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Usuários reclamam do atendimento na Unidade Básica de Saúde do Satélite, em Belém

Moradores afirmam que chegam à unidade e voltam para casa sem atendimento

Dilson Pimentel

Mais uma unidade de saúde de Belém virou alvo de denúncias de usuários diante da insatisfação com o atendimento prestado na rede pública municipal. Desta vez, pacientes da Unidade Básica de Saúde do Satélite, no bairro do Coqueiro, trecho de Belém, reclamam da dificuldade para conseguir consultas, da falta de medicamentos e de problemas na estrutura da unidade. Os relatos apontam uma rotina de filas, demora e pessoas que deixam o local sem conseguir atendimento médico, exames ou serviços odontológicos.

Na manhã desta quinta-feira (7), a autônoma Emanuelle Fernandes da Silva, de 25 anos, contou que já precisou procurar a unidade várias vezes e que frequentemente encontra dificuldades. Segundo ela, o atendimento é prejudicado pela grande quantidade de pessoas e pela falta de estrutura.

“Sim, vim aqui várias vezes. A gente volta porque não tem atendimento, ou então está muito lotado. Muita gente na frente”, disse. “Aí, poxa, a gente só vem e gasta dinheiro aqui e vai. Às vezes também tu vai lá na farmácia e não tem remédio. Vacina também. Quase não tem pra criança. Toda vez a sala da vacina está em reforma”, afirmou. Desta vez, Emanuelle levou a filha de 5 anos para uma consulta odontológica, mas o atendimento precisou ser remarcado por causa de um problema na cadeira do consultório.

“Hoje eu vim trazer a minha filha aqui no dentista, aqui para olhar o dente dela. Aí a moça lá do consultório falou que a cadeira lá da dentista está com problema. Aí vai marcar para outro dia”, contou. A autônoma disse que precisou interromper as atividades de casa e pagar transporte para conseguir chegar à unidade, mas acabou sem atendimento.

“É, eu gastei um dinheiro. Só viagem perdida. Gastei R$ 20”, lamentou, ao se referir ao mototaxista que a deixou e, minutos depois, voltou para levá-la de volta para sua casa. Emanuelle fez um apelo às autoridades para que a situação da unidade seja resolvida. “Que façam alguma coisa aqui pela gente. A gente precisa. A gente quer chegar e ser atendida. É muito ruim a gente chegar e depois voltar, só dinheiro gastado. A gente pede uma melhora aqui”, disse.

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image Autônoma Emanuelle Fernandes da Silva, de 25 anos: "A gente volta porque não tem atendimento, ou então está muito lotado" (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

“É uma calamidade”, diz autônoma

Sem outra opção de atendimento público próximo, Emanuelle afirmou que pode acabar recorrendo a uma consulta particular para garantir o atendimento da filha. “O problema é que só tem aqui (esse atendimento odontológico). Ou então eu venho e insisto ou então eu pago um particular para ela. Porque eu não vou ficar esperando. Ela precisa de um atendimento o mais rápido possível. Simplesmente, é uma calamidade. É complicado”, completou. “Pede um exame. Mano, aí só dá para quase o ano que vem. Não vai esperar, porque está com urgência para realizar o exame. O jeito é pagar um particular para fazer”, afirmou.

O mototaxista George Dias, de 54 anos, também criticou a situação da unidade de saúde e afirmou que a dificuldade para conseguir atendimento é frequente. “A situação desse posto, pelo menos desse aqui do conjunto Satélite, é de calamidade. Porque o tempo todo que é necessário a gente fazer uma consulta, qualquer tipo de exame que a gente procura fazer, na maioria das vezes não consegue”, afirmou. Segundo ele, familiares e conhecidos já enfrentaram problemas semelhantes na unidade.

“Eu tenho uma amiga aqui na (avenida) Augusto Montenegro, que ela veio já há mais quantas vezes aqui e não consegue. A minha irmã já tentou também e não conseguia. A minha irmã foi da vista dela que inflamou porque ela tem um problema na vista do lado esquerdo e ela veio tentar no clínico geral, mas não consegue, não sei por qual motivo”, contou.

