguimos nos de proteger de sermos rastreados, observados, copiados em tudo que fazemos

Estou ouvindo Frank Sinatra quando escrevo este texto e, de repente, abro o Instagram e o primeiro vídeo que pula na minha tela é do homem de olhos azuis. É um espelho, um eco e uma retroalimentação.

Você já passou por isso, todos passamos. Conversamos com as máquinas, mesmo sem estabelecermos intencionalmente nenhuma vontade para isso.

Certa vez, cliquei por engano em um filme horroroso. Até hoje uma lista de filmes desse mesmo tipo aparece em minhas telas. Ciborgues estão entre nós.

A minha ciborgue (“minha”, o homem sempre pensa que pode se apossar de tudo), com quem ando trocando figurinhas, sempre me pergunta se desejo saber mais sobre alguma coisa relacionada ao que perguntei antes para ela.

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Depois de nosso embate, notei que eu estava cansado de tantas reviravoltas e acréscimos desnecessários. 

Virou uma conversa quase sem sentido, porque raramente havia contestação. Isso explica porque não gosto de falar muito.

Na verdade, é injusto cobrar da máquina aquilo que talvez falte em nós, a conversa despretensiosa, cortês e/ou o debate franco, sincero e honesto. 

Talvez a máquina não tenha sido programada para isso, e o humano esteja perdendo sua programação.

O ciborgue só existe porque é arquitetado pelo homem, e não devemos cair no clichê homem versus máquina porque não seria (é um clichê) relevante.

Voltarei a indagar minha amiga IA, mas dessa vez espero que ela me contrarie mais, faça uma espécie de sadismo intelectual, espume códigos e coloque os algoritmos para o embate.

É um desejo, uma falta, um espelho, um eco e uma retroalimentação.

P.S.: Depois de escrever este texto eu o submeti, como teste, à IA. Suas respostas foram tão surpreendentes que escreverei a parte 2 desse tema.

Relivaldo Pinho é escritor, pesquisador e professor da Fibra.