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Por Marco Antônio Moreira

Coluna assinada pelo presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), membro-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e membro da Academia Paraense de Ciências (APC). Doutor em Artes pelo PPGARTES/UFPA; Mestre em Artes pela UFPA. Professor de Cinema em várias instituições de ensino, coordenador-geral do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), crítico de cinema e pesquisador.

François Truffaut: O Homem que amava o Cinema

Marco Antonio Moreira
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O meio cinematográfico celebrou simbolicamente esta semana os 90 anos do cineasta francês François Truffaut, um dos artistas mais importantes do cinema. Truffaut faleceu aos 52 anos, em 1984, após ser diagnosticado como um tumor cerebral no ano anterior. Sua obra, desde então, tem sido exibida e debatida a partir de uma série de filmes e sua trajetória cinéfila que, certamente, tem características de um personagem improvável que conseguiu vencer diversas adversidades até encontrar a grande paixão de sua vida: o cinema.

Truffaut teve uma infância e adolescência conturbadas. Ele nunca conheceu seu pai biológico e foi criado pelos avós maternos, após a rejeição da mãe. Suas primeiras influências na arte chegaram por meio de sua avó que gostava de literatura e música. Aos sete anos, ele assistiu Paraíso Perdido (1940) de Abel Gance e desenvolveu uma paixão intensa pelo cinema. Mas antes de se dedicar a esta arte ele teve longo percurso de conflitos familiares que, entre outras razões, o levaram a cometer atos de delinquência. Truffaut tinha o hábito de faltar às aulas para assistir aos filmes exibidos nos cinemas franceses. Na adolescência, aos 14 anos, abandonou a escola e tentou sobreviver nas ruas de Paris, mas sua paixão pelo cinema o levou a novos rumos.

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Em 1947, ele fundou o cineclube Cercle Cinémane (Círculo de Cinema) que não durou muito tempo e encerrou suas atividades. Felizmente, André Bazin, cineclubista e crítico de cinema, o ajudou e incentivou para que Truffaut se dedicasse ao cinema. Em 1951, Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca criaram a revista Cahiers du Cinéma que em pouco tempo tornou-se uma publicação influente no meio cinematográfico francês e, posteriormente, mundial. Bazin indicou Truffaut para escrever na revista que iniciou sua carreira como um brilhante crítico cinematográfico. No final desta década, seu interesse pelo cinema foi ampliado e ele tornou-se diretor inicialmente em curtas-metragens como Une Histoire D'Eau (Uma História da Água) (1958) co-dirigido por Jean-Luc Godard. Em 1950, com Os Incompreendidos, seu primeiro longa metragem, ele foi aclamado pela crítica e público e recebeu diversos prêmios. Nesse período, ao lado de Godard, Jaques Rivette e Eric Rohmer, críticos da Cahiers du Cinema que se tornaram cineastas, ele fundou o movimento Nouvelle Vague (Nova Onda) com a proposta de se criar outros modos de se pensar o cinema.

No início dos anos 1980, em um período de intenso movimento cineclubista em Belém, François Truffaut foi um cineasta que chamou minha atenção. Naquele período assisti Os Incompreendidos (1959). Encantei-me com a história e maneira que Truffaut construiu sua narrativa cinematográfica em torno do jovem personagem Antoine Doinel em momentos de (sobre) vivência em uma sociedade que ele não consegue entender e se adaptar. Posteriormente, tive a oportunidade de conhecer outros filmes de sua autoria como Jules e Jim (1962), Fahrenheit 451 (1966), A Noite Americana (1973), A História de Adèle H (1975), O Quarto Verde (1978), O Último Metro (1980) e A Mulher do Lado (1981).

Estes filmes demonstravam características de um cineasta preocupado com temáticas humanas em trabalhos de diversos gêneros. Do drama social de Os Incompreendidos à violência da guerra em O Último Metro, da romance progressista de Jules e Jim ao drama afetivo de A Mulher do Lado, era perceptível observar personagens e histórias diferentes unidos em torno de situações similares, em diversas épocas e contextos, a partir das escolhas de um cineasta que, preferencialmente, destacava as humanidades e fragilidades em seus personagens principais.

Sempre compreendi a obra de Truffaut como uma expressão artística que evidenciava um humanismo que surgia em personagens respeitados pelo diretor em suas complexidades e contradições sem julgamentos. Essa proposta de Truffaut fica evidente, por exemplo, em todos os filmes que tem o protagonista Antoine Doinel, alterego de Truffaut. Acompanhei nestas produções a trajetória deste personagem em suas experiências até a fase adulta enfrentando as complexidades da sua vida.

Lembro-me do sucesso de público de A Mulher do Lado com Gerard Depardieu e Fanny Ardant no Cinema 1. Sala de cinema lotada para assistir uma história de um amor perdido entre um casal que se reencontra anos depois de um intenso relacionamento.  Será que esse filme teria sucesso com o público atual? Espero que sim. Nos anos do VHS, lembro-me de assistir um filme de Truffaut que não foi lançado nos cinemas brasileiros: O Quarto Verde. Neste filme, o personagem Julien Davenne (interpretado por Truffaut) monta um santuário para sua falecida esposa e todos os amigos mortos, a fim de preservar sua memória. Um filme emocionante!

Espero que a memória da obra filmada ou escrita de François Truffaut seja preservada e valorizada. A melhor maneira de homenagear um artista é ter curiosidade sobre seu legado, logo, vamos lembrar e conhecer o legado artístico de Truffaut!

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