Em sua moto, George transporta pacientes até a unidade e afirma que é comum precisar buscar as pessoas poucos minutos depois, porque elas não conseguem atendimento. “É comum. Isso acontece de três a quatro vezes durante a semana. É só o tempo de deixar e voltar. Depois me ligam novamente pra me buscar, porque não consegue atendimento. Agora mesmo aconteceu isso: deixei aqui a moça e, cinco minutos depois, ela me ligou de volta”, afirmou. O mototaxista também pediu mais atenção do poder público para a área da saúde e destacou que muitas famílias não têm condições de pagar atendimento particular.

“O apelo que a gente faz eu acho que já nem mais nem novidade a gente que fica nessa situação pendente é que o poder público olhe com mais carinho, com mais atenção, principalmente nessa área da saúde, porque isso é uma questão que a gente sabe que a vida não espera. A gente, com o piscar de olho, já passou. Não é um caso de precisão. É de extrema necessidade”, afirmou. “A gente não tem dinheiro para pagar um particular. Se tivesse, não estaria em uma condição dessa”, afirmou.

George ressaltou ainda que os próprios profissionais da unidade enfrentam dificuldades para prestar um atendimento adequado. “Na verdade, os próprios profissionais não têm condições de prestar um bom serviço. Porque, por mais que eles queiram, mas não é oferecido para eles também oferecer esse bom serviço. Então a gente sabe que na verdade eles nem têm culpa. É uma questão hierárquica, vem de lá de cima”, acrescentou.

image O mototaxista George Dias, de 54 anos, também criticou a situação da unidade de saúde: “A situação desse posto, pelo menos desse aqui do conjunto Satélite, é de calamidade" (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Gerente nega falta de atendimento

Gerente da unidade, Nádia Costa disse que os pacientes são acolhidos e atendidos pela equipe de saúde. Ela reconheceu que houve um problema técnico na cadeira odontológica, situação que provocou o cancelamento de atendimentos, mas afirmou que o conserto já foi encaminhado. Esse problema ocorreu na segunda-feira desta semana. “Mas já foram tomadas todas as providências”, disse.

A gerente destacou a importância do atendimento odontológico oferecido pela unidade para os moradores da região. E negou que os usuários entrem e saíam da unidade sem atendimento. “Isso não procede. Todos os nossos pacientes são acolhidos. Nós temos uma equipe de triagem de enfermeiros e médicos. Primeiramente, esse paciente passa por essa triagem vendo a necessidade desse paciente de atendimento no dia a dia. Nós atendemos demandas programadas, demandas espontâneas e demandas do dia”, afirmou, destacando que a unidade é de “portas abertas”.

Nádia Costa explicou que os pacientes passam inicialmente pela avaliação da enfermagem, que define o encaminhamento médico conforme a prioridade do caso. “Ele é acolhido pelo enfermeiro. O enfermeiro vê a necessidade desse paciente para encaminhar para o médico a prioridade dos pacientes”, explicou. A gerente também afirmou que a unidade possui profissionais suficientes para os atendimentos e destacou os serviços oferecidos diariamente. “Nós temos médicos, enfermeiros e técnicos na unidade. Temos fisioterapeuta, dentista, psicóloga”, disse. Ela acrescentou que a unidade realiza diversos serviços diariamente.

"Nós fazemos serviço de curativo na unidade todos os dias. De vacina. Nós temos uma rotina de atendimento diário”, afirmou. Ainda segundo Nádia Costa, o funcionamento da unidade ocorre das 8 às 17 horas. Sobre a aparência física da unidade, ela disse: “Estamos solicitando e fazendo todos os ajustes que a gente precisa para melhorar a estrutura física da unidade - a revitalização da unidade”, afirmou. “Algumas eventualidades acontecem. Nós temos alguns problemas técnicos e solicitamos as providências para serem solucionados”, acrescentou.

