Trabalhadores improvisam para manter artesanato de Icoaraci vivo

Com medo de voltar ao mangue, barreirenses do Paracuri contam com a solidariedade de particulares

Dilson Pimentel

A operação que a Polícia Militar realizou no Paracuri, há pouco mais de uma semana, feriu os tiradores de barro e, também, a cerâmica em Icoaraci. Quatro trabalhadores foram baleados. Um morreu. E, desde então, os barreirenses, como são chamados aqueles que extraem argila, não voltaram a retirar barro dos mangues. Esses trabalhadores só não estão totalmente sem renda porque, por enquanto, estão extraindo a argila de uma propriedade particular, também no Paracuri. Eles dizem que, desse local improvisado, e provisório, só é retirado material suficiente para eles "livrem o da 'boia'" (o da alimentação). 

E, sem o trabalho dos barreirenses, o artesanato para no Paracui, onde há muitas lojas de artesanato. É que a argila é a matéria-prima para a produção das peças de cerâmica. E, até a peça chegar às lojas, há toda uma cadeia produtiva, que, agora, está parada. Isso envolve, por exemplo, os oleiros, que fazem os vasos. Há os desenhistas, que desenham escudos de clubes de futebol e motivos marajoara nas canecas. Há os boleiros, que limpam a argila pra deixá-la pura. Há os queimadores de forno, que queimam as peças. Há, também, os pintores de peças. E os carroceiros, que levam lenha para os fornos. Ou seja, para toda a cadeira produtiva do artesanato. Ainda segundo eles, a argila move o artesanato. E o turismo de Icoaraci é movido pelo artesanato do Paracuri.

Djalma Souza tem 53 anos de idade e exerce a profissão desde os 12. "Eu desenho escudos de times de futebol em canecas", contou.  "Assim que sai do torno, quando o oleiro acaba de fazer a peça, tem o acabamento, no caso da canela. E vem para o desenho. Ela tem que estar no ponto pra gente poder fazer o design", disse. Em média, ele desenha 100 canecas por dia. 

Essa tarefa, um trabalho delicado e paciente, leva de três a cinco minutos. A operação policial, que está sendo investigada pelas Polícias Civil e militar, prejudicou, portanto, centenas de pessoas no Paracuri, cuja produção abastece Belém, municípios do interior e outros Estados. "Afetou muito. A gente depende da matéria-prima - da argila que é extraída desses terrenos que chamamos de barreiros. Sem a matéria-prima, não podemos trabalhar. Dependemos do pessoal que tira da argila para chegar ela pronta na prateleira", contou Djalma, que, nas horas vaga, e como eles mesmo diz, "ataca" de cantor.

Medo de voltar para o mangue

Na manhã de quinta-feira, Daniel de Oliveira, de 34 anos, estava, literalmente, com a mão no barro. Ele retirava a argila daquela propriedade particular. O material é, depois, beneficiado nas olarias. Daniel pinta a cerâmica. "Os barreirenses pararam de tirar barro, ficaram com medo de voltar para o mangue. E, sem argila, não tem produção, não tem nada", disse ele, que trabalha nessa profissão desde os 12 anos de idade.

"Isso movimenta toda uma cadeia produtiva. Começa pelo barreiro, depois o boleiro (que tira o lixo e a raiz do barro). Aí, vem o oleiro, que faz a peça e, depois, o desenhista, o burnidor (passa o brilho na peça para ir para o fogo). Em seguida, vem o queimador (bota no forno para queimar as peças). Tem, ainda, o carroceiro, que leva esse material beneficiado até as lojas, onde o artesanato é vendido. Movimenta, enfim, centenas de pessoas. Vai passando de pouquinho em pouquinho até chegar no cliente. Tudo isso está parado", disse Daniel.
 

Belém