Uso excessivo de inseticidas em ilhas de Belém acende alerta para risco de Parkinson, revela estudo
Realizada nas ilhas de Belém, a pesquisa revela alta exposição de idosos a inseticidas e reforça o risco associado ao desenvolvimento do Parkinson
O uso frequente de inseticidas entre moradores idosos de quatro ilhas da região metropolitana de Belém é o dado mais preocupante revelado por um estudo epidemiológico sobre a doença de Parkinson realizado na capital paraense. A pesquisa, conduzida entre 2022 e 2025 nas ilhas de Cotijuba, Combu, Outeiro (comunidade do Fama) e Mosqueiro (comunidades do Sucurijuquara e Furo das Marinhas), entrevistou 1.163 pessoas com mais de 60 anos em seus domicílios. Após a análise dos dados, os pesquisadores trabalham na elaboração do relatório final. O estudo integra uma investigação internacional financiada pela Michael J. Fox Foundation for Parkinson Research, voltada a compreender a doença de Parkinson em populações vulneráveis de regiões periféricas do mundo. No Pará, o estudo é coordenado pelos doutores Bruno Lopes Santos Lobato e Lane Viana Krejcova, ambos professores da Universidade Federal do Pará (UFPA).
No Brasil, o estudo recebeu o nome de Estudo epidemiológico da doença de Parkinson prodrômica e estabelecida no Brasil, (PROBE-PD, sigla em inglês) e foi realizado em quatro regiões: ilhas de Belém (Pará), Veranópolis (Rio Grande do Sul), Jacobina (Bahia) e Candangolândia (Distrito Federal). O objetivo é identificar a prevalência da doença de Parkinson, ou seja, a proporção de casos em face à população total de cada região.
Participam do estudo pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade de Brasília (UnB). Também integra a equipe, a professora de Educação Física Juliana Duarte, mestra em Biologia Celular e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Oncologia e Ciências Médicas da UFPA, orientanda do professor Bruno Lopes.
Risco
A literatura médica tem mostrado há décadas que existe uma associação entre a exposição a pesticidas e o surgimento da doença de Parkinson. Os riscos são maiores para quem mora próximo a plantações nas quais são empregados usualmente agrotóxicos ou pesticidas agrícolas. O uso permanente de agrotóxicos pode contaminar mananciais e causar problemas à saúde não somente para quem manipula esses produtos, mas também para quem consome a água desses mananciais. Contudo, estudos prévios do grupo do professor Bruno já haviam mostrado que, além dos pesticidas agrícolas, a exposição aos pesticidas domésticos, como inseticidas, também está associada a um maior risco de surgimento da doença de Parkinson.
No contexto do estudo PROBE-PD, os professores participaram da estruturação do projeto de um estudo básico para levantar a prevalência da doença de Parkinson e fatores de risco, como, por exemplo, a associação da doença ao ambiente. A equipe de pesquisadores da UFPA, a partir das visitas e entrevistas realizadas, concluiu que a população de regiões mais necessitadas, como a de áreas rurais das ilhas de Belém, está mais exposta ao uso excessivo de inseticidas.
A pesquisa mostrou que 60% da população acima de 60 anos nas ilhas de Belém faz uso de algum tipo de inseticida, pelo menos uma vez por semana, conforme revelaram nas entrevistas. Muitos desses inseticidas de uso doméstico, usados para combater pernilongos, são vendidos sem qualquer controle, e alguns sem registro da Anvisa. Há produtos que não identificam seus princípios ativos, mas frequentemente contêm compostos químicos da classe dos piretroides, de ação tóxica. O uso excessivo e constante destes produtos, principalmente em ambientes fechados (a prática de fechar o quarto e borrifar o inseticida), pode afetar a saúde do usuário a longo prazo.
Os pesquisadores fazem, porém, uma distinção importante para não causar alarme injustificado. A professora Lane Krejcova, especialista em neurodegeneração, observa que os inseticidas de uso doméstico vendidos regularmente em supermercados, devidamente registrados, contêm piretroides em baixas concentrações e, quando usados com parcimônia, são rapidamente degradados no ambiente, apresentando menor toxicidade. “O problema está no uso excessivo, condição que não permite a metabolização pelo ambiente”, adverte a pesquisadora.
Uso no dia a dia
Situação distinta, e mais preocupante, é o emprego, como inseticida doméstico, de um carrapaticida de uso veterinário à base de cipermetrina, formulado para o controle de carrapatos e moscas em bovinos. Trata-se de um concentrado emulsionável, normalmente vendido em frascos pequenos em casas de produtos agropecuários, que deve ser diluído em água conforme as instruções da bula. Por desconhecimento dos riscos para o ser humano, esse tipo de produto vem sendo desviado de sua finalidade original e empregado pela população para combater pernilongos – inclusive os mosquitos transmissores da dengue, zika e chikungunya -, além de baratas, formigas e cupins.