Unidade cita eventualidades

A gerente também ressaltou que a equipe da unidade continua prestando assistência aos usuários. “As equipes são muito bem estruturadas dentro do contexto para contemplar os nossos atendimentos. A gente não deixa de prestar aqui assistência para os nossos usuários e que não são os nossos usuários. A gente atende todos os usuários”, disse. Ela reforçou que, segundo a direção da unidade, nenhum paciente fica sem acolhimento.

“Ninguém fica sem atendimento. Se, naquele momento, ele precisa do atendimento, a gente já faz uma outra demanda para que a gente resolva a situação do paciente para que ele possa ser atendido dentro de uma programação de agenda, porque nós temos agenda de profissionais”, afirmou. Sobre a possível falta de vacinas e medicamentos, Nádia afirmou que os estoques dependem do abastecimento da central de distribuição.

“Nós temos medicamentos, sim, na unidade. Mas alguns medicamentos que não tem, a gente faz a solicitação e providencia para a central”, explicou, dizendo que é grande a área de abrangência de atuação da unidade. Segundo ela, quando há ausência pontual de algum medicamento, a unidade busca alternativas junto a outras unidades de saúde. “Em relação a medicamento controlado, a gente também sempre tenta fazer uma permuta para não faltar medicamento na unidade”, disse. A gerente também destacou outros serviços oferecidos pela Unidade do Satélite. “A gente faz aqui teste do pezinho, teste rápido”, afirmou. “A gente procura atender o máximo das nossas demandas”, disse. "São eventualidades e imprevistos que acontecem, mas nós resolvemos”, garantiu.

 

Posicionamentos

A reportagem solicitou uma nota de posicionamento para a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), para detalhar quais providência de vem ser tomadas diante dos problemas relatados na Unidade Básica de Saúde do Satélite. Não houve retorno até o fechamento desta edição. 

A reportagem também procurou o Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM PA) e o Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa), para apurar se acompanham as denúncias referentes à Unidade Básica de Saúde do Satélite. Também não houve retorno até o fechamento desta edição.

 

Problemas recorrentes na saúde pública

As reclamações sobre dificuldades no atendimento em unidades de saúde de Belém não são isoladas. No último dia 2 de maio, a reportagem de O Liberal mostrou denúncias de usuários da Unidade Básica de Saúde do Tapanã I envolvendo falta de vacinas, demora no atendimento, ausência de médicos, escassez de insumos e problemas estruturais. Pacientes relataram necessidade de chegar ainda de madrugada para tentar conseguir ficha, além de longas horas de espera sem solução.

Entre os relatos estavam o de uma grávida que afirmou não conseguir iniciar o pré-natal mesmo após várias tentativas, além de pacientes que disseram enfrentar dificuldades para renovar receitas médicas, realizar exames e obter encaminhamentos. Usuários também denunciaram banheiros sem funcionamento, água em condições inadequadas, superlotação e demora no atendimento de urgência e emergência. Houve ainda reclamações sobre a limitação de fichas e falta de exames básicos, como testes rápidos e raio-x.

Dias antes, em 29 de abril, outra reportagem já havia mostrado impactos na rede municipal de saúde após o Hospital Pio XII comunicar redução na capacidade de atendimento pediátrico devido ao atraso no repasse de recursos pela Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma). A unidade informou uma dívida próxima de R$ 2 milhões relacionada a serviços prestados ao SUS e relatou dificuldades para manter o funcionamento, incluindo escassez de medicamentos, insumos e atraso no pagamento de funcionários.

Na ocasião, o hospital reduziu o número de leitos pediátricos de 70 para 20 e passou a restringir atendimentos para garantir segurança operacional. Funcionários relataram atraso de salários e pacientes também denunciaram dificuldades para conseguir atendimento em outras unidades da capital. O cenário aumentou a pressão sobre a rede pública de saúde e expôs problemas que usuários afirmam enfrentar em diferentes pontos de Belém.

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