“É muito frequente as pessoas usarem esse carrapaticida bovino dissolvido em água para matar formigas ou cupins. Elas jogam o produto no entorno de suas casas, o veneno se infiltra no lençol freático, contaminando águas de poços e de rios. Estamos falando de populações ribeirinhas, cujas casas estão próximas de rios e geralmente possuem poços nos quintais. O risco de contraírem doenças, entre as quais o Parkinson, é enorme”, afirma a doutoranda Juliana Duarte.
Solução
Segundo Bruno Lobato, esses carrapaticidas contêm piretroides de uso veterinário, empregados em animais de grande porte como bovinos, mas conforme orientações específicas de manuseio prescritas na bula. “Há toda uma recomendação sobre a manipulação do produto para evitar a infiltração no lençol freático, porque ele é diluído em água e não pode ser descartado de qualquer forma. Muitas pessoas, porém, não sabem disso e o usam em quintais ou nas paredes internas e externas de suas casas como inseticida de uso doméstico. Fazem isso por desconhecer os riscos. É um problema grave”, afirma.
Para ele, a solução mais eficiente e barata passa pela educação da população. Os órgãos de saúde pública devem basicamente explicar aos moradores os riscos aos quais estão sujeitos ao manipular carrapaticidas bovinos como inseticida comum. Recomendações sanitárias preventivas que evitem a proliferação de mosquitos também são bem-vindas. Entre elas, não deixar água acumulada em recipientes como vasos e calhas, que acabam se tornando habitats para insetos vetores de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
Ilhas de Belém
A realização do estudo PROBE-PD para quantificar os números básicos sobre a doença de Parkinson era uma preocupação expressa por Bruno Lopes há bastante tempo, desde quando começou a lidar com a doença. Os pesquisadores do estudo sentiam a necessidade de atualizar os números do único estudo até então realizado, na década de 2000, na cidade de Bambuí, próximo a Belo Horizonte, Minas Gerais. A oportunidade de realizar um estudo mais abrangente, envolvendo não uma única cidade, mas quatro regiões brasileiras distintas, veio com o edital financiado pela Michael J. Fox Foundation for Parkinson Research. Quatro instituições federais de ensino e pesquisa se habilitaram ao novo estudo, entre as quais a UFPA.
Os pesquisadores elegeram as pessoas acima de 60 anos como público-alvo da pesquisa por ser este grupo o de maior risco de desenvolver a doença de Parkinson. Além do interesse na prevalência, os pesquisadores estavam interessados em estudar mais sobre os fatores de risco que podem causar a doença, entre os quais o impacto do ambiente. “A gente sabe os fatores de risco, mas não exatamente como eles impactam as pessoas porque, no Brasil, esses números são muito pouco claros”, informa o neurologista Bruno Lopes.
Região periférica
Em Belém, os pesquisadores elegeram a região insular de Belém como local da pesquisa por ser uma região periférica onde mora uma população vulnerável. Nas ilhas reside uma população de aproximadamente 62 mil pessoas. A partir de dados fornecidos pela Prefeitura de Belém e pela Secretaria Municipal de Saúde, os pesquisadores quantificaram o número de idosos acima de 60 anos e estabeleceram uma amostra possível de ser visitada diretamente em suas casas. A decisão de fazer visita direta, de porta em porta, é explicada pela professora Lane Krejcova: “não queríamos fazer uma pesquisa a partir de relato de pessoas que nos procurassem, cabendo a nós apenas computar os números finais. Além disso, por conta das características da região, onde o acesso à internet nem sempre é possível, a opção pela visita física aos idosos se mostrou necessária, afinal também queríamos saber sobre os fatores que predispõe à doença”.
A equipe de 30 pessoas, quase toda formada por pessoal da área de saúde, incluindo os bolsistas, enfrentou as asperezas de se deslocar por lugares algumas vezes de difícil acesso. O resultado das entrevistas apontou a prevalência de 1.63%. Ou seja, para cada grupo de 100 pessoas acima de 60 anos em Belém, quase duas desenvolverão a doença de Parkinson. Para os coordenadores da pesquisa, a prevalência evidencia que a doença de Parkinson não é rara, principalmente se for considerado o tamanho da população de idosos em Belém. A prevalência registrada em Belém segue a taxa nacional e os números preocupam porque, segundo o último censo, são quase 33 milhões de idosos no Brasil. Mas, identificar fatores que predispõem à doença de Parkinson, como fizeram os pesquisadores da UFPA no caso do uso excessivo de inseticida, é um grande avanço para reduzir casos novos da doença.